Crónicas Histórias de Bolso

Cartas ao Pai Natal

Todos deveríamos gostar das Cartas ao Pai Natal. Não é que ele as leia, mas trata-se de uma forma de expor os nossos desejos na esperança de que eles se cumpram. Já em miúdos, creio, o sentimento é um pouco esse, do estilo “deixa-me lá pedir isto para ver se pega”. É esta hipótese libertina que tanto me agrada neste projecto sazonal, ainda com réstias do romantismo, ao jeito sigiloso que se pretende.

Haverá, contudo, quem se aproveite desta oportunidade que nos aparece isolada uma vez por ano. Até porque não é fácil moderar os pedidos quanto é tanta a coisa a pedir. Torna-se importante saber moderar a quantidade (ou a qualidade?) dos nossos desejos, fazendo esforços por uma carta equilibrada, de modo que o velho Pai Natal a leia e sinta que tem nas mãos um produto pensado, digamos que modesto, e sem qualquer ofensa susceptível de qualquer coisa – o que sempre é necessário nos tempos que correm.

No meu portefólio de redacções natalícias, tenho avivada uma carta que escrevera há alguns anos na escola primária. Nessa altura, com sete ou oito anos, por estar desprovido de equilibrismo moral ou por ter receio da praga das edições limitadas, pedi todos os jogos de que gostava. Eram, sem exagero, uma dezena deles. No fim, e já separado do rol de desejos digitais, a carta acabava com um pedido avulso, que o Pai Natal deve ter interpretado como repescado do meu pensamento à última da hora. A minha irmã, que na altura rondava a minha idade, estava desempregada. Pedi ao velho um trabalho para ela. E parece que o tipo acedeu. Durante muito tempo o exemplar dessa carta esteve colado num Dossier que a minha irmã usava na Faculdade, e era lido pelos amigos dela com compaixão e pela minha própria irmã durante o cansaço das aulas.

Agora que é altura de escrever a carta deste ano, penso na manobra utilizada nessa carta da escola primária: pedir demais, pedir tudo. Depois, no fim, deixar um pedido isolado, em destaque suave. Com sorte pode ser que pegue.

Sobre o Autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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