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Rui Maia: “a música dance e eletrónica são o fio condutor em Mirror People”

Os Mirror People, projeto do multifacetado Rui Maia, estão de regresso com um novo trabalho discográfico. Este Bring the Light, lançado a 31 de março, é um lógico sucessor de Voyager, o primeiro trabalho, saído em 2015. É um disco com elementos de synthpop e de noise, embrulhados com uma roupagem pop. As críticas têm sido boas e as canções, compostas e interpretadas em parceria com o músico português Jonny Abbey, preparam-se agora para ser apresentadas ao vivo, em alguns espetáculos já confirmados.

O ARDINAS 24 esteve à conversa com o mentor dos Mirror People, que, além deste projeto, pertence ainda à famosa banda X-Wife. Rui Maia falou-nos do novo disco, do percurso que traçou, da identidade do projeto e também levantou um pouco o véu quanto ao futuro.

 

ARDINAS 24 – Estamos aqui por causa do teu novo trabalho, que tu explicas que é uma viagem ao passado mas com um olho no futuro. Como é que surgiu este conceito?

Rui Maia – O conceito partiu da sonoridade que eu quis desenvolver neste disco. O primeiro álbum foi mais influenciado pelo disco sound, pelo funk, pelo nudisco, e neste segundo trabalho quis fazer algo diferente. Quis quebrar um bocado essa linha de sonoridade desses géneros. Estava à procura de algo com que eu me identificasse e fosse também uma continuação do trabalho que desenvolvi no primeiro álbum. Decidi utilizar praticamente os mesmos materiais e instrumentos do primeiro, mas de uma forma diferente – talvez mais crua. Quis usar sons mais sintéticos e explorar outra sonoridade. Fui buscar influências às minhas raízes, como o synthpop – aos Human League, aos Soft Cell, às bandas sonoras dos filmes que via quando era miúdo (desde o Pesadelo em Elm Street ou Chucky), que são muito carregados pela base de synth. Tudo isto também aconteceu numa altura em que apareceu algum revivalismo ligado a séries de televisão; Stranger Things é um exemplo, pois teve bastante hype e eu acompanhei. No fundo, esta é uma sonoridade com que eu me identifico, e uma daquelas com que cresci. Partindo daí, a ideia foi desenvolver esse som com elementos de synthpop, e também ter um lado mais noise, que existe em algumas canções onde tudo é mais alto, mais barulhento. Tentei juntar esses dois mundos com uma roupagem pop, com versos e refrões, que acabam por estar presentes neste disco e que já estavam no anterior.

Ideias que também remetem aos anos 80…

Sim! Eu tenho irmãos mais velhos e comecei desde cedo a ouvir muitos artistas com estas e outras sonoridades, e foi com elas que cresci. No entanto, nunca tinha explorado o lado synthpop das canções, e gostei de fazer isso neste disco. Acho que também decidi ir por esse caminho quando comecei a trabalhar com o Jonny Abbey, devido ao timbre dele e à maneira como ele compõe, além das ideias que partilhamos quanto à composição de canções. Foi um acaso feliz!

Como surgiu essa parceria com o Jonny?

Ouvi dois singles dele e gostei da sonoridade e da abordagem que ele deu aos temas. Na altura, estava à procura de novas vozes para trabalharem comigo neste segundo álbum – porque Mirror People funciona sempre com a colaboração de outras artistas –, uma vez que não queria repetir as pessoas do primeiro álbum. A música do Jonny chegou-me aos ouvidos e entrei em contacto com ele. Ele conhecia o meu trabalho como Mirror People e X-Wife, e combinámos fazer uma canção. As coisas correram bem e o processo foi todo muito fluído. Nós demorámos seis meses a fazer este disco. Chegámos a compor quatro temas num só mês. Assim, pensei que, ao contrário do primeiro disco, poderia trabalhar só com o Jonny em todas as músicas deste álbum, o que facilitava inclusivamente os espetáculos ao vivo.

Percebe-se que foi realmente um processo rápido, porque, há um ano, numa outra entrevista que nos deste, confessaste não estar nos teus planos lançares nenhum trabalho tão cedo…

Sim, foi rápido. Começámos a trabalhar em junho e fizemos logo duas ou três canções – uma delas o In Your Eyes, que saiu em novembro. Entretanto, houve uma série de alterações à abordagem. O disco era para ser uma banda de cinco elementos, mas, quando não encontras uma sinergia entre todos os participantes, percebes que as coisas não vão funcionar. Seguimos outra via, deixámos algumas canções de fora, e continuámos a trabalhar até 5 de março – quando o disco saiu no dia 31! Foi mesmo no prazo limite! Trabalhámos exaustivamente, 12 horas por dia, eu em Lisboa e o Jonny no Porto, para ter tudo pronto no tempo combinado.

Achas que este regresso aos anos 80, que tanto tu como outros músicos têm procurado fazer, pode ser um caminho para o futuro da música? A reinvenção constante do que já existe?

Sim, sem dúvida! Eu acho um bom conceito! O que acontece é que está tudo inventado. Não há estilos novos, ideias novas para se criar música nova. Muitas vezes, acontece com muitos artistas não situarem a música que fazem numa dada era. Por exemplo, o Get Lucky, dos Daft Punk: eles não assumem que a canção é dos anos 70, mas é. Ou, se ouvirmos o Bruno Mars, não dizemos que é funk dos anos 80. Por vezes, a música não se situa num tempo, e eu não tenho problemas com assumir as minhas referências e as influências para o que faço. Existem ciclos na música, e há de chegar o momento de reinventar os anos 90 igualmente. Também a onda psicadélica voltou há uns anos, recuperando um estilo dos anos 60. A música é cíclica. O lado que estamos a explorar em Mirror People – os anos 80 – também está a ser seguido por outros projetos, como os Neon Indian ou os Holy Ghost!, por exemplo – bandas de que nós gostamos imenso e que estão a fazer isto também. Não há nada de novo… Mas as canções têm de falar por si.

Que feedback tens tido deste novo trabalho?

Nós gravámos o disco com a mentalidade de “é isto que nos apetece fazer e por isso vamos fazer”. Não pensámos muito naquilo que as pessoas iriam pensar. É evidente que existe a preocupação de fazer chegar a nossa música ao maior número de pessoas. Acho que a música que faço é acessível e penso que vai agradar a um bom número de ouvintes. O feedback é positivo. O álbum saiu há pouco tempo, mas tenho recebido bons comentários e sei que já existem temas preferidos das pessoas. Mas é pouco tempo para julgar. Pessoalmente, gosto do disco e acho que está muito bem conseguido. Este é mais sólido do que o primeiro, que disparava para mais lados porque tinha vários vocalistas e, por isso, não o sentia tão sólido quanto este. Além disso, agrada-me a ideia de o irmos tocar ao vivo exatamente como ele é, até porque as músicas foram feitas a pensar na atuação ao vivo. São canções com guitarra (pois o Jonny canta e toca guitarra), estão lá os sintetizadores e a bateria eletrónica, que eu toco… O tempo dirá o que as pessoas vão mesmo achar do disco.

Depois do lançamento do álbum, o que vem a nível de concertos e promoção?

Nós temos vários concertos, alguns já confirmados. No final do mês, estaremos em Évora, Viseu e no Porto (27, 28 e 29 de abril). Há outros espetáculos previstos, que serão anunciados no momento certo, por isso convido-vos a seguirem o nosso website, mirrorpeople.net, que tem todas as datas e o disco para ouvir no Spotify.

Depois destes dois primeiros álbuns, que seguem, como explicaste, um caminho lógico, o que podemos esperar no futuro dos Mirror People? 

Ainda não sei… Faço os discos um bocado por aquilo que estou a sentir no momento. O Voyager demorou dois anos a ser escrito, porque tinha muitos vocalistas e foi o primeiro álbum a sério que gravei sozinho. Tentei ser o mais perfecionista possível para o disco ficar exatamente como eu queria, mas levou tempo devido aos compromissos que cada um dos artistas tinha. Este disco foi feito neste espaço de seis meses e representa a visão que eu tive para este projeto, o caminho que eu queria seguir com este segundo disco. Não sei se daqui a meio ano não quererei explorar outra sonoridade. Mas defendo que haja um fio condutor, e a música dance e eletrónica são o fio condutor em Mirror People. Este disco tem mais guitarras, tem um ar mais indie que o primeiro não teve, mas não garanto que estejam no terceiro disco, onde, contudo, é certo que estarão os sintetizadores… A parte eletrónica e a parte de canção, de haver refrões, por exemplo, continuarão, porque é a estética que tenho definida e que faz sentido continuar. Para fazer música de dança eletrónica mas num contexto de pista de dança e mais de autor, de discoteca, tenho o meu nome próprio, com que desenvolvo música instrumental e longa.

Porquê a necessidade de ter tantas personagens ativas?

Para poder desenvolver outro tipo de sonoridades que não encaixam todas num único projeto. Gosto de fazer diferentes coisas, como DJ e como músico. Mesmo como ouvinte, gosto de poder explorar várias áreas. Assim, vou compondo temas que não gosto de deixar em gaveta, e por isso vou lançando-as. Por exemplo, algumas canções com sonoridade mais rock eu apresento-as aos X-Wife, onde têm mais espaço e sentido.

Mesmo no caso dos X-Wife, também o João Vieira tem um projeto paralelo… Achas que o facto de vocês terem o vosso próprio espaço permite que se libertem individualmente e, depois, na banda, funcionem melhor em conjunto?

Os X-Wife já não lançam um álbum há muito tempo… Não quer dizer que não venha nada de novo aí, porque vem! As coisas estão a andar devagarinho… Enquanto banda, estivemos juntos 10 anos, mas começámos a desenvolver-nos muito musicalmente a partir do momento em que lançámos os nossos projetos individuais. Começámos a trabalhar com pessoas diferentes, aprendemos muito, explorámos outras linguagens… Nota-se pelo Movin Up, que lançámos em 2015, que já há uma influência dos nossos projetos pessoais, uma mistura de realidades: estão lá as percussões, que quase nunca entravam nos X-Wife e têm um toque de Mirror People e do meu gosto, assim como o João deixou lá o carimbo dele enquanto White Haus. Isto é muito importante para a banda. Não queremos praticar sempre a mesma sonoridade, defendemos uma roupagem nova. Queremos inserir sempre algo novo no nosso universo.

A banda vai continuar?

Sim, nós estamos a trabalhar em músicas novas, estamos a gravar demos, temos aperfeiçoado algumas coisas e, quando pudermos, vamos para estúdio gravar o disco. Não sabemos o que vai sair daqui, mas a nossa ideia é continuar a trabalhar. Mas tem de ser devagar. Os X-Wife, como têm quatro álbuns e quase 14 anos de carreira, precisam de editar coisas que sejam certas. Não queremos editar um disco para o andarmos a tocar simplesmente. Queremos algo que esteja ao nível do que já fizemos e que faça sentido para nós, daí andarmos devagar.

E é possível conciliar tudo?

Sim, claro! E, além destes projetos, estou envolvido em mais coisas. Faço produção para outros artistas, também. Mas é preciso dedicação, porque é um trabalho que nos tira horas de sono. No entanto, é isto que quero para mim: fazer música e ajudar outros a fazer música.

Fotos: Rui Maia

Sobre o autor

Gonçalo Esteves Coelho

Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto.
Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História.
Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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