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Se um dia alguém perguntar por ele… diz que fez história na Eurovisão

Talvez, devagarinho, ele possa vencer esta noite o Festival Eurovisão da Canção. Salvador Sobral está na linha da frente na corrida à vitória na maior competição artística do mundo, com os apostadores a colocarem-no em vantagem em relação ao representante italiano, que durante meses reinou isolado em todas as apostas e sondagens. O jovem cantor português, que chegou tarde a Kiev apenas para “cantar e transmitir a mensagem da canção”, pode ser a próxima estrela da música europeia.

O fenómeno começou timidamente no passado mês de fevereiro, quando Salvador Sobral apresentou pela primeira vez em público a canção “Amar Pelos Dois”. Decorria a primeira semifinal do Festival RTP da Canção, da qual o irmão de Luísa Sobral foi um dos vencedores. A canção invadiu imediatamente as redes sociais e viu as suas visualizações escalarem de hora para hora. No dia 5 de março, o cantor conseguiu votos suficientes para vencer o concurso da televisão pública e ser eleito o embaixador de Portugal na Eurovisão. E aí começou a lenda.

Portugal, o “patinho feio” do Festival da Eurovisão (participa desde 1964, nunca ganhou e o máximo que conseguiu foi terminar em sexto lugar, em 1996), tornou-se logo um dos favoritos desta edição de 2017, e, com o passar dos dias, a popularidade da canção portuguesa tem aumentado – ao ponto de, ontem, na véspera da grande final, Salvador, que esteve irrepreensível na sua atuação na semifinal, ter ultrapassado a Itália e passado a ser o maior favorito à vitória.

Não é apenas nas apostas a dinheiro que Portugal vai mostrando a sua superioridade face às demais participações. No Youtube, a atuação do representante português já soma 1,6 milhões de visualizações, quando a segunda mais vista (a da Bélgica) conta com pouco mais de um milhão. A Moldávia e a Bulgária (esta última é outra grande favorita) têm cerca de 800 mil. Nas vendas do iTunes, “Amar Pelos Dois” é a canção da Eurovisão que está a ser vendida em mais países, com a Bélgica também a conseguir grande sucesso comercial em muitas nações.

“Amar Pelos Dois” está a ser muito vendida.

Os companheiros de Salvador nesta jornada também não poupam elogios ao representante de Portugal. A representante islandesa, Svala, escreveu esta manhã no seu Facebook: “Sou da equipa de Portugal esta noite! Vamos todos votar no Salvador. Fantástica canção e incrível artista”. A checa Martina Bárta já manifestou várias vezes a sua admiração por Salvador Sobral, tendo inclusivamente, numa conferência de imprensa, chegado a comparar o cantor a Chet Baker, um dos mais icónicos cantores de jazz e trompetistas. Também Louis Walsh, conhecido por ser jurado do X-Factor britânico e que foi o mentor da representação irlandesa este ano, declarou numa entrevista que acha que Portugal irá vencer o Festival, e Manel Navarro, representante espanhol, não cessa de repetir que este “é o ano de Portugal”.

Antigos participantes também se mostram apaixonados pela canção portuguesa. É o caso de Jamala, vencedora da Eurovisão 2016, que esperou por Salvador à saída de um ensaio para o cumprimentar e poder conhecer. É também o que acontece com Måns Zelmerlöw, vencedor do certame em 2015, que felicitou a equipa portuguesa pela proposta que apresentam este ano ao concurso. Conchita Wurst, a famosa vencedora de 2014, partilhou no seu Twitter uma fotografia de Luísa e Salvador e escreveu “tão linda” a respeito da música. Alexander Rybak, vencedor em 2009, partilhou a canção no seu Facebook e escreveu: “num momento em que o nosso adorado Festival Eurovisão da Canção está aos poucos a tornar-se num “Mainstreamvision” ou numa “Estrategiovisão”, encontrei uma nova esperança ao ouvir esta canção. É uma canção feita por MÚSICOS reais, é uma canção interpretada com o CORAÇÃO e é uma canção que agita os nossos SENTIMENTOS”. Pastora Soler, uma das mais bem sucedidas artistas espanholas, representante do seu país na edição de 2012, deixou dois tweets sobre Salvador. No primeiro, quando contou que estava a ouvir todas as canções participantes na Eurovisão deste ano, escreveu: “hoje posso dizer que amo PORTUGAL”. O segundo serviu para descrever o que sente com o intérprete português: “a interpretação, a distinção, o sentimento, a simplicidade… Olé, Salvador Sobral”.

Luísa Sobral e o irmão rodeados pela comitiva portuguesa.

Este é o nome que pode, logo à noite, a partir das 20 horas, entrar na história da música portuguesa e da música europeia. Portugal sonha com uma vitória e há factos que levam a acreditar que seja possível. Salvador Sobral, pelo que já conseguiu alcançar, já escreveu um belo capítulo na sua carreira artística. Hoje, poderá escrever um novo capítulo, desta vez na longa história do Festival Eurovisão da Canção, que já vai na sua 62ª edição. Longe vai o jovem desengonçado, trapalhão e genuíno que os portugueses conheceram no Ídolos, em 2009. Tanto física como psicologicamente, tanto a nível da música que faz e da sua postura em palco, Salvador é outra pessoa: amadureceu, apaixonou-se, desiludiu-se, sofreu. Fez-se um homem.

A Roberta Medina, numa das etapas desse concurso da SIC, contou porque queria ser um ídolo: “quero que as pessoas gostem de me ouvir. É o que mais quero: que as pessoas adorem ouvir-me”. Conseguiste-o, Salvador. 

Fotos: Andreas Putting

Sobre o autor

Gonçalo Esteves Coelho

Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto.
Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História.
Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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