Crónicas Dictum Et Factum

O pecado original

Das últimas cenas da política de Donald Trump retira-se o que já se assumia ad initio: que o seu exercício de poder público na qualidade de Presidente dos EUA se tornou e continuará a consolidar no pecado original da política.

Esta afirmação não é ingénua se pensarmos que este é, talvez, o primeiro caso dos nossos tempos em que um Presidente abusa de tal forma do seu poder que entorta os pilares da democracia e do Estado de Direito. E dizê-lo não é de menos se olharmos para os jornais e virmos que há suspeitas de influência russa nas eleições norte-americanas, se repararmos que Donald Trump afastou o Diretor do FBI porque este estava precisamente a investigar essas suspeitas e se denotarmos que colocou em cargos executivos os seus parceiros que estão envolvidos nessa farsa, o genro e outras figuras que, de algum modo, estão envolvidas com a Rússia por via do embaixador desse país em Washington, Sergey Kislyak.

Este é um jogo perigoso onde está a ser apostada a continuidade e idoneidade dos EUA enquanto superpotência mundial, enquanto Estado credível para negociações internacionais nos problemas internacionais ou até enquanto exemplo a seguir por outros países que pretendem trilhar o caminho da hegemonia. Contudo, se é para chegar ao beco sem saída a que os EUA se preparam para enfrentar, mais vale estarmos quietos.

Há uma clara influência de Donald Trump em todos os domínios, seja no poder judicial, seja no poder legislativo e um claro abuso do poder executivo. Não é possível confiar nas instituições já criadas quando estas são deturpadas de forma escandalosa à luz do dia. Está a passar-se precisamente o que já vimos em algumas séries, mas ainda ninguém se apercebeu realmente dos contornos para começar a fazer alguma coisa e parar este problema.

É um Presidente que quer rasgar o trabalho diplomático feito nas últimas décadas por todos os agentes políticos, pertençam eles a administrações democratas ou republicanas. Ainda esta semana cancelou o acordo feito por Obama com Cuba que visava saltar um fosso de inimizade que durava há vários anos, fazendo-o sem problemas, sendo inclusive aplaudido, com a justificação de que não se fazem acordos com estados totalitários. A razão de fundo é justificável e, no final do dia, louvável, mas quer parecer que com os atos constantes que temos testemunhado diariamente apenas deseja instalar a discórdia, a confusão, disparando em todas as frentes. Seria importante, porém, não esquecer que adotando esse registo devemos ter as costas bem protegidas sob pena de acabarmos, inevitavelmente, estatelados no chão ou não fossem as balas surgir de todos os lados.

Sobre o autor

Belarmino Costa da Silva

Sou finalista da Faculdade de Direito de Lisboa. Trabalho num Call Center da EDP. Escrevo, penso, digo e faço de tudo um pouco. Não necessariamente por esta ordem.

Tenho uma vida própria mas só aos fins-de-semana. Às vezes nem isso.

Tendencialmente de esquerda.

1,90 m. 74kg.

O prazer é todo meu.

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