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Reality show bancário

A novela Caixa Geral de Depósitos conheceu mais um episódio. A esquerda chumbou em bloco a proposta do PSD que previa a limitação dos salários dos gestores do banco público e em concreto da nova administração liderada por Paulo Macedo.

Já se sabe que o novo presidente vai ganhar 423 mil euros por ano. Tendo em conta que o salário médio em Portugal é de 900 euros, não admira que muitos se insurjam contra os valores que são apresentados para esta administração. Contudo, não podemos o correr o risco de cair em demagogias neste caso. Se no tempo do anterior governo pouco se falou na limitação de salários e mais transparência, não deixa de ser irónico que a agora oposição venha com esta ladainha popular.

E aqui não posso deixar de dar créditos ao que disse o primeiro-ministro ontem no parlamento. Disse António Costa: “se, por absurdo, resolvêssemos ter uma equipa de futebol do Estado, não podíamos ter uma equipa com jogadores com salários limitados ao do primeiro-ministro. Se fosse assim, não teríamos jogadores que quisessem jogar”. É claro que não podemos colocar um gestor de um banco público a ganhar substancialmente menos do que ganha no privado. Se assim for, poucos serão aqueles que vão querer traçar um plano de recapitalização e reestruturação do banco público.

Contudo, se os líderes dos principais partidos concordam que estes são salários “milionários” e “chocantes” há que fazer alguma coisa deconcreto. Não é apresentar propostas em cima de propostas e em cima de leis para ver quem é mais defensor do dinheiro público. Há que fazer uma legislação forte, implacável e sem qualquer margem para dúvidas. Se assim não for arriscamo-nos a assistir a episódios como os de António Domingues. Pelos vistos houve um compromisso com o governo para que não houvesse um cumprimento da lei mas o desfecho foi aquele a que todos assistimos.

A escolha de Paulo Macedo para a presidência é outro dos bons episódios. Não há escolhas inocentes, mas a opção pelo antigo ministro de Passos Coelho podia ser uma boa oportunidade para acalmar os ânimos. Ainda assim, os sociais-democratas não baixaram a guarda e continuam a sacudir a água do capote evitando responsabilidades nesta situação.

Mas ninguém está livre de responsabilidades. Da esquerda à direita, à exceção do PCP – faça-se justiça à sua posição -nenhum olhou ao superior interesse nacional. O PS tentou salvar a trapalhada do governo com o problema que foi António Domingues; o PSD e CDS quiseram desviar as atenções daquilo que foi o problema Caixa nos quatro anos do seu governo; e o Bloco de Esquerda deixou Costa pendurado e decidiu, excepcionalmente, olhar para o seu verdadeiro programa eleitoral.

Agora pergunto: onde reside a esperança para que isto não se torne ainda mais num degradante reality show?

Sobre o Autor

Goncalo Nuno Cabral

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