Crónicas

Sobre Fidel: nem a demonização, nem a canonização

Escrito por Rafael Pinheiro

A histeria da opinião pública leva alguns a acreditar que existe alguma regra tácita, aplicável a todos os casos, que nos tem de fazer escolher um lado e desprezar o outro, escolher quais são os nossos amigos e os nossos inimigos. E é, de facto, verdade que existem casos em que a urgência da situação nos força a escolher um lado. O próprio Orwell, uma das minhas maiores referências na escrita jornalística e na procura pela verdade, disse que “não há nada mais pró-fascista do que o pacifismo” num debate televisivo agendado pouco antes da entrada da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial e em que o tema era a eventualidade da participação do país no conflito. Por interpretação extensiva, creio que na definição deste género de pacifismo esteja incluída também a inércia daqueles que decidem não escolher um lado num mundo minado por conflitos e pelas suas consequências.

Sendo toda esta argumentação válida, creio que, ainda assim, existam algumas excepções. À pergunta sobre se Fidel foi um herói ou vilão, nunca haverá, simplesmente, uma resposta e teremos de nos contentar em reconhecer que há perguntas que se justificam a si mesmas e que, pela sua própria natureza, permanecerão sempre em aberto, pairando sobre nós pela eternidade. Às vezes, mais vale deixar deliberadamente nessa ambiguidade a memória daqueles que, por vezes, não tiveram outra escolha senão sujar as mãos e que viveram em tempos e sob circunstâncias que nos são estranhas.

Fidel Castro, para além de ter sido uma figura que construiu História e sobreviveu a essa própria História, acumula ainda o feito de ter sido, conforme as circunstâncias, duas coisas muito distintas: umas vezes esteve perto de ser um herói e noutras foi um ditador que continua a ser maldito por muitos.

O líder cubano foi um herói quando, ao lado de Che Guevara, uniu o povo cubano na revolucionária guerra de guerrilha que acabou com o regime de Fulgêncio Batista em Cuba, que era apenas uma marioneta dos interesses norte-americanos e que fazia do país o casino e o bordel dos EUA. Depois da expulsão de Batista, Fidel chegou a bater à porta da Casa Branca, procurando apoio para a instituição de um novo regime. Até este momento, Fidel não era comunista. Aquilo por que ansiava era por tornar o seu país numa democracia burguesa semelhante à escala europeia. No entanto, a resposta de Washington foi negativa – os EUA não queriam nenhum governo que não fosse seu lacaio e, perante um embargo económico com repercussões que infinitamente prejudicaram Cuba, Fidel não viu outra possibilidade do que a de ir bater às portas da URSS, naquela altura já há bastante tempo um Estado operário degenerado e governado por uma burocracia estalinista que tinha traído os valores da Revolução de Outubro.

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Fidel foi ainda um herói quando forneceu ao seu povo um sistema público de saúde que continua a ser um dos melhores do mundo, quando levou Cuba a atingir algumas inovações científicas sem paralelo e quando tornou o seu país num dos Estados com mais elevados níveis de literacia do mundo. Pelo menos nestes aspectos, Cuba é um país mais evoluído do que a maioria das democracias ocidentais – incluindo a nossa.

Mas Castro foi um ditador com traços abomináveis quando agiu de acordo com a ideia de que o caminho para o Socialismo podia ser feita em torno da figura de um único homem e se achou predestinado para ocupar esse lugar. Foi um ditador com pouco respeito pela vida humana quando ordenou o fuzilamento dos seus opositores políticos apenas por divergências ideológicas e quando instituiu um regime que reprimia a liberdade de expressão e prendia jornalistas, escritores e intelectuais.

Desde 2008, o reinado assume a aparência do irmão, Raul Castro, mas a Cuba de Fidel mantém-se. Segundo os relatos, o ambiente em Havana tem alguns traços que nos podem fazer recordar parcialmente o regime descrito por Orwell em “1984”. Os cidadãos são bombardeados com propaganda e doutrinação constante e são brindados com cartazes em que Fidel lhes diz “tudo va bien”, enquanto as suas mulheres se prostituem nos hotéis em troca de um punhado de moedas da economia paralela. Nos três canais de televisão controlados pelo Estado, os cubanos ouvem na íntegra os discursos intermináveis e delirantes de Fidel, até ficar pouco mais do que a negação do falhanço de uma revolução que lhes prometia a libertação mas que, mesmo tendo os seus progressos, tem o defeito inegável de lhes ter trocado um ditador por outro.

Em Miami, alguns exilados do regime cubano celebram freneticamente a morte de Fidel. A maioria será constituída, provavelmente, por descendentes de grandes burgueses, expulsos por Castro, que se aliavam à ditadura sanguinária e cleptocrática de Batista, preservando o espaço necessário para poderem continuar a enriquecer com o trabalho dos trabalhadores cubanos. Mas esses, pelo menos, puderam sobreviver para contar a história e para deixar descendência, contrariamente ao que aconteceu a certos dissidentes de regimes ditatoriais apoiados pelos EUA como o de Pinochet, no Chile, que foram colocados num estádio, executados e que jazem hoje em valas comuns.

No entanto, foi também sob a autoridade de Fidel que as tropas cubanas prestaram um auxílio decisivo a Agostinho Neto quando este procedeu à infame purga dentro do MPLA, em 1977, em que morreram dezenas de milhares de angolanos. Face a aspectos inegáveis de violência desnecessária do regime de Fidel, pode haver quem questione se o antídoto para a doença que foi Batista e o imperialismo dos EUA não foi veneno também. Foi invocando essa mesma violência que José Saramago, em 2003, justificou, num texto poético ao El País com o título “Hasta aquí he llegado”, a sua divergência e a retirada de apoio ao regime cubano, depois de três dissidentes, após um acto de afrontamento ao regime em que não existiram mortes, terem sido fuzilados ao invés de julgados de outra forma mais humana ou exilados.

Os relatos sobre a existência ou inexistência de direitos económicos e políticos em Cuba são contraditórios. Uns, defensores do “castrismo”, reforçam a narrativa de que as repressões e violações de direitos humanos são um mito enquanto os que defendem o contrário são acusados de espionagem ou de tentativas de conspiração com a CIA. Se a intromissão da agência de inteligência norte-americana foi, de facto, real, tendo em conta as mais de 600 tentativas de assassinato a Fidel, é normal que a eterna acusação de espionagem ou conspiração que recai sobre os dissidentes comece a ser questionada como a eterna justificação para a repressão e execução dos opositores, de uma forma algo reminiscente das acusações que Stalin inventou contra os opositores trotskistas durante a Grande Purga de 1934-39 dentro do Partido Comunista.

No meio de fontes que se contradizem umas às outras, ficam, no entanto, relatos como os relatórios da Human Rights Watch, que mencionam os períodos de alta repressão de direitos fundamentais como as detenções e condenações arbitrárias de 75 cidadãos em 2003, entre os quais jornalistas, activistas de direitos humanos, sindicalistas e outros críticos do governo, sob a acusação de serem mercenários ao serviço do governo norte-americano, que foram sujeitos a um sistema prisional desumano.

E sobre os direitos LGBT? É, por um lado, verdade que a partir dos anos 90 o regime cubano liberalizou-se neste aspecto e Fidel passou a afirmar publicamente que as perseguições iniciais aos homossexuais foram um erro. Mas é um facto que, durante as primeiras décadas do regime, também nesta matéria houve claras violações de direitos humanos. Segundo Fidel, os comportamentos “sexualmente desviantes” eram considerados contrarrevolucionários e resultados da decadência da sociedade capitalista burguesa, num cenário em que o regime instituiu leis que condenavam os “transgressores” a penas de prisão em campos de trabalhos forçados que tinham o objectivo de corrigir o comportamento dos condenados. As denúncias foram várias mas as mais proeminentes terão sido feitas pelo escritor cubano Reinaldo Arenas, que esteve várias vezes preso e que conseguiu escapar para os EUA em 1980. Os relatos foram feitos sobretudo na sua autobiografia, “Antes Que Anochezca”, que foi mais tarde adaptada para o cinema.

É verdade que os ditadores nunca governam sozinhos e existem outras estruturas que os sustentam. Mas não podemos considerar um quadro democrático um regime no qual um mesmo homem assume o papel de líder durante 49 anos, entre 1959 e 2008, e em que o sucessor desse mesmo líder é o seu irmão. Houve vidas inteiras que começaram e acabaram que não conheceram nunca a face de outro líder. A Cuba de Castro é um país onde é recusada a existência de partidos políticos alternativos, sindicatos independentes ou uma imprensa livre.

É provável que agora, após a sua morte, lhe edifiquem uma estátua alta com ares de omnipotência como a que a que foi edificada a Che Guevara em Santa Clara, mantendo uma ideologia de “culto do chefe” que pouco tem de revolucionário, canonizando um homem que, sendo venerado por alguns membros do seu povo como uma espécie de semideus, foi apenas um homem que sangrava como todos os outros.

A militância na Esquerda não é igual em todos e, consoante os casos, é motivada por razões subjectivas diferentes. Em alguns o motor por trás dessa militância é um instinto libertino que despreza qualquer regime em que o povo não seja governador de si próprio e, noutros, uma raiva dormente que se traduz num desejo de fazer vergar aqueles que, sendo apenas homens, se assumem como algo mais. Entre esses é pouco provável que haja aplausos ou manifestações de júbilo quanto ao regime castrista.

Nem tudo pode ser etiquetado com os rótulos de bom ou mau e existem muitas áreas cinzentas. A melhor maneira de descrever a vida de Castro é precisamente a ambiguidade de não sabermos se o havemos de rotular como herói ou como ditador delirante. Nuns momentos, para umas pessoas, foi uma coisa e noutros foi outra. O que é preciso é recordar o bom sem esquecer o mau e também recordar o mau sem esquecer o bom. Face aos factos e à impossibilidade de criar rótulos precisos, o mais coerente é descrever a vida de Castro precisamente com esta ambiguidade, por mais sombria que a incerteza seja.

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Fotos: Pixabay

Sobre o Autor

Rafael Pinheiro

Rafael Pinheiro sonha em resgatar heroicamente o Socialismo da gaveta em que Mário Soares o arrumou em 1978. Para além da leitura e da escrita, gosta de tocar guitarra nos tempos livres, optando sobretudo pelo Blues e por Jimi Hendrix.

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