Entrevistas

Gustavo Santos: “o meu discurso é um discurso fraturante”

Escrito por Miguel Dias

Amado por uns, recusado por outros, Gustavo Santos é um homem polémico. Os seus mais recentes livros têm refletido a sua filosofia de vida e divulgado ideias que vão contra a corrente da sociedade. Pela diferença de mentalidade, é gozado e desconsiderado por muita gente, incluindo por quem dirige os canais de televisão. Mas são estas adversidades que lhe dão força para continuar – e assim surgiu, há poucos dias, o seu novo livro, A Verdade Sobre o Amor.

Foi a propósito do lançamento desta nova obra que Gustavo Santos nos recebeu em sua casa para uma agradável conversa sobre livros, sobre a vida, o amor e o mundo. Debaixo do sol quente do meio dia, o apresentador de televisão partilhou connosco o seu ponto de vista face à educação e ao mundo do trabalho, apelou a mudanças rápidas, mostrou preocupação com os jovens de hoje (adultos de amanhã) e apresentou-nos o seu conceito de Nova Terra, que é o grande projeto de vida do autor. Entre as entrelinhas da conversa, o amor esteve sempre presente. Afinal, diz Gustavo: “a minha religião é o amor”.

 

Ardinas 24 – Acabaste de lançar A Verdade Sobre o Amor. O que nos podes dizer sobre este teu novo livro?

Gustavo Santos – Este livro, A Verdade Sobre o Amor, completa uma trilogia. É o terceiro livro da trilogia “Ama-te”, que começou em abril de 2016, quando saiu o primeiro livro; o segundo saiu em novembro de 2016 e este saiu agora em setembro de 2017. A Verdade Sobre o Amor, como fecha a trilogia, é um livro que junta 120 textos sobre o amor incondicional, e passa por apresentar às pessoas (porque são mais do que meros leitores) o conceito de “Nova Terra”. Eu gosto de acreditar que a primeira pessoa a tentar instaurar esse conceito foi Jesus. Não sou católico – aliás, a minha religião é o amor – mas vejo Jesus como homem, como vejo Mandela, Ghandi e Martin Luther King. E, enquanto homem, encontro naquela pessoa um exemplo de coragem, uma nobreza extraordinária. Este livro apresenta, ou reapresenta, 2000 e tal anos depois, o tal conceito de “Nova Terra”, que é aquilo que eu acredito que Jesus queria fazer.

Podes explicar esse conceito?

Afasta a ideia de que o paraíso é no céu e que, se nos unirmos todos, se trabalharmos em conjunto, se formos um, nós conseguimos trazer o paraíso do céu para a Terra. Esta “Nova Terra” presente neste livro passa por vários pilares desta democracia, que estão completamente enlameados: a educação (e é gravíssima a forma como se deseduca em Portugal), a política, a religião, a comunicação social e a forma de como se trabalha. O livro fala também na indústria alimentar e farmacêutica. O livro, transversalmente aos seus 120 textos, toca em todos estes pilares. Não os julgo, como é óbvio. A minha política de vida é não julgar. Sou muito julgado e nunca respondo na mesma moeda. Aquilo que eu faço no livro é trazer conceitos e soluções para que, juntos, porque eu sozinho não consigo fazer nada, consigamos aliar forças para fazer a mudança.

É um livro mais complexo, então.

Sim, este é um livro bastante mais profundo que os últimos dois. É um livro de amor incondicional onde apresentamos soluções para transformar o que está a acontecer neste planeta, que é gravíssimo. E eu acho que tem de haver mais pessoas a ver esses problemas. Mas talvez eu seja um dos poucos a falar deles.

Na tua opinião, portanto, os portugueses beneficiavam em ter mais amor uns pelos outros.

Claro! Os portugueses, os europeus, os africanos, os asiáticos, todos, como é óbvio. Aqui a questão principal é: quando as pessoas me perguntam quando é que há uma reunião da Nova Terra, eu respondo que, se se querem aliar à Nova Terra, devem ir para casa e levar esse amor para sua casa. Se vivem sozinhos, cuidem desse amor. Aquilo que eu mais defendo na vida é que as pessoas têm de se amar a elas próprias. O meu foco nunca está em amar os outros, porque eu sei que, se a pessoa se amar a ela própria, a consequência natural é ela amar os outros, servir a Humanidade e servir a Natureza. Mas o principal é a pessoa amar-se a ela própria, aceitar-se, perdoar-se, ser paciente com ela mesma, sonhar, lutar pelos sonhos, arriscar… Tudo isto é o amor. E os portugueses também ganhariam muito em amar-se a eles próprios e a lutar por um país diferente do que nós temos. Porque nós estamos a caminhar para o abismo. Não tenho a mínima dúvida.

Há alguma área específica em que vejas a urgência de haver mudanças?

Sim. Se virmos como está a Educação em Portugal, eu diria que o modelo que nós possuímos – de colocarmos alunos diferentes numa mesma turma, com os mesmos professores a dar a mesma matéria – talvez fizesse sentido no século XX. Hoje em dia já não faz. As crianças, quando nascem, vêm preparadas mentalmente e espiritualmente, e são muito mais evoluídas do que nós. Como tal, ter estas crianças mais evoluídas num sistema de ensino completamente estagnado e retrógrado vai naturalmente levá-las a que tenham um mau desempenho na escola. É natural que se tornem hiperativas; estão a obrigá-las a fazer uma coisa e elas depois têm de investir energia noutra coisa. Isto é o que se passa nas escolas. Eu acredito, então, numa nova Educação, parte de uma Nova Terra. Esta Educação tem de contemplar, dentro da escola, diferentes ateliês para que as diferentes pessoas, as crianças, possam expressar os seus dons e a sua criatividade. Não faz sentido para uma criança que gosta de dança ser obrigada a ter não-sei-quantos anos de Matemática. É horrível e não faz sentido. E eu falo por mim, primeiro porque fui bailarino há muitos anos e tive de levar com muitos anos de Matemática – e se me perguntares aos 40 anos o que é uma raiz quadrada eu não faço “puto” ideia; se me perguntares em que ano foram as invasões francesas eu não faço “puto” ideia. Porque está instituído que o aproveitamento escolar não é conhecimento. O aproveitamento escolar é empinanço. Os putos vão para a escola empinar as matérias. Eles estão a estudar uma coisa que não é o dom delas. Hoje o ensino está baseado no “tens de decorar”. Se decorares melhor, tens melhor nota; se decorares pior, tens pior nota. Já para não falar dos professores. Tiveram anos e anos a estudar para uma profissão que, seguramente, e eu quero acreditar nisto, os apaixonava quando iniciaram o Ensino Superior.

A Educação é a base…

Educar é amor! Eu diria que o ato mais nobre de amor é a Educação. E para isso é preciso uma grande coragem. Hoje em dia, os professores que já lá estão efetivos não têm condições e estão cansados dos putos, que estão irreverentes por estarem forçados a estar num sitio que não os faz felizes. Depois, os que estão a médio prazo não sabem se vão ser colocados e, se forem colocados, não sabem onde vão ser colocados. Todo este processo faz com que, a 15 dias de começarem a leccionar, estejam a antidepressivos ou num stress e instabilidade enormes porque podem ficar a 100 ou 200 quilómetros da família. Como é que estas pessoas estão preparadas para amar? Educar é amar! É impossível. Os professores são obrigados a passar um currículo gigante às crianças. Têm tanta matéria para dar que, se um aluno tiver uma dúvida ou precisar de um tempinho com o professor, não conseguem. Além disso, grande parte das crianças, em casa, não tem a atenção dos pais, porque eles também estão a antidepressivos ou a trabalhar que nem malucos. Não há amor nem afeto. São depositados na escola e estudam aquilo de que não gostam. Levam com educadores que estão igual ou pior que os pais. Que jovens é que estamos a criar?

Preocupa-te o futuro?

Bastante. Daqui a uns anos estes jovens vão liderar o país. E nós estamos a educá-los em desamor. E vai continuar a acontecer a mesma MERDA. Nós temos uma responsabilidade tremenda, enquanto pais e enquanto educadores, de trazer a estas crianças a liberdade e a possibilidade de optarem por aquilo que querem fazer. Porque as crianças conhecem-se. Elas só se perdem quando começam a ser formatadas pelos pais, os adultos e a sociedade. Uma criança sabe sempre tudo. Uma criança está sempre intimamente ligada à sua essência. Só com a formatação é que se perdem. As crianças têm de ser ouvidas, compreendidas e aceites. E isso é tudo o que não acontece hoje em dia. Nas próximas décadas, enquanto não houver uma transformação no ensino, na política e na família, nós vamos continuar a criar gente triste. Temos milhares de crianças com 13, 14 ou 15 anos a tomar ansiolíticos. É assustador e dramático! Isto dá um jeito gigante à indústria financeira. Quanto mais cedo começarem a adormecer as pessoas, maior é o tempo de lucro deles. E é isto que está a acontecer. Eu, que tenho 40 anos, já vi muita coisa. Sou pai também, não consigo ser indiferente a isto. É por isso que o meu discurso é um discurso fraturante. E eu não tenho medo nenhum de falar e dizer o que tenho a dizer.

Consideras que podes trazer soluções, respostas práticas aos problemas que enfrentamos?

Eu digo o que penso serem as soluções que acho que têm de ser feitas. É o que estou a fazer aqui contigo. Estou em minha casa, estou protegido. Era o que faltava virem ofender-me dentro da minha própria casa. Mas eu vou às Fnacs, por exemplo, apresentar os meus livros, e o meu discurso é completamente fraturante. Lá estão 100/120 pessoas, mas eu estou a fazer um live no Facebook que chega a milhares.

Sentes medo?

Não! Sem medo. Da mesma forma como falo sobre isto, falo sobre a televisão, onde eu trabalho. Corro um enorme risco de os gajos me mandarem embora. A televisão tem de ser escavacada. Aquilo é um cancro. A televisão hoje em dia é um cancro. A televisão passa uma amostra do mundo real em que tudo é mau. Para quê? Para tirar a esperança às pessoas. Para amedrontá-las. Para que todo o sistema possa funcionar. Porque uma pessoa sem poder pessoal é manipulada. É isso que se quer – trabalha 8/10/12 horas por dia, é mal pago e ainda lhe chamam nomes. É isto que a comunicação social quer, porque a comunicação social está incluída num sistema de manipulação inacreditável, cujo centro e base é o medo. Toda a informação que passa é informação de medo. Porque é que a minha televisão não me deixa ir à televisão? Porque é que não me convidam para ir falar sobre o amor? Porque sabem que o meu discurso dá poder e esperança às pessoas. A minha televisão, neste momento, são os vídeos online que eu faço nas Fnacs. Felizmente tenho tido convites de quase todas, e esse tem sido o meu canal televisivo. Mas, como deves imaginar, no início criava-me alguma frustração. Com tantos gajos na televisão a falar sobre assaltos, roubos, homicídios e violações, vão outros gajos falar da vida dos outros, comentar o que eles têm vestido… Todos os dias isto acontece na televisão. E a mim não me abrem a porta para ir falar de amor. Isto é um breve exemplo para percebermos como tudo isto funciona.

Nós sabemos que nem toda a gente concorda com o que escreves. Como é que reages às críticas e que mensagens terias para dar a essas pessoas?

Todos os grandes líderes – e, para mim, um grande líder é uma pessoa que marca a diferença pela positiva – foram amados e odiados, e eu serei também. Tenho 40 anos e a minha vida está numa espiral inacreditável. Eu não te sei dizer onde é que eu vou estar daqui a um ano. Nem a viver, nem em que país, nem como. Isto está a crescer. Está a ganhar uma força tão grande esta ideia de Nova Terra… Os emails que me chegam são tão incríveis e dão-me tanto a sensação de que este é o caminho! Eu já o sentia, e essa é a base, mas chegam-me emails que reforçam isso, que está a crescer. É natural que vá demorar a notar-se alguma diferença. Sei que o tempo que cá vou estar não vai ser suficiente para nada. Até anos é muito pouco. O que eu acredito é que, quando eu morrer, não terei feito muito em prol do mundo, mas sei que dormi aquelas noites descansado. Outras pessoas seguirão o meu trabalho. Em relação às pessoas que me julgam e que me odeiam e que dizem que eu disse coisas que não são verdades… Eu agradeço-lhes. E isto é de coração. Não quero que penses que digo isto porque fica bem ou para dar a ideia de que sou forte. Eu tenho uma máxima na minha vida que é: as pessoas que nos tratam pior são os nossos maiores mestres.

Porquê?

Porque os gajos obrigam-nos a trabalhar aspetos como o perdão, aceitação, amor incondicional, a não reagir na mesma moeda e mostram-nos quem nós não devemos ser. Portanto, eu tenho aprendido muito com essas pessoas. E, por ter aprendido tanto com essas pessoas, por me terem feito trabalhar tanto, eu cresci muito. Não sinto nada quando me chamam isto e aquilo publicamente, a não ser gratidão. Mais: para azar deles, ainda me inspiram a escrever coisas para os meus livros. Neste livro, na Nova Terra, não há lugar para o julgamento. Eu não sei os teus processos passados nem de onde vens. Quem sou eu para te julgar? O ato do julgamento é um ato completamente inconsciente. Eu agradeço a essas pessoas. E este livro tem vários textos sobre a minha maneira de reagir a estes atentados.

Parte da tua inspiração já sabemos que são alguns grandes líderes do passado. Mas há algum escritor de livros de auto-ajuda e crescimento pessoal que te tenha inspirado?

Não! Eu vou ser-te sincero: sou um péssimo leitor. Não leio. O meu último livro completo foi há uns anos. Essas pessoas de que tu falaste e que mencionei são referências, mas eu não me baseio nelas. São um exemplo de liderança e coragem. Nada do que eu escrevo é baseado no que essas pessoas escreveram ou fizeram. Eles são referências no sentido de que eles lutaram pela igualdade, pela fraternidade, pelo amor, e foram assassinados ou presos. Que sorte que eu tenho de hoje em dia poder falar sem que isso aconteça. Crucificam-me de outras maneiras, julgam-me de outras formas, mas isso não me acontece. O que eu escrevo é baseado na minha verdade e sentir. Grande parte do que pensamos é mentira. O que sentimos é sempre verdade. Tudo aquilo que escrevo é baseado no que sinto. Eu sinto que sou muito favorecido pelos meus guias espirituais. Sinto que me ajudam muito ao ponto de acabar de escrever e pensar: “como é que eu fui capaz de escrever isto?” E isto só pode ter uma inspiração divina e superior. Por isso, eu não leio nada onde me possa inspirar e basear. Talvez lesse mais se eu não escrevesse, mas como escrevo tanto sinto que não tenho necessidade de ler. Basicamente não tenho vontade de ler. Até porque muitas pessoas que escrevem sobre esse tema não são verdadeiras. Muitas pessoas que falam em palcos sobre estes temas falam o que não são. Elas não conseguem ser. A grande parte dos psicólogos precisam mais de ajuda que os pacientes deles. Eles não estão em verdade. Eu estou sempre em verdade. Seja com quem for. Família, mulher, filho, sociedade, o meu local de trabalho, até com um estranho eu estou sempre em verdade! Uma coisa de que eu me orgulho muito é que eu não tenho medo de ser eu. Esse é o motivo de muita gente caminhar de cabeça para baixo.

A tua mulher e o teu filho são de alguma forma uma inspiração para escrever este livro?

Sim, claro. Eu e a minha mulher estamos juntos há dois anos e pouco, e não tenho dúvidas de que a minha mulher me encaminhou. Eu já era um gajo porreiro mas agora estou melhor. E na linha da frente desta mudança estou sempre a levar “chapadas”. Sinto que chego a casa com feridas na alma e ela cura-me. A expressão “Nova Terra” é dela. E eu fiz questão de lhe pedir para pegar nesta expressão e passá-la ao mundo. Ela disse que nós somos um, por isso aceitou. Ela é uma fonte de inspiração enorme e de força. Tem uma sensibilidade extraordinária, que toca muitas pessoas. Quanto ao meu filho, eu escrevi este livro com o meu filho ao lado. A grande maioria dos textos ele estava ao meu lado. Umas vezes a dormir. Outras vezes a chorar, e eu tinha de pôr a chucha enquanto carregava nas teclas, depois às vezes isso não era suficiente e eu pegava no carrinho e ia dar uma volta pela sala, mas se tinha uma ideia largava o puto e ia escrever… Outras vezes escrevia, e o puto estava a olhar para mim sereno, e eu começava a chorar. É naqueles momentos que parece que ele percebia que, para o pai, mais importante do que ele é a missão do pai. Não há volta a dar.

Como é que educas o teu filho?

Nada nem ninguém é mais importante do que a razão pela qual eu nasci. Nada. Esta é a educação que o meu filho vai ter também. Em primeiro lugar estás tu e a razão por que nasceste, e logo a seguir está tudo o resto. Claro que o meu filho e a minha mulher vêm imediatamente a seguir, mas jamais deixaria de fazer algo que o meu coração me peça. Vou educar o meu filho em amor. E isso passa por mostrar que ele pode querer muita coisa mas, se o pai quiser uma coisa, o pai vai respeitar o pai. Para que tu quando fores grande e tiveres a mesma questão te respeitares a ti também. Porque se o pai abdicar de tudo por ti, quando cresceres vais abdicar de tudo em prol dos outros. Isso não funciona.

Também já escreveste alguns livros de ficção, o que preferes escrever? O que é mais facil para ti?

O que eu prefiro é romance. Aquilo que me deu alguma notariedade foram os livros de autoajuda. Aquilo que vai acontecer é que vai chegar uma altura na minha vida em que vou unir as duas coisas. Através de uma ficção, depositar mensagens de poder pessoal. É o que estará para acontecer no futuro próximo.

Além desse, tens mais projetos para o futuro?

Tenho! Em termos profissionais, nós comprámos um monte no Alentejo. Sempre disse, desde pequeno, “África no mundo, Alentejo em Portugal”. Sou branco por fora mas sou preto por dentro, e tenho a certeza de que vou lá acabar a minha vida, se não for para lá muito mais cedo. Para o ano já deveremos ter duas ou três viagens a África, logo no início do ano. É um continente que me diz muito em termos de alma, porque não tenho nenhuma origem africana. Portanto, viagens, sim. Este monte do Alentejo será para receber retiros. Retiros onde eu e a Sofia pomos toda a nossa energia positiva. Vamos fazer já o primeiro em outubro. Aquele monte foi uma grande luta, não só a compra como as obras. Foi preciso investir muito, muito, muito capital, crença e fé. E temos um espaço com a energia que nós queremos. Estou no meu Alentejo, que é a minha África. E esses serão os projetos. Escrever mais um livro está sempre na calha. Quando acabo de escrever um, dou um espaço de dois ou três meses para promover o livro e depois começo a pensar no próximo. Além disso, continuarei no “Querido, Mudei a Casa” e farei viagens. Por muito que trabalhemos, nunca nos podemos esquecer de desfrutar a vida. Há pessoas que literalmente se matam a trabalhar.

Que pensas do mundo do trabalho hoje em dia?

O sistema profissional está todo escavacado. As pessoas têm de trabalhar 8/10/12 horas por dia para conseguirem o dinheiro no fim do mês. Mas, na verdade, podem trabalhar muito menos. Desde que trabalhem bem e em algo que as apaixone. Eu não trabalho oito horas por dia. Jamais. Nunca o irei fazer. Mas tive o mérito de sempre trabalhar naquilo que me apaixona. Mesmo que exista uma fase em que trabalhes oito horas por dia, nunca vai saber a oito horas por dia. Vai saber a menos, porque estás a fazer algo que te faz sentir vivo. E é por isso que eu digo às pessoas: mesmo que durmas menos uma hora nessas noites, inclui sempre um hobby. Algo que te dê pica, que te faça sair da cama e te faça sentir vivo, senão estás sempre a fazer mais do mesmo: vais para o trabalho, tratam-te mal, recebes mal, trabalhas que nem uma mula, chegas a casa, estás cansado para receber o teu filho, não tens paciência, tens mais obrigações e responsabilidades, não tens afecto nem carinho porque estás cansado, vais para a cama e dormes mal porque só há problemas na tua cabeça. Culpas-te porque não dás afeto aos teus filhos, culpas-te porque não fazes isto e aquilo, culpas os outros porque te fazem passar por isto e aquilo. E amanhã é um dia igual. A sociedade está a caminhar assim. Digam-me se esta merda vai a algum lado. Mas há aí malta a fazer alguma coisa. Podemos não chegar aos milhões, mas somos alguns milhares. Milhões só se for no estrangeiro.

Quanto aos retiros que mencionaste: o que é que as pessoas podem esperar deles?

Os retiros são uma experiência de amor. Nós dizemos às pessoas: “olha, vem amar-te durante 48 horas. E depois vem amar os outros incondicionalmente durante 48 horas”. Essa é a nossa proposta. As pessoas saírem da sua zona de conforto, que é a dor. E vêm ser elas. Largam as capas todas à porta do monte e vêm ser elas. Nós pedimos às pessoas que durante 48 horas venham ser elas. Esta é a grande premissa. Temos ali 17/18/20 pessoas juntas durante 48 horas, com comida vegetariana fantástica, uma experiência num monte alentejano que tem uma magia incrível, com todas as condições de estarmos completamente em paz e com o privilégio de ter dois facilitadores fantásticos, eu e a Sofia, que somos verdadeiros. Dinâmicas, partilhas, muita gargalhada, muito choro… Um choro de saudades da pessoa. As pessoas chegam lá e, quando percebem quem são, sentem saudades e percebem em que curva da sua vida se perderam e porque é que se esqueceram delas. Depois pedimos que criem alguma mudança num prazo de 48 horas. Criar o compromisso de levarem daquelas 48 horas no monte para sua casa alguma coisa, para o trabalho, para os amigos, para a sua vida pessoal. Aquelas pessoas não têm grande confiança. Há algumas que vão para desfrutar e reforçar, mas há uma grande fatia que não tem confiança nenhuma. E uma pessoa sem confiança não consegue mudar o seu mundo. Tem de começar a mudar uma parte ínfima do seu mundo. O objetivo é garantir que elas saiam de lá com o compromisso de uma mudança. Têm um prazo de 48 horas para mudar alguma coisa. Se não mudam, a vida volta a entrar no mesmo rumo. A energia de amor tem uma validade de 48 horas. Se a pessoa não fizer nada, mais valia não ter ido, nem sequer tinha gastado dinheiro.

Fotos: Miguel Dias / ARDINAS 24

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Miguel Dias

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