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Daniel Moon: de menino pianista a apaixonado pelo Jazz

Escrito por Jessica de Sousa

Daniel Moon nasceu em Lisboa mas foi em Vilamoura que, naqueles verões de infância, se apaixonou pelas teclas do piano. Tinha sete anos de idade quando, no hotel onde ficava hospedado com a família, se deslumbrou com o trabalho do pianista da sala. Soube que era piano o que queria tocar até que, mais tarde, percebeu que a liberdade que só o Jazz lhe poderia vir a dar é que o apaixonara de verdade. Acabou de lançar o segundo trabalho a solo, “Be Different”.

 

ARDINAS 24: Começaste a tocar piano aos sete anos. Como é que a música apareceu na tua vida?

Daniel Moon: A música apareceu logo quando eu ia passar férias em Vilamoura, e no hotel D. Pedro havia lá um pianista a tocar e na altura chamou-me à atenção e disse aos meus pais que queria tocar piano. Tive aulas particulares, dois anos, depois entrei no conservatório aos nove.

Mas não tens um background familiar?

Musical não.

Então surgiu assim, naturalmente…

Não, mentira, o meu pai dava uns toques no teclado, e talvez isso também… mas ele também não tocava assim grande coisa (risos). Portanto não era por aí. O que me chamou mesmo à atenção foi o pianista de que falei, no D. Pedro em Vilamoura, porque tocava mesmo bem. E eu, como tendo o teclado, o meu pai tocava em casa, muito provavelmente experimentava para experimentar e pronto, ia para lá para o teclado e tentava tocar mas não tocava nada, carregava simplesmente nas teclas e pronto, depois o meu pai meteu-me nas aulas particulares de piano. Depois acabei por, ao fim dessas aulas particulares, preparar-me para a entrada no Conservatório de Lisboa, onde entrei aos nove anos e depois fui até acabar o Conservatório. Depois mudei para o Hot Clube porque queria entrar na Universidade, em Jazz, queria mudar o ensino clássico para o Jazz, e queria ter outra forma de aprender música.

E porquê o Jazz?

Porque eu percebi que havia uma parte do ensino que me estava a escapar. A parte clássica era muito dedicada à técnica pianística, muito dedicada também à leitura de música e o Jazz era uma coisa mais livre e eu na altura não conseguia perceber por que é que não conseguia tocar Jazz, se tinha feito Conservatório, então entrei no Hot Clube para tentar perceber qual é que era a diferença e percebia que a diferença era exatamente o oposto da música, que era um lado mais agilidade mental e auditiva do que propriamente a leitura em si.

Então, se pudesses definir o Jazz, como é que o farias? Na tua vida…

Na minha vida como é que eu poderia definir? Liberdade. Liberdade de estar preso a uma determinada folha de papel, claro dentro de uma determinada estrutura, mas liberdade para fazer dentro dessa estrutura o que quero.

No final de 2015 lançaste o teu primeiro EP, certo?

Exatamente. “Precious Love”.

Tinhas algum medo antes disso?

Não, não tinha medo. Como eu não tinha ainda o know how de como é que as coisas se processavam, não foi fácil, tinha de começar por qualquer lado e não foi fácil perceber se estava a fazer as coisas corretas ou não, as coisas nesse EP foram também mais dispersas face àquilo que eu queria fazer em termos instrumentais, também com um bocadinho de medo do investimento que iria fazer porque não tinha bem essa noção, mas não, não tinha medo em si daquilo que estava a fazer. Tinha era desconhecimento daquilo que vinha aí. E pronto, acabou por surgir o resultado que está no EP,  e a partir desse primeiro EP acabei por tirar algumas ilações e hoje sinto-me mais confiante também por causa disso porque já sei exatamente o que é que é gravar um disco meu em estúdio.

O que é que isso te ensinou, então?

Ensinou sobretudo a nível da captação de som, para o som que eu quero o que é que eu deveria ou não levar para estúdio, que orçamento deveria levar, que músicos deveria levar também, como estar no estúdio, o que é que acontece com determinado microfone, um bocadinho por aí.

Como é que surgiu o contrato com a Music For All?

A Music For All contactou-me via e-mail, marcámos uma reunião, eles fizeram-me uma proposta, eles estiveram interessados no primeiro EP, o “Precious Love”. Na altura, curiosamente, eu já estava a gravar para o segundo EP. Bem, e tive oportunidade de lhes mostrar o trabalho que estava a ser feito nesse segundo EP, houve interesse mútuo e assim foi.

Que ambições é que tu tens agora?

As ambições agora que eu tenho é promover bem o trabalho e arranjar um bom número de conceitos para as pessoas poderem ver em palco o que é que é o Daniel Moon. As pessoas ainda não têm ideia do que é que é o Daniel Moon em palco. Então estou muito ansioso.

Para que públicos é que tu queres dar-te a conhecer?

Os públicos a que eu quero dar-me a conhecer são aqueles públicos que gostam de música Soul, Funk, Jazz a tender para o Pop, não tanto aquele Jazz improvisado e é esse público. A nível de idades, claro que eu não consigo defini-lo bem mas é esse tipo de público. E é um público não só português, porque as músicas são cantadas em inglês, portanto o objetivo passa também por uma carreira internacional.

E quais são as tuas inspirações?

Eu ouvia muito Frank Sinatra no início, agora oiço outras coisas, passei para James Brown, agora mais recentemente Wolfpack, Ray LaMontagne, Jamiroquai, e passa muito por aí. Eu agora estou numa fase, como temos a abertura do mundo digital com o Spotify, o Deezer e o Tidal, eu oiço muitos álbuns que acabam por sair agora, por exemplo John Mayer acabou de sair agora em 2017, ando a ouvir, cada vez que vou tomar banho vou sempre ouvir o novo álbum de John Mayer porque está de facto espetacular para mim, e portanto eu neste momento tento mais enriquecer e tentar perceber o que é que poderei fazer numa próxima vez em estúdio, ou numa próxima vez em palco com esse tipo de novos CD que aparecem, dentro do género musical que também me agrada ouvir. Agora os Snarky Puppy também, que vieram cá recentemente. Tento agarrar ideias de diversos tipos de música para meter na minha, partes de que eu gosto.

Fala-nos deste novo trabalho, o “Be Different”.

O “Be Different” em relação ao “Precious Love” é diferente e, na minha opinião, é melhor em termos qualitativos e até quantitativos – por causa da instrumentação em si, leva sopros, leva mais músicos, leva vozes, leva segundas vozes, e penso que é mais fácil ouvir do que o primeiro EP. O primeiro EP para mim, pessoalmente, está mais aborrecido de se ouvir do que este EP. O EP “Be Different” leva quatro temas, que é o próprio “Be Different”, o “Give More”, que já foi um single lançado no final do ano passado, o “Please Come Back To Me”, o próprio “Precious Love”, que acabou por ser reeditado. E pronto, são temas que eu penso que vale a pena ouvir.

Se tu não tivesses enveredado pela música, consegues imaginar outra coisa para a tua vida?

Não, mas se tivesse de o fazer faria. Não sei o quê mas faria.

Dás aulas de música a crianças?

Tudo. Dou desde os meninos de seis anos de idade até pessoas mais velhas do que eu. Ensino piano essencialmente. Já dei aulas de canto mas acabei por querer dar só aulas de piano, por opção própria, e de vez em quando vou substituindo professores de formação musical porque tenho formação para isso também.

O que é que a música do Daniel Moon consegue transmitir a quem a ouve? Consegues ver isso?

Consigo, consigo. Em relação ao “Be Different”, e eu agora vou falar do “Be Different” porque é um single acabado de lançar há quase dois meses, o “Be Different” valoriza a ação em relação às palavras. E, portanto, acaba por chamar à atenção e não só chamar à atenção, é quase um conselho, não é um conselho, eu queria chegar a outra palavra que agora não estou a encontrar, mas acaba por chamar à atenção das pessoas, que vale mais agir e mostrar o que se vale do que mostrar o que se vale através das palavras. E o “Be Different” fala um bocadinho disso. O “Give More”, por exemplo, é um tema que fala sobre dar mais sem esperar algo em troca, ajudar mais, dar mais, amar mais, e o tema é por aí. Os outros dois são temas românticos.

Tens sentido dificuldade, ao longo do tempo, principalmente nestes últimos anos, em relação aos lançamentos? Estávamos há pouco a falar das dificuldades…

A falta de apoios, sim. Não é fácil, eu sou professor de música em grande parte e é através desse trabalho que eu acabo por investir na minha carreira, pago aos músicos através do trabalho que eu faço, pago a gravação do estúdio através do trabalho que faço, pago a promoção através do trabalho que faço, portanto tem sido um esforço muito pessoal, muito próprio, e do qual também, neste momento, estou à procura de…estou à procura e a Music For All é neste momento um parceiro que me irá certamente ajudar nesse processo, mas é muito difícil encontrar apoios financeiros para trabalhos musicais, e é difícil precisamente por causa disso.

A música perde por não ter esses apoios?

Perde muito, perde muito. O meu caso não é um caso único, acredito que quase toda a gente em Portugal tenha de passar por essa, quem quiser lançar projetos, por essa fase, não só a nível musical (risos). Mas perde, perde muito e é pena porque o projeto Daniel Moon é um projeto que visa também a grande dimensão de palco e a grande dimensão de palco precisa também de muito investimento sobre isso.  E eu penso que exportar a música portuguesa, seja ela cantada em português, em inglês, ou seja só música instrumental, penso que é importante. Não havendo apoios, há sempre uma fase que é difícil avançar mais porque, de facto, é preciso um investimento forte e quando se fala em investimento forte, uma ajuda é sempre um passo a mais para a música portuguesa. E eu penso que a música portuguesa é importante que seja exportada.

E porquê o nome Daniel Moon?

Bem, eu chamo-me Daniel no B.I. Daniel Moon é já um nome pensado desde há muito tempo, muito antes de… eu já sabia que eu queria fazer um projeto próprio mas o nome foi arranjado muito antes de o projeto ser lançado. Porquê Daniel Moon? Moon tem a ver com a dimensão que queria dar. Portanto, Moon sendo um satélite, queria dar uma dimensão de palco um bocadinho maior, não tanto no conceito intimista mas um projeto mais vocacionado para um palco maior.

Há ideias para futuros espetáculos?

Há sim, há sim. Para futuros espetáculos, quando eles forem arranjados, a seu tempo…há sempre ideias. Há ideias para um próximo EP já, EP ou álbum, já tenho algumas músicas escritas, que vai bater mais na área do Funk, porque este EP não bate tanto na área do Funk. Este próximo vai bater mais na área do Funk e da música dançável e músicas alegres, porque eu quero que os concertos tenham isso, tenham essa componente, uma componente alegre, dançável, e portanto o próximo álbum vai ser sobre isso, certamente.

Não nos podes revelar mais?

Para já ainda não (risos), mas se calhar numa próxima entrevista.

Ainda este ano?

Não, ainda não. Este ano não, lá para 2018.

Sobre o autor

Jessica de Sousa

Mais tarde direi que com 19 anos tomei a decisão mais perigosa da minha vida. Eu, pessoa que não lida bem com “voos muito altos”, que está sempre de pés assentes na terra, meti-me num avião e vim em busca de algo que não sabia se era capaz de conhecer. Com medo, da Madeira para Lisboa vim sem experiência, sem certezas, sem amigos, sem família. Hoje tenho isso tudo e mais ainda. Tenho sonhos.
Já quis a todo o custo seguir medicina. Quis também ser socióloga. Na ânsia de querer melhorar a sociedade, quero ser jornalista. Sou apaixonada pela escrita e pela literatura, pela informação, por histórias, por vidas. Talvez seja esta a maneira mais estranha de ser médica de uma coisa que me fascina: o mundo.

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