Cultura

Livro. O esquecido mas mortífero Cerco de Almada

Houve, em 1384, O Implacável Cerco de Almada. Este é o título do novo livro de António da Costa Neves, mas é também o nome de um acontecimento da nossa história que praticamente ninguém conhece. Refere-se ao momento em que exércitos de Castela cercam Lisboa e, também, a cidade de Almada, cujo cerco foi muito mais agressivo e mortífero. É este episódio e as suas numerosas vítimas que aparecem no romance histórico do autor.

O filho do regedor da cidade, uma prostituta e ainda o célebre D. Nuno Álvares Pereira – o que parece ser uma combinação improvável não é mais do que as peças indispensáveis ao avanço desta narrativa, cujos factos históricos se equilibram ao lado da grande teia ficcional concebida pelo autor.

António da Costa Neves é um homem experiente e um autor dinâmico, versátil e talentoso. Tem obras de poesia e ficção, já ganhou inúmeros prémios e inclusivamente já participou em colóquios e conferências sobre literatura e a arte da escrita. Foi bancário e formou-se em História. Teve sempre um gosto pelas palavras, e esta paixão pela escrita tornam-se visíveis pelo brilho do olhar e pelo sorriso encantador que teve em cada segundo da entrevista ao ARDINAS 24.

ARDINAS 24 – Fale-nos um pouco de como tem sido a receção a este livro por parte do público, das livrarias, das bibliotecas?

António da Costa Neves – O livro está há muito pouco tempo no mercado. Já visitei algumas lojas, perguntei pelo livro e disseram-me que se está a ver um pouco por todo o lado. Onde se têm vendido mais livros, até com direito a reposição nas lojas, é em Almada, mas isso é perfeitamente normal porque o livro tem um título muito apelativo. Mas estou satisfeito: o livro está a ser vendido!

Como é que uma pessoa que estuda História e se forma neste ramo, cujo trabalho assenta essencialmente em factos e eventos reais, passa para a ficção histórica? Como é que todo o processo de escrita?

Eu toda a vida escrevi poesia. Escrevi em jornais regionais, revistas, fui sempre publicando poemas. Mas só quando fiz 60 anos, há uma dezena de anos, concretizei um plano que tinha metido na cabeça há muito tempo – o de deixar de trabalhar. Por isso, a 31 de dezembro do ano em que fiz 60 anos eu tinha a minha vida organizada para deixar de trabalhar e, de facto, assim foi. Mas, passados três meses de estar em casa, eu já não sabia o que fazer. Escrever um poema já não me chegava. Então, um dia, no começo de um mês de abril, lembrei-me de um episódio verdadeiro que tinha acontecido com uma pessoa amiga em África. Pensei que esse acontecimento desse uma boa peça de teatro – tinha sido um chefe de posto das autoridades locais que, a certa altura, tinha levado um rapazinho para casa, sentou-o à mesa com os filhos e, depois de algumas peripécias, ele matou o rapaz e matou-o a ele próprio. É uma história rocambolesca, com aspetos pouco esclarecidos. Parecia saído da ficção, como se fosse uma trama passional. Pensei que desse uma boa peça de teatro e um dia sentei-me a escrever. Tinha alguma experiência daquele tempo que ganhei através da Guerra Colonial, da tropa, e isso acabou por se interpor no que estava a escrever e juntei as duas coisas. Foi assim que saiu um romance que se chama Mataram o Chefe do Posto, o meu primeiro livro. A seguir escrevi outro, e logo depois outro. Nesse ano, em nove meses, escrevi três livros. Só me faltava saber o que fazer com esses livros… Tinha 60 anos, não conhecia ninguém, não estava ligado à área, nem tinha sido professor sequer (tinha tirado o curso de História a trabalhar, e na altura era bancário). Percebi que só poderia lá chegar através de um concurso, então enviei as obras para três concursos diferentes – um para Almada, outro para Faro e outro para Portimão. Qual não foi a minha surpresa quando, passado uns meses, a Câmara Municipal de Almada me ligou a dar os parabéns porque me tinham dado o Prémio Literário Cidade de Almada, o mais importante dos três que a autarquia possui porque está aberta a autores de todo o país. Passado pouco tempo, ligaram-me de Faro a dizer que tinha vencido um outro prémio com um outro livro, Arquivo Morto. Depois, por questões comerciais, o editor não gostou do título e então mudámos mais tarde para Mea Culpa. O terceiro livro era uma espécie de sátira e chamava-se Nem Por Sonhos, e foi editado pela Cotovia em colaboração com a Câmara de Portimão.

Então os seus primeiros três livros foram premiados.

Sim. Embora possa parecer fácil, é importante deixar claro que não é fácil viver de livros e depender de editoras. No meu caso, tinha mais do que um editor interessado nas minhas obras, e assim pude escolher aquela que eu queria. 

Porque escolheu então a Saída de Emergência?

Eu mal conhecia a Saída de Emergência. Tinha visto alguns livros publicados por eles à venda, como os da Nora Roberts, mas ficava-se por aí. No entanto, escolhi-os porque, ao falar com eles, percebi que eles tinham uma vantagem em relação à outra editora que estava interessada em mim – eles tinham um contrato de distribuição com a Bertrand. Isso bastou-me! (risos)

E depois de um começo tão afortunado, nunca mais parou de escrever…

Nunca mais. Nestes 10 anos já escrevi uns oito ou nove livros. Publiquei inicialmente com o pseudónimo “E. S. Tagino”, porque tinha sido o nome que utilizei no Prémio Literário de Almada. O nome remete-nos para o Tejo e para o Sado… Como vivo em Almada há 40 anos, sinto-me como se estivesse no meio deles. Mas, no ano passado, comecei a sentir que estes 10 anos representavam um ciclo que já estava a fechar-se, e o meu editor também achou. Daí este livro ser o primeiro a ser publicado com o meu nome verdadeiro, tal como assino toda a minha poesia.

E este livro é também o primeiro que escreve sobre Almada?

Sim, é! É um livro histórico. Na realidade, é o terceiro romance histórico que publico.

Todos sobre diferentes épocas históricas?

Sim. Um, O Amor Nos Anos de Chumbo, é sobre a guerrilha miguelista entre 1834-36, no Algarve, e mais especificamente sobre um célebre guerrilheiro, que era o Remexido. Quando andava na faculdade, tinha lido algures, a propósito de um trabalho qualquer, que o “Remexido” tinha a sua guerrilha instalada na Serra do Caldeirão e que, um dia, tinha ido até Grândola (a minha terra de origem). Ele tinha estado lá umas horas, sabia-se que tinha feito um assalto lá, mas não havia grandes referências. Quando comecei a escrever, lembrei-me desta informação, achei que era um tópico interessante, e então fui tentar saber mais. Pesquisei a razão pela qual esta personagem andou mais de 100 quilómetros pelo Alentejo para chegar a Grândola, sujeito a ser apanhado pelas tropas liberais. Percebi, então, que ele tinha ido ali por causa de uma reunião política: Grândola tinha sido da Ordem de Santiago mas depois tinha sido passada para nome próprio de um nobre, da família de D. João II e depois da Casa Cadaval; na altura do Remexido, o primeiro-ministro de D. Miguel era o Duque do Cadaval, e ele era também Comendador de Grândola. A vila foi escolhida para uma importante reunião.

Depois escrevi um outro, o Adamastor, que conta a passagem de Camões pela Ilha de Moçambique e as dificuldades pelas quais este nobre poeta passou – até os seus amigos tiveram de se unir para o apoiar. Este livro tem muitas referências históricas, mas também ficcionei muito (risos). Visitei a Ilha de Moçambique dezenas de vezes e inclusivamente fui àquela que foi a casa onde supostamente o Camões tinha vivido, e que acolhe hoje a Casa da Cultura local. É um livro especial, que foi até objeto de um seminário na Universidade de Coimbra e que teve até direito a uma apresentação feita por um professor na Universidade Complutense de Madrid.

Este seu novo livro aborda um episódio que não é assim tão conhecido por parte das pessoas. É por viver em Almada que tomou conhecimento dele?

Isso ajudou, sem dúvida. Em 2011, fui convidado pela Câmara de Almada para representar o município num congresso de escritores de Língua Portuguesa no Brasil, patrocinado pela UCLA. Aceitei com muito agrado a escolha, mas disseram-me depois que eu iria ficar no painel da literatura de viagens. Sabia que nunca tinha feito propriamente esse género literário. Achei estranho mas lá me organizei para encontrar um tema de que pudesse falar nas convenções e nas apresentações no Brasil relacionado com Almada. Tinha duas opções: a primeira, mais óbvia, era falar do Fernão Mendes Pinto, que viveu em Almada depois de ter vindo do Oriente e que foi uma pessoa relevante na cidade, onde escreveu mesmo a Peregrinação; a outra, era fazer um itinerário literário da cidade de Almada. Ao fazer a pesquisa para este último tema, encontrei, junto à margem do Tejo, uma pedra já apagada pelo tempo, com cerca de 150 anos, que incluía dois versos do canto VIII d’Os Lusíadas, que diziam: “Digno feito de ser no mundo eterno / Grande no tempo antigo e no moderno”.

São versos que se referem ao Cerco de Almada?

Referem-se aos feitos heróicos que o povo de Almada fez em 1384 em nome do Mestre de Avis. Por terem tomado partido dele, futuro rei D. João I, contra os interesses dos poderosos, o povo de Almada sofreu as consequências de um cerco que foi muito mais violento do que o de Lisboa. Em Almada, depois de os capitães dele não terem conseguido tomar a cidade, ele foi de propósito lá, colocou um palanque junto à Igreja de Santiago para assistir à luta entre os seus homens e os opositores. No meio dessas batalhas, a população sofreu muito, e Camões homenageou-os na sua obra.

Ao fazer essa descoberta, teve logo a ideia de escrever um romance?

Na altura em que encontrei a pedra não fiquei com vontade de escrever sobre isso. Achei que era algo muito interessante, claro, mas tinha de ir para o Brasil e fazer o trabalho a que me tinha proposto. Só recentemente, quando pensei em escrever um novo livro, fui buscar essa ideia à minha cabeça e pareceu-me ideal para uma nova obra, porque ninguém conhece o Cerco de Almada, o que é pena, porque há muita informação e muita coisa para se saber. Acabei por utilizar um subterfúgio estilístico… O regedor de Almada na altura era o Afonso Galo, e tem até uma rua com o seu nome em Almada. Este homem é logo preso no início do Cerco. Eu, ao fazer a pesquisa em documentos, descobri que 30 anos depois destes acontecimentos havia um tabelião João Galo a assinar escrituras em Almada. Ou seja, poderia perfeitamente ter sido filho do Afonso e ter tido aproximadamente 14 anos na altura do Cerco. Assim, é o meu herói acidental, imprevisto! É ele o narrador de uma narrativa que escreve já quando é adulto, a pedido do Fernão Lopes, que recebe de João Galo todos os conhecimentos sobre essa época. É um cruzamento de nomes e possibilidades que até são verossímeis.

Houve então uma grande investigação para a redação desta obra.

Sim. E consegui ligar tudo. Há tantas possibilidades de ter sido assim como de não ter sido. Mas há verosimilhança no que eu escrevo. Não digo coisas que tenham sido inventadas completamente. São hipóteses muito possíveis.

A própria História, enquanto disciplina, faz-se partindo de várias hipóteses…

Sem dúvida! A História é feita de peças que se vão encaixando até se construir um cenário. Tudo o que está aqui baseia-se no que está documentado e é possível em termos históricos. Tive como fontes o Fernão Lopes, a Crónica de D. João I, e a Crónica do Condestável, além da historiografia e daquilo que vários autores têm estudado sobre esse período.

Tendo em conta a sua formação na área da História, como explica que haja acontecimentos como este que ficam quase esquecidos no tempo?

É verdade, ficam praticamente esquecidos… Mesmo em Almada, encontrei apenas uma pequena brochura com 1o páginas que o Dr. Alexandre Flores fez, onde compila, fazendo algumas ligações, aquilo que o Fernão Lopes diz. Mas é algo muito pequeno e dirigido às escolas. Este é um daqueles casos de histórias que ficam nas entrelinhas da História, à espera de que algum escritor venha remexer no passado e encontrar aquilo que estava esquecido. O importante também é que, quando nos cruzamos com o que está esquecido, tenhamos a capacidade de arranjar uma forma apelativa de a dar ao público. Isto que eu fiz foi um romance, que se insere numa época, que nos dá conta do seu contexto histórico, social, político, religioso, e cujas personagens se movimentam de acordo com a época.

Até em termos de escrita e de organização, o livro parece saído daquela época.

Sim, tive muito cuidado com isso, com o nome dos capítulos, com o vocabulário que uso… Porque a história está a ser narrada por uma personagem que viveu naquela época. Mas nem precisei de consultar um glossário! 

Acha que livros como este são a melhor forma para aproximar a História das pessoas?

Sem dúvida! E o romance histórico tem um público fiel. Isso vê-se nos blogs, por exemplo, e esta coleção que a Saída de Emergência tem (A História de Portugal em Romances) também não existia. É uma boa maneira de aproximar o leitor da História e de levá-lo a fazer o exercício que é imaginar o passado.

Tem já novas obras em mente?

A editora fez-me duas encomendas. Uma delas já está pronta e é mais um romance histórico, desta vez sobre o Geraldo Sem Pavor e a relação tempestuosa, desequilibrada e ambígua entre este quadrilheiro e o rei Afonso Henriques. Simultaneamente, estou a trabalhar numa obra de maior vulto (que desenvolvo há quase dois anos) precisamente sobre a Guerra Civil, principalmente entre os anos de 1928, quando D. Miguel assume o poder, e 1934, quando se assina a Convenção de Évora-Monte. Já tenho mais de 300 páginas escritas e estimo que acabe por passar das 500. Este período histórico entusiasma-me muito.

Tendo uma vida tão cheia, como já conseguimos perceber, há alguma coisa que ainda lhe falte fazer?

Plantei, numa casa que tenho no Alentejo, uma amoreira! Gostava de vê-la crescer e de conseguir ler livros debaixo da amoreira, à sombra. Ela é muito pequenina, tem só uns 50 centímetros. Mas espero ler muitos livros lá! (risos) Não tenho netos, a minha filha já está criada, por isso a árvore é a única coisa que eu tenho para ver crescer.

Dizem que a vida de um homem se completa quando tem um filho, escreve um livro e planta uma árvore. A sua vida está completa?

Sim, posso dizer que sim (risos). Já tenho plantado muitas árvores, mas esta agora é especial!

Sobre o autor

Gonçalo Esteves Coelho

Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto.
Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História.
Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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