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Mazgani: “as minhas ambições são muito minhas”

Escrito por Miguel Dias

Natural do Irão, vive em Portugal praticamente desde que se lembra e é neste extremo canto da Europa que tem desenvolvido a sua carreira musical. Misterioso e reservado habitualmente, no estúdio e nos palcos liberta o seu génio musical para envolver os ouvintes e deliciar a crítica, que já o galardoou com prémios.

Acaba de lançar um novo trabalho e, por isso, esteve à conversa com o ARDINAS 24 no tranquilo e inspirador Jardim da Estrela, em Lisboa.

 

Pode nos dizer o que esteve envolvido na sua vinda para Portugal?

Eu tinha pouca idade portanto eu não tive muito peso nessa decisão. Houve uma fase conturbada na história do Irão em 79/80 com a vinda do (Komani). Os meus pais tinham a vida em risco e decidiram sair. Decidiram vir para Portugal e acho que escolheram muito bem.

Gosta de viver cá?

Muito, é a minha casa.

Durante a sua juventude, quais foram as suas influências para ter decidido tomar uma carreira na música?

Eu na minha juventude nunca me ocorreu ser músico. Sou jurista de formação, fiz outras coisas. Comecei a fazer música por volta dos 30 anos, o que eu acho muito tarde para os parâmetros do rock and roll. Mas felizmente ouvia-se muito de música em minha casa. Era algo muito presente. Desde muito cedo comecei a ouvir música com algum espírito crítico. Nada indicava que viesse a ser a minha vida. Nao sei, foi um bocado por exclusão de partes. Por não encontrar uma profissão e ter que inventar um caminho para mim próprio. Foi mais por isso do que ser aquele puto que está a frente do espelho com uma escova a fingir que era um microfone. Não era esse tipo. Pensava que ia fazer outras coisas.

Foi uma surpresa positiva?

Absolutamente. Mudou a minha vida, estou feliz com o que faço. Foi uma grande sorte.

Dentro do mundo do Rock n Roll, quais são os artistas que o influenciam? Algum artista que o Mazgani admira e que tenta seguir as suas passadas?

Há muitos artistas que eu gosto muito. Leonard Cohen, por exemplo. A forma como o Leonard Cohen inspira a que qualquer indivíduo pode ser criativo, pode ser um artista é não seguir os seus passos. O meu ponto é. O meu ponto é, o Leonard Cohen foi alguem que procurou a sua própria voz, defendeu a sua própria voz e alinhou a sua vida e os seus dias para cumprir a sua voz, nesse sentido é uma inspiração. É vermos pessoas que tentam se cumprir a si próprias. E nesse sentido, à minha escala e com as minhas limitações, de forma alguma me estou a comparar com o Leonard Cohen, mas a inspiração é eu próprio adquirir a minha própria voz. E é essa a inspiração que quero dar a quem me quiser ouvir.

O Mazgani já ganhou vários prémios, durante a sua carreira qual foi o momento mais marcante para si?

Eu não sei bem. Estou um bocado mais a espera do que possa ai vir. Mas posso dizer sinceramente que olho para trás com muita gratidão das coisas que me aconteceram. Os prémios foram maravilhosos, os discos que fui gravando. Como foi um início tardio, como não estava à espera, tudo isto é maravilhoso, gratificante e surpreendente. Eu estava à espera de ter outra vida. Qualquer prémio, qualquer disco, qualquer concerto que, aprofundar isto é muito gratificante. Talvez uma das coisas que tenha sido importantes foi o Les Aurro Petit. Foi a primeira coisa que eu gravei. Um dos meus amigos com quem estava a tocar na altura estava a tirar um curso de engenharia de som, e um dos exercícios que eles tinham era gravar uma banda. Nós éramos mais ou menos as cobaias para eles aprenderem a gravar. Nós fomos, em 2005, gravámos e eu mandei a canção para o Petit, que era uma revista que eu respeitava e acompanhava, normalmente o que eles diziam eu concordava. Eles diziam ouve isto ou aquilo e eu ia e ouvia e gostava. E de repente estar eu no Petit, o Petit a dizer Mazgani é fixe. E eu que sempre confiei neles, eles estão a dizer que isto é fixe. Foi um momento importante.

E quanto ao seu novo trabalho. Que é que nos pode dizer sobre ele?

O que queres saber?

O que o influenciou? Onde pretende chegar com este disco?

Eu não tenho grandes pretensões. As coisas que eu pretendo com este disco são minhas, são íntimas, são inconfessáveis. Não sei onde pretendes chegar com essa pergunta. Não sou politico, não sei. Não tenho ambições de ser eleito. Não sei qual é a pergunta.

O que marca a diferença neste disco para os seus trabalhos anteriores?

Acho que é algo que tenho feito nos meus discos mas talvez agora esteja mais adensado, é fazer as coisas com menos elementos. é muito despojado e despido. Na sua grande maioria é um disco gravado com 4 pessoas na sala. Tem muito poucos overdups. Quase um documento de um momento daquela malta a tocar. Talvez acho que é um disco mais despojado e despido. Sendo que sempre foi uma coisa que quis fazer e tenho feito.

Falou-me que estava mais concentrado no que poderia acontecer no futuro do que o que já aconteceu. Fale-me um bocadinho dessas ambições.

É como te digo, as minhas ambições são muito minhas. A medida do sucesso ou das ambições é algo que deve ser o próprio indivíduo a definir. Vivemos numa sociedade que se mede mais por ambições que sejam mensuráveis materialmente. Mas o sucesso, por exemplo se estiveres a escrever um romance, o sucesso é teres uma página escrita ao final do dia. Isso é o sucesso. Se o disco é bem sucedido ou não sou eu que tenho de definir. Vou te contar uma história de sucesso que me aconteceu neste jardim. Neste verão, há um par de meses, estava um casal que começou a olhar para mim. Eu percebi que eles me estavam a reconhecer. Eles vieram ter comigo, a dizer “Sr Mazgani queríamos falar consigo, gostamos muito da sua música.” E o rapaz diz o seguinte: “A primeira coisa que fiz foi mandar-lhe a sua música” E eu disse: “Funcionou?” E ele respondeu “Sim! Ela agora é minha namorada!” A minha música serviu para um rapaz fazer a corte a uma rapariga e agora são um jovem casal de namorados. E se a minha música foi útil para isso é um grande sucesso. São histórias íntimas que não se devem contar. Tudo é legítimo. Depende da natureza de cada um e de até onde cada um quer chegar.

Fotos: Rita Carmo

Sobre o autor

Miguel Dias

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