Cultura

As três novas exposições do MAAT: Uma cidade surreal, o som metálico das caldeiras e uma “exposição-hotel”

Escrito por Carolina Pereira

No sentido de manter o MAAT – Museu de arte, Arquitetura e Tecnologia – dinâmico, atrativo e vanguardista, o museu inaugurou, no passado dia 16 (terça-feira), três novas exposições que prometem fazer as delícias dos nossos turistas e refrescar o verão quente de Lisboa. As novas exposições foram apresentadas com uma festa à noite, com Dj e entrada livre, que assinalou também a pré-abertura da ARCO Lisboa, a Feira Internacional de Arte Contemporânea.

Nesta noite, centenas de pessoas puderam conhecer o espaço por dentro e conviver junto ao rio no espaço privilegiado onde está o Museu, nesta que é uma das capitais europeias mais “na moda”.

 

Uma cidade surreal: “Yo nunca he sido surrealista hasta el día de hoy” na Galeria Oval, MAAT

O artista cubano Carlos Garaicoa aceitou o convite de expor na Galeria Oval do recém-criado MAAT, com a curadoria de Pedro Gadanho e Inês grosso. O resultado é um projeto dinâmico de grande escala que explora as relações entre a cidade e o homem, entre a ficção e a realidade e entre a luz e a escuridão.

Este trabalho, que é a reprodução de uma maqueta do artista de 2008 à escala real e conta com um espólio de 60 candeeiros (da Fundação EDP e da CML), articula palmeiras naturais com relva artificial e outros elementos como semáforos e até uma réplica de um avião. Como a obra consiste, em parte, no ligar e desligar das luzes que, como explica Inês Grosso, “dá ideia de um organismo vivo e serve como forma de questionar a expansão do espaço urbano e o impacto q isso tem na relação entre o homem e o natural. A cidade é aqui representada como o domínio do homem e o caos da natureza”.

Este artista tem trabalhado o falhanço das utopias modernistas e este leva a uma reflexão sobre a sustentabilidade energética e outros prolemas contemporâneos.” Ou seja, a peça além de ser uma obra lúdica, deixa-nos a pensar e provoca várias leituras”, explica Pedro Gadanho.

Para o artista, a obra foi um desafio, pela própria natureza – desafiante – da Sala Oval e, entende-o como “uma forma de usar a arquitetura surrealista para pensar o espaço das cidades”.

 

 

 

O som metálico das caldeiras: “Untitled (orchestral)” na Sala das Caldeiras, Edifício Central 

“Quando recebi o convite para expor na sala das caldeiras pensei, o que se faz num espaço cheio como este? A verdade é: quando há um elefante na sala temos sempre de olhar para ele”, explicou João Onofre, o responsável por esta obra. Por elefante referia-se às caldeiras que ocupam este espaço da antiga central termoelétrica de Lisboa e que resolveu “decorar” na forma de uma melodia.

Para isso, ao longo dos três andares da sala estão dispostos 16 robôs que percutem no metal das caldeiras e são verdadeiros membros de uma orquestra dirigida pelo sol.

A partitura desta percussão metálica foi composta pelo musico Miquel Bernat que, depois de muitas tentativas, chegou a estes 16 sons que fazem lembrar os sons das máquinas enquanto trabalhavam, como a banda sonora da narrativa de produção da energia. Curiosamente, a fonte que comanda a intensidade e o ritmo do som é o sol, uma vez que os os braços robóticos se movem a energia solar e quem define a força com que batem é uma câmara que está na sala e aponta para o céu para captar a quantidade de luz solar. Assim, o som estará na sua intensidade máxima às 12h horas e vai-se suavizando ao longo da tarde.

A obra permite uma noção da passagem do tempo, do impacto do sol e das estações do ano. Algo que hoje em dia não notamos tanto porque, com a luz elétrica, nada disso nos afeta, como explica João Onofre.

Para  curador, Benjamin Weil, esta é “uma obra cheia de personalidade” e o grande desafio foi trabalhar com um ambiente que é histórico, um património museológico delicado e que tem de ser preservado. Além disso, “é um espaço que as pessoas não visitam necessariamente para ver arte.”

Esta obra foi conseguida em parceria com o Centro de Investigação em ciência e tecnologia das artes da Universidade Católica Portuguesa, por ser multidisciplinar, que ficou encarregue do hardware, software e da aplicação e manutenção dos robôs que são solenoides mecânicos adaptados para durarem os 5 meses da exposição.

 

Uma “exposição-hotel”: “APQHome – MAAT” no cinzeiro 8, Edifício Central

A terceira exposição que vai poder visitar é, na verdade uma instalação onde se pode pernoitar. É uma pequena casa equipada com tudo e onde a arte se mistura com a hospitalidade e é o próprio ambiente intimo que dá vida à obra.

A instalação é a tese da artista, que já tem uma vasta experiência em expor com base na vivência no doméstico (inclusivamente já expôs em sua casa) e que entende este trabalho como uma performance do quotidiano e das coisas mais banais da vida.

A curadoria do projeto ficou a cargo de Pedro Gadanho que o introduziu explicando:  “Jogámos com a ideia tornada famosa pela cultura popular de Hollywood: “A noite no museu”. Aqui, os hospedes podem passar uma noite no museu com os objetos da artista, acompanhada por uma performance de hosting da artista. Quem vier durante o dia confronta-se com um espaço que está a ser habitado e verá os sinais da habitação. Isto é que fará a obra, mais até do que os elementos arquitetónicos.” Além disso, Pedro Gadanho referiu que este é um projeto interessante agora no verão – um tempo de elevada pressão turística em Lisboa.

Esta casa, a APQ (Ana Pérez-Quiroga) Home – MAAT, tem uma cama de casal, equipamentos de cozinha, sala de estar, livros, estantes, revistas, mesas, sofás e uma casa de banho cabem duas pessoas, e até três – no sofá – e foi pensada para receber 24 atristas internacionais (2 artistas ou uma artista com um companheiro), de entre os quais um curador, fotógrafos, músicos, poetas, cineastas, um colecionador e outros.

A estadia tem um período mínimo de dois dias e 2 noites e foi colocada à venda na plataforma Airbnb e custa um valor simbólico – 25 euros que cobrem as despesas de manutenção e limpeza. Durante este tempo os hóspedes são livres de fazer o que entenderem – podem estar n museu a conviver e interagir com os visitantes ou sair de manhã e só voltar ao museu depois da hora de fecho.

O jardim, que é interior, tem canteiros pavimentados em cortiça e paredes com 14 tons de azul que representam um hipotético céu e o horizonte. O interior foi praticamente todo desenhado pela artista e confecionado com o apoio de marcas portuguesas (com exceção dos eletrodomésticos e de alguns utensílios de cozinha) e os livros e revistas também foram escolhidos pela artista  e por amigos a quem pediu opinião.

Todos os objetos que se podem encontrar dentro da casa estão catalogados e à venda no website criado para o efeito.

Sobre o autor

Carolina Pereira

Quando era miúda gostava de chaves e cusquices. Via as vizinhas, de chave na mão, na conversa e queria imitar. Fascinavam-me as experiencias de vida dos outros e aprendia muito com elas.
No fundo já aqui havia em mim aquele bichinho de curiosidade e interesse que cresceu e que me levou ao jornalismo. Também quis ser professora de português mas com o tempo o meu caminho tornou-se mais claro- Contar histórias. O que me move é sobretudo o interesse e o questionamento perante toda a nossa existência. Se puder fazer disso a minha vida, seja qual for o meio, vou ser feliz.
À parte isso, sou da Amadora, não gosto de cafés com sabores, não troco nada por uma boa conversa entre amigos e acredito neste projeto desde o primeiro dia.

Deixe um comentário