Crónicas Histórias de Bolso

Pitucha

A história da minha cadela podia ser contada nos serões familiares. O seu destino, ou aquilo que ele lhe destinou, seria razão suficiente para convocar as atenções. Eu e a minha irmã, na altura na plenitude da nossa impotência, insistimos com os nossos pais para que ela pudesse vir cá para casa. De noite, imaginávamos que já a tínhamos a dormir connosco, pequena, a gemer durante a noite criando o desespero como acontece com os bebés. Na primeira vez que entrou em nossa casa nunca mais saiu. Já chegou baptizada, com nome próprio. Pitucha, na oficialização nominal, ou Tucha, na abreviação lógica.

De vez em quando escrevo sobre ela. A Tucha, que até deu nome a um animal de um livro, foi sendo sempre o meu brinquedo favorito. Nessa infância em que crescemos juntos, eu e ela, cabia-me a tarefa de a levar à rua, todos os dias, à mesma hora. Se alguma coisa fazia adiar o passeio, comentava-se por casa que a Tucha ainda não tinha ido à rua. Às vezes fazia-o contrariado, preferindo não ir, mas divertia-me depois com a sua velocidade quando corria e nos sustos que oferecia a quem passava de bicicleta. No nosso prédio todos a conheciam, tal como conheciam também a probabilidade das más consequências de fazer uma festinha. O grau de perigosidade da coisa ia aumentado conforme subíssemos as escadas até casa. Este era o seu território, portanto, e os estranhos, como um colega meu, hesitavam em entrar e pediam que a prendesse primeiro. Perante o seu espírito por vezes indomável, a Tucha andava irremediavelmente solta, e esse colega meu, percebendo o perigo, tocava a campainha e descia para o patamar de baixo para que eu preparasse primeiro o jogo de portas. É claro que às vezes soltei a Tucha sem que os convidados esperassem. Somos miúdos e somos loucos, como não?

Como o tempo vai passando recordo-me, em concordância com tudo aquilo que é natural, desses tempos em que a Tucha julgava mandar no Mundo. Agora subir as escadas do nosso prédio é um castigo e as pessoas que chegam cá a casa passam despercebidas quando se está no quarto do fundo. A vida nos cães, por ser mais curta, percebe-se melhor na memória. Penso quase na existência da Tucha como num filme de que nunca me esqueço, e que poderei contar sempre, em síntese, também num serão familiar.

Daqui a três dias celebrará 16 anos. É, segundo as leis do peso e da raça, uma idade bonita e compreensível, bem capaz de nos deixar mais enternecidos na hora triste. Olho para ela agora e penso se valerá a pena não saber que a morte existe. Olho para ela agora e penso que dava tudo para poder levá-la à rua todos os dias e para sempre.

Sobre o Autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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