Sociedade

Fogos em Portugal – até quando o mesmo horror?

Ano após ano, as mesmas chamas queimam a terra, ceifam vidas e reduzem o país a cinzas. São as chamas que acendem em nós a revolta e a indignação e que despoletam um conjunto de questões cujas respostas teimam em não chegar. Este ano, ainda nem era verão, mais de 60 pessoas perderam a vida num dos maiores incêndios florestais que alguma vez existiram em Portugal. Pedrógrão Grande ficou praticamente pintado de cinzento, e, não satisfeitas, as chamas alargaram-se aos concelhos vizinhos, estendendo o rasto de destruição para mais além. Há dias, em pleno mês de outubro, já o outono vai avançado, uma nova onda de incêndios fez morrer 41 pessoas no centro e no norte do país. O desastre foi grande e o alarme generalizado, e apenas a chegada da chuva fez cessar o horror.

É uma realidade com ares de pesadelo que teima em não dar descanso, e a coragem dos bombeiros e das próprias populações no combate aos fogos torna-se inútil perante a ineficácia da prevenção, a quase indiferença dos governos, a falta de medidas severas para os ateadores dos incendências e a mão leve da Justiça no tratamento destes casos.

Dados estatísticos publicados pela PORDATA indicam um aumento de cerca de 670% no número de incêndios florestais entre 1980 e 2015. Nesse primeiro ano, apenas se vericaram 2349 ocorrências, um número extretamente reduzido quando colocado ao lado do de há dois anos – 15 851. Mas 2015 não foi, de longe, o ano com maior número de casos. Na memória de muitos estará o verão abrasador de 2005, onde se verificaram quase 36 mil fogos, que destruíram um total de 339 mil hectares. Desde então não voltou a haver verões tão aflitivos, e o horror dos incêndios florestais parecia até ter ficado para trás quando, em 2014, não houve mais do que sete mil fogos.

Mas 2017 voltou a colocar em cima da mesa o problema dos incêndios em Portugal. Na tarde de sábado, 17 de julho, começou subitamente a deflagrar um incêndio que depressa se tornaria incontrolável e um dos piores desastres da história do país. As chamas nasceram à beira da estrada nacional 236-1, que une Castanheira de Pêra a Figueiró dos Vinhos e que atualmente é conhecida por “estrada da morte”. Nela, dezenas perderam a vida em poucos minutos, quando os veículos em que calmamente seguiam se viram completamente cercados pelas chamas, que galgaram a berma e deixaram o alcatrão a arder. O fogo só foi declarado extinto uma semana depois, já com 64 óbitos confirmados e 200 pessoas feridas a receber tratamentos. Milhares de operacionais foram chamados a combater as chamas, apoiados por centenas de veículos e por alguns meios aéreos. A intensidade do vento não permitiu restringir as chamas ao concelho de Pedrógão Grande, onde teve início, e, assim, os municípios de Góis, Penela, Figueiró dos Vinhos e Alvaiázere tiveram também de lidar com o inferno.

A dimensão do incêndio motivou a junção de esforços das autoridades e de populares, não apenas para resolver o problema como para ajudar as populações que tudo perderam ou que foram obrigadas a sair das suas casas para não perderem a vida. Esta onda de solidariedade motivou empresários e artistas a unirem-se num concerto solidário no MEO Arena, que esgotou por completo para apoiar as vítimas do incêndio. Com a venda dos ingressos e com as ajudas feitas através das linhas de valor acrescentado, angariou-se cerca de um milhão de euros.

O tempo passou. O horror superou-se mas ninguém desconfiava de como esse incêndio era apenas o primeiro de muitos que viriam a pintar de cinzento o país. Permanecem, meses depois, as mesmas questões a precisar de respostas. Como começam os incêndios, porque crescem tanto, porque morre tanta gente, porque falha a assistência, porque ocorrem os mesmos desastres todos os anos, porque não há prevenção. Estas e outras são as perguntas a que urge dar resposta, pois a ameaça permanece viva para os anos que se avizinham.

 

Uma floresta de eucaliptos – terrorismo ambiental

Se é certo que pode haver causas naturais e meteorológicas no início dos incêndios, a verdade é que muitos têm mão criminosa e são iniciados por propósitos pouco dignos, ligados à ambição de alguns proprietários e industriais. Tratando-se de interesses privados, eles só conseguem ser alcançados porque há um enquadramento legal e político que, incrivelmente, os favorece, ao contrário daquilo que seria necessário. As penas são baixas – veja-se o caso recente do ateador de fogos que mereceu uma segunda oportunidade e por isso não chegou a ir preso – e a preferência pela plantação de eucaliptos constitui o rastilho para o eclodir dos incêndios.

Portugal, apesar das suas reduzidas dimensões, é o país europeu com maior área de território coberto por eucalipto, um valor que consegue ultrapassar os 810 mil hectares. Esta área, tendo em conta o tamanho do país, corresponde a cerca de 9% do seu território total. A preferência pelo eucalipto entre tantas outras possíveis espécies explica-se por um conjunto de factores: é uma árvore de rotação curta, de crescimento rápido e tem uma elevada produtividade, servindo para a produção de pasta de papel. Assim, quem planta eucaliptos pode contar um retorno rápido dos investimentos feitos.

Mas esta espécie, originalmente vinda da Austrália, constitui uma ameaça ao ecossistema em que está inserida – ela absorve grandes quantidades de água e nutrientes do subsolo, matando em pouco tempo todas as outras espécies vegetais daquele espaço, e é uma árvore bastante inflamável, embora, curiosamente, não saia morta dos incêndios – a sua casca arde facilmente, explode e depois projeta partes dela, ajudando a propagar o fogo para terrenos circundantes. Além disso, as folhas de eucalipto possuem componentes tóxicos e não são comestíveis por animais, sejam cabras, ovelhas ou vacas, o que faz com que o eucaliptal seja quase um espaço isolado onde outras formas de vida estão impedidas de entrar e de se desenvolver – daí a famosa expressão “deserto verde”, usada para designar os vastos hectares de terra onde só é possível encontrar eucaliptos.

Sem outras espécies animais ou vegetais, e com a água existente no subsolo a ser sugada em elevadas quantidades, o eucalipto tem vindo a reduzir a biodiversidade e a tornar mais provável a ocorrência de grandes incêndios florestais. São muitos os estudos realizados a alertar para as consequências da grande presença desta espécie no território nacional, mas tem reinado a imobilidade por parte dos governantes e, assim, o problema vai-se arrastando ano após ano.

A essa realidade podem juntar-se outras que explicam o porquê de Portugal se reduzir a cinzas todos os verões: o despovoamento do interior deixa sem vigilância largos hectares de terra, e poucos habitantes nessas localidades significam também menos mãos para limpezas e, em tempo de incêndios, para combate; a falta de acessos a algumas zonas do território, que obriga à utilização constante de aviões, muitos deles emprestados por parceiros europeus; a falta de consciência e de informação sobre a forma como as alterações climáticas estão a manifestar-sem Portugal; a impunidade da Justiça.

São inúmeras as razões que nos colocam sobre uma espécie de barril carregado de pólvora que pode rebentar a qualquer instante, sem que se saiba como tamanha tragédia poderá acabar. Enquanto isso, Portugal pinta-se de cinzento, o céu torna-se sépio e muitas vidas mergulham na escuridão. É Portugal, ano após ano.

Fotos: Pixabay

Sobre o autor

Gonçalo Esteves Coelho

Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto.
Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História.
Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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