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Sean Riley & The Slowriders – 10 anos de amizade em palco

Um grupo de amigos com sonhos típicos da juventude começou, há 10 anos, um projeto que hoje se mostra sólido e com futuro. Escondidos num estúdio improvisado numa garagem ou nos estúdios da Rádio Universidade de Coimbra, Afonso, Bruno e Filipe Costa e Filipe Rocha começaram a criar aquilo que seriam as músicas dos Sean Riley & The Slowriders. Uma década volvida, centenas de concertos depois, os músicos celebram os 10 anos do lançamento do primeiro disco, “Farewell”, com uma tournée e o relançamento do disco.

Esta data especial foi o pretexto para nos sentarmos à conversa com Filipe Costa, um dos membros da banda, que nos levou numa viagem por estes 10 anos de carreira e por uma incursão ao interior da dinâmica e da convivência do grupo, que se tem revelado como um dos mais bem-sucedidos projetos musicais em Portugal.

ARDINAS 24 – Estamos aqui porque já passaram 10 anos desde que lançaram o vosso primeiro álbum. Deste pelo tempo passar?

Filipe Costa – Passou muito rapidamente, e ao mesmo tempo são 10 anos recheados de muitas histórias e muitas memórias. É curioso, o tempo. Só quando celebras uma data ou prestas mais atenção ao número redondo é que acabas por realizar uma série de coisas que aconteceram enquanto percurso, porque para nós tem sido sempre, à semelhança da forma como encaramos a maior parte das coisas nas nossas vidas, um momento presente, sempre no presente. Tem sido giro olhar para trás, não em jeito de balanço, mas como forma de revisitar algumas memórias de coisas que foram muito importantes para nós e para o nosso percurso, que estava longe de ser aquilo que podíamos antecipar quando isto começou.

Há 10 anos não pensavam chegar ao patamar onde chegaram?

Não esperávamos chegar a nenhum patamar, qualquer que ele fosse. As coisas foram acontecendo por acaso. Não houve propriamente uma criação de uma banda com definição de objetivos ou de estratégias…

Foi mais uma brincadeira de amigos da Faculdade…

Sim, éramos três amigos com grande paixão pela música, curiosamente os três tocávamos instrumentos, e a forma como ocupávamos a maior parte do tempo que passávamos juntos (e que era muito) acabava por ser a ouvir música ou a tocar. Há uma altura em que percebemos que o Afonso tem algumas canções escritas, que não apresentava a muitas pessoas. E, a partir do momento em que conhecemos essas canções, achámos que eram demasiado bonitas e tinham demasiada qualidade para ficarem escondidas numa gaveta lá de casa. Naturalmente quando nos encontrávamos era para trabalhar as canções com ele. Entre isto, íamos gravando as demos, ou o Afonso gravava sozinho e depois íamos para o estúdio caseiro do Bruno para adicionar instrumentos.

E pelo meio há também a Universidade de Coimbra…

Sim. Um dos sítios onde acabávamos por gravar, mais ou menos às escondidas, era a Rádio Universidade de Coimbra, da qual fazíamos parte os três. Começou a haver algum burburinho de que nós estaríamos a fazer alguma coisa. De facto estávamos, mas não com esse intuito ou de forma tão consciente para nós. Um dos grandes responsáveis por isto é o Bruninho, que, à nossa revelia, acabava por passar os temas em alguns programas da rádio, e as pessoas começaram a perguntar quem era. Geraram-se aí alguns mitos; lembro-me de ouvir dizer que eram músicas de um artista canadiano, ou a perguntar se eram de algum irlandês…

Isso pode ser um elogio!

Talvez (risos)! Até que há o concerto de aniversário da Rádio Universidade de Coimbra, a 3 de março, no Teatro Académico Gil Vicente. Há um artista internacional que lá vai – que é o Ernesto – e, de repente, toca o telefone, e o Hugo Ferreira, que estava na rádio e na organização do concerto, pergunta-nos se os Sean Riley gostariam de fazer a primeira parte. Para nós, primeiro, esse convite caiu como uma coisa muito engraçada. Rimo-nos muito, mas, no segundo seguinte, depois da risada, dissemos logo que sim e avançámos. Foi nesse momento que percebemos que tínhamos de marcar ensaios com urgência, ensaios que foram mais voltados para a construção das músicas do que para a própria performance. A partir do momento em que o concerto acontece, em que há um palco que pisamos, uma plateia, um microfone, aquilo, sim!, ganha uma dimensão diferente. Surgiu aí a ideia de que tínhamos realmente uma banda. Foi o materializar de muitas coisas que eram a nossa vida pessoal.

A partir daí foi lutar pelo sonho.

Sim, sem dúvida. Assim que o concerto terminou e chegámos ao backstage, houve duas pessoas que chegaram ao pé de nós com propostas discográficas e a tentar marcar tournées connosco. Por mais absurdo que tudo aquilo ainda parecesse, fomos objetivando a ideia de que tínhamos uma banda em mãos e de que havia um caminho que ela podia percorrer. Começámos a ser mais organizados a partir daí na construção dos nossos objetivos.

Foi fácil esse processo de juntar pessoas diferentes e conciliá-las num único projeto musical, numa única forma de fazer música e de entender a música?

Sim, porque éramos três amigos, e os amigos são amigos porque se completam. Nós tínhamos muitos pontos em comum em termos musicais e na visão do mundo que tínhamos. Ao mesmo tempo, cada um trazia para as conversas ou para a sala de ensaios outras bandas e músicas que estava a ouvir naquele momento e que não estavam necessariamente na esfera de um dos outros. Isso acabava por ser mais um elemento de descoberta e tinha tradução na própria música que criávamos, que só de si está, desde sempre, livre de preconceitos ou rigidez. Nunca escolhemos ao que é que queremos soar. Sempre encarámos tudo com grande honestidade e liberdade, à procura da música que melhor soava para todos nós na sala de ensaios.

E assim nasceu o álbum “Farewell”, que agora assinala 10 anos e está de novo na rua numa edição especial em vinil. Porquê a ideia de comemorar assim esta data?

No ano passado olhámos para o calendário e percebemos que íamos chegar a um número redondo, um número que, na nossa cabeça, merecia ser celebrado porque significa o lançamento de um disco que foi muito importante para nós. Marcou o início, foi a primeira vez que vimos materializados tantos sonhos e objetivos da nossa amizade e da nossa relação pessoal. É um disco que nos levou para a estrada para fazermos mais de 80 datas só nesse ano, e cada uma dessas datas nos traz mais memórias e vivências inesquecíveis. Achámos que fazia sentido celebrar o disco. E percebemos duas coisas muito práticas: o disco estava esgotado, e por isso fazia sentido fazer uma reedição do disco; depois, percebemos que não tínhamos feito uma edição de vinil, e o vinil é um objeto que, para nós, para a nossa conceção de música, é importante e simbólico. Falámos com a nossa editora, que achou as ideias excelentes. E, por fim, para fazermos a festa, tínhamos de levar o disco para a estrada. Na nossa cabeça, estava a ideia de fazermos duas ou três datas (possivelmente Lisboa, Porto e Coimbra) e, assim, num único fim-de-semana fazíamos a festa…

No entanto…

Pois, a palavra começou a espalhar-se e, além das propostas que apresentámos a alguns espaços que tínhamos escolhido (por terem sido importantes para nós há 10 anos), começaram a aparecer muitas mais (risos). Isso foi muito importante para nós.

Têm alguns temas novos nesta reedição do álbum. Inserem-se na sonoridade original?

Sim, porque na realidade não é material novo. Tratam-se de canções que foram gravadas na altura mas que acabaram por ficar de fora da primeira edição. Um tema, que é o Bring Your Boy Home, tinha para nós um significado especial, e achámos que, de todo o material que tinha ficado fora do disco, era um tema que fazia sentido trazer para esta nova edição e para os concertos ao vivo. Foi das primeiras canções que gravámos juntos, no sótão do Bruno, e tem um significado muito especial. Também trouxemos para o disco duas versões alternativas de dois temas nossos, o Lights Out e o Moving On, gravadas um mês depois da gravação original, e quisemos mostrá-las neste relançamento, até porque foram canções que acabaram por estar presentes em praticamente todos os concertos da banda nestes 10 anos.

É visível a forma ternurenta com que falas do Bruno, que partiu o ano passado… Na altura em que isso aconteceu pensaram desistir?

Sim, pensámos. Num momento como aquele passaram-nos milhares de coisas pela cabeça, e nenhuma relacionada com a banda. Foi um amigo que tinha partido. Mas, passados uns dias, na primeira vez que essa questão se acaba por colocar, a primeira coisa que nos ocorreu foi que esta perda já tinha sido demasiado grande para perdermos, provavelmente, a segunda coisa mais importante das nossas vidas. Não houve grande dúvida quanto a continuar.

A celebração destes 10 anos também é uma forma de o homenagear…

As homenagens estão lá todos os dias. Felizmente, foram 10 anos juntos e a banda deu muitas oportunidades para que estivéssemos juntos enquanto músicos, além do tempo que passámos juntos enquanto amigos. Então as homenagens, a memória e a presença dele estão todos os dias em tudo o que fazemos, e mais evidente se torna quando regressamos às origens e às canções que criámos juntos, que é caso deste Farewell.

Já tiveram bastantes datas até ao momento, e mais estão por vir. O que podemos esperar destes concertos dos 10 anos?

O que tem acontecido até agora tem sido bastante bom. As salas têm enchido, e algumas esgotaram mesmo, e é bom ver que isto não é apenas um gesto narcisista da nossa parte e que as pessoas estão a aderir. Depois, tem-se gerado nas salas, e isso é o mais importante, uma dinâmica e uma energia de partilha entre o palco e a plateia. Não tem sido um concerto que vá do palco para a frente; é uma coisa mais circular, em que se sente que as pessoas querem partilhar connosco esta revisitação. Temos encontrado na plateia caras conhecidas que tinham estado nos primeiros concertos do Farewell, e isso é muito giro e gratificante, ao mesmo tempo que encontramos pessoas que nos conheceram no ano passado e têm a curiosidade de perceber como é que começou o nosso percurso. É um ato de partilha muito bom.

Atuaram também no Convento de São Francisco, em Coimbra. Esse foi um concerto especial, por ser Coimbra e um espaço diferente do habitual?

Sem dúvida! Foi a primeira vez que tocámos no Convento de São Francisco depois da remodelação, porque tínhamos já atuado no altar do Convento quando ele era ainda o templo religioso. Foi giro voltar lá e conhecer esta nova sala com um novo visual para interpretar o mesmo disco. Foi especial a todos os níveis. Atuar em Coimbra é como atuar em casa, e no dia do concerto, na parte da manhã, visitámos alguns sítios que foram importantes para nós na altura. Também foi bom porque tocámos num festival organizado pelo Rui Ferreira, que foi o primeiro manager da banda, a pessoa que acreditou primeiro em nós e nos quis levar para a estrada, além de ter sido com ele que gravámos o Farewell. Fica mesmo na nossa memória como uma das datas especiais deste percurso.

Que projetos futuros têm?

Vamos tocar na Guarda e fazer duas datas na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Neste momento estamos totalmente focados naquilo que está a acontecer com o Farewell. No próximo ano vamos continuar a tour do disco homónimo, que saiu no ano passado e tinha estado a fazer a estrada durante a primeira metade deste ano e cuja tour foi interrompida para esta celebração. Temos mais datas para fazer desse disco, algumas já confirmadas oficialmente e outras por aparecer. Esses são os nossos planos no imediato. Não pensamos muito além disso.

Enquanto banda há algum palco que gostassem muito de pisar?

Sim. Curiosamente, nos primeiros ensaios da banda e à medida que as coisas se tornavam meio-realidade, meio-fantasia para nós, apareciam algumas piadas em termos de salas onde estaríamos a tocar dentro de algum tempo. De facto, daí a alguns meses, já tínhamos atuado em todas (risos). Era um sonho do Bruno tocar na Aula Magna, e passados poucos meses estávamos lá a abrir um concerto para o José González. Ainda na tour do Farewell, conseguimos atuar no Coliseu de Lisboa. Foram salas importantes para nós, como foram também outras salas mais pequenas e fora de circuito. Mas gostaríamos de estar em todos os palcos possíveis, por muito cliché que isto soe. É muito raro termos recusado uma data. Queremos tocar, o mais possível, e podemos tocar num dia numa sala para 150 pessoas, e no dia seguinte atuar para 10 mil, ao ar livre.

Cada palco é um palco, e é disso que precisa uma banda.

Sim, claro que sim. E já tocámos em todo o tipo de palcos, nas circunstâncias mais anedóticas. Aprendemos sempre muita coisa em todos eles. Na verdade, tem menos a ver com o palco do que com as pessoas que lá estão a assistir. Na nossa primeira tour, atuámos em sítios que mais pareciam cafetarias ou bares, em que estavam 15 pessoas à nossa frente e, dessas, 12 estavam mais interessadas no café que estavam a tomar, mas haver duas que te dizem que fizeram 150 quilómetros para nos ouvir. Isso é alimento suficiente para chegarmos ao palco e entregarmos tudo da melhor forma. Mesmo que essas duas pessoas não existam, estamos lá nós. Se as canções no palco não forem tocadas de alguma forma de uns para os outros, de forma alguma vão ressoar para fora e passar alguma mensagem ao público. Coloquem um estrado e microfones à nossa frente, que nós arranjamos forma de que a música aconteça!

Fotos: Joana Linda

Sobre o autor

Gonçalo Esteves Coelho

Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto.
Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História.
Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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