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A bomba-relógio chamada Montepio

Escrito por Goncalo Nuno Cabral

Ainda ressacados dos problemas no BES e no BANIF, parece que estamos preste a assistir à queda de um novo banco, que não sobreviverá à gestão privada que tem sido feita. Bem-vindos ao Montepio. Antes de tecer quaisquer comentários sobre a situação em que se encontra o banco é importante separar as águas. Existe uma Associação Mutualista Montepio, que é dona da Caixa Económica Montepio Geral. Ainda que sejam duas instituições separadas, uma depende diretamente da outra para existir. E apenas a Caixa Económica, que é o banco, é que é supervisionado pelo Banco de Portugal, deixando de fora a Associação, que não é vigiada por ninguém.

Esta mesma Mutualista tem cerca de 650 mil associados, que não estão protegidos por nada. Investiram as suas poupanças e adquiriram produtos do banco. Ou seja, se o Montepio cair, com ele caem todos os milhares de associados que passam a lista dos lesados da banca portuguesa. Aqui, o Fundo de Garantia de Depósitos nada cobre, e o barco afunda-se com todos os que lá estão dentro.

Ainda hoje são poucas as informações que temos sobre a situação do banco e está prestes a colapsar ou não. O que sabemos é que o presidente de todo o grupo Montepio, Tomás Correia, é arguido num processo da Operação Marquês e é suspeito de ter recebido de Ricardo Salgado qualquer coisa com 1,5 milhões de euros. Depois de saber desta situação, o próprio confirmou que não se demitia até que o caso transitasse em julgado. Portanto, a contar com a celeridade da justiça portuguesa, podemos contar com a sua presença por muitos e bons anos. Podíamos falar das suspeitas que recaem sobre a OPA do Montepio sobre o Finibanco em 2010, mas só o primeiro processo é suficiente para perceber no sarilho em que Tomás Correia está metido.

A situação global do banco não é propriamente nova. Já há algum tempo que sabemos que a situação financeira não era a melhor. E a apresentação dos resultados no final do mês de Março veio confirmar isso mesmo. Os prejuízos foram de 86,5 milhões de euros apesar de terem melhorado face a 2015.

Como se tudo isto não fosse suficiente para não estarmos desconfiados, houve no início deste mês uma Assembleia Geral para discutir a designação da Mutualista para Sociedade Anónima, para permitir que haja novos investidores. E quem são eles? A Santa Casa da Misericórdia. Ninguém sabe porquê, para quê, e que sentido tem esta possível entrada. É claro que todos falam para tranquilizar e relativizar tudo o que se está a passar. Tanto Mário Centeno  como o presidente do banco, Félix Morgado, acham que está tudo bem e não há razão para alarme. Ainda assim, a  julgar pelo que disse o Banco de Portugal, a situação não parece assim tão ligeira. Carlos Costa quer que o banco mude de nome e se separe da Mutualista para não haver riscos acrescidos.

Por enquanto, estamos como sempre estivemos. Sentados, de poltrona, a ver a bombo explodir sem fazermos nada. Para o bem de todos é bom que sejamos capazes de detetar o problema e resolvê-lo a tempo. Porque, convenhamos, basta de escândalos!

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Goncalo Nuno Cabral

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