Pelas Ruas da Memória Rubricas

Pelas Ruas da Memória – A Relíquia

Escrito por Miguel Meira

Hoje vamos até ao final dos anos 80 e recordamos a série A Relíquia, exibida em três episódios na RTP, de 24 de outubro a 7 de novembro de 1987. Esta série é uma adaptação do romance homónimo de Eça de Queiroz, adaptada por Luís de Sttau Monteiro e Artur Ramos, que é também o realizador da série. O guarda-roupa esteve a cargo de José Costa Reis.

Esta série conta-nos a história de Teodorico Raposo, o Raposão, que nos fala sobre as suas memórias, sobre a sua infância e de como ficou órfão e aos cuidados da tia, D. Maria do Patrocínio, conhecida como a “Titi”.

A Titi é uma senhora de idade, católica fervorosa, que segue todos os mandamentos e preceitos da religião cristã e abomina todas as coisas que a Santa Madre Igreja condena. Ao contrário da Titi, o seu sobrinho Raposão vive uma vida de farra e desafogada, envolvendo-se com várias mulheres como a empregada Vicência e principalmente Adélia, que conhece por intermédio do amigo Rinchão.

Aconselhado pelo dr. Margarite, amigo da Titi, Raposão aposta na sua vertente religiosa, não perdendo uma novena ou uma missa, de forma a captar a atenção da Titi e para que possa herdar a sua herança. Como tal dá-lhe a missão de ir à terra santa e donde deverá trazer uma relíquia religiosa que o ajude a ficar mais devoto.

Raposão faz essa viagem e conhece Miss Mary no Egipto, com quem desenvolve uma relação amorosa muito intensa. Já em Jerusalém lembra-se do prometido e embrulha um galho de espinhos para oferecer à Titi, fazendo-a acreditar que seria da coroa de espinhos de Jesus Cristo.

O embrulho é trocado e em vez dos espinhos o outro embrulho tinha uma camisa de noite que Miss Mary lhe tinha deixado de recordação das suas noites de amor. Ao descobrir isso a Titi fica escandalizada e furiosa e expulsa Raposão da sua casa e da sua vida.

Depois de não ter nenhuma chance de ficar com a fortuna da Titi, Raposão torna-se comerciante de relíquias, tornando-se a certa altura falsificador das mesmas de forma a aumentar os lucros.

Foram três os episódios da série, cada um com o título de um dos personagens centrais do episódio: Teodorico (I); Adélia (II) e Mary (III).

Esta adaptação teatral contou com grandes atores bem conhecidos do público, como Júlio César, que tem em Raposão um dos seus melhores desempenhos de sempre, para além de Fernanda Coimbra (Titi), Henrique Viana (Padre Pinheiro), Rogério Paulo (Dr. Margarite), Júlio Cardoso (Padre Casimiro), Rita Ribeiro (Adélia), Manuel Cavaco (Rinchão), Maria Amélia Matta (Miss Mary). De destacar também no núcleo dos estudantes a presença de Paulo Oom, André Maia e João Baião, num dos seus primeiros personagens.

Fernanda Coimbra na altura desempenhava também um papel de destaque em Duarte & Companhia e tinha grande popularidade, tendo representado a Titi de forma exemplar com todos os trejeitos da personagem criada por Eça de Queiroz.

os-maias

A série brasileira “Os Maias” também se inspirou nesta obra.

No dia da estreia foram exibidos alguns comentários de Luís de Sttau Monteiro e Artur Ramos sobre esta peça, que inaugurou uma nova temporada no Teatro Maria Matos.

Apesar de na altura ter obtido grande sucesso só 25 anos mais tarde esta série foi vista novamente, desta vez em 2013, na RTP Memória, por ocasião do sétimo aniversário da morte de Artur Ramos. Nesta reposição devido à linguagem imprópria foi colocada a bola vermelha no canto superior direito.

O enredo do romance A Relíquia de Eça de Queiroz foi também aproveitado numa das tramas paralelas da série brasileira Os Maias, transmitida em 2001, na Globo e posteriormente na SIC.

Fonte: Brinca Brincando

Sobre o autor

Miguel Meira

Quando era pequeno, entre histórias da “Cinderela” e cantigas em “Playback”, quis ser como o Carlos Paião – médico e cantor. As doenças e os órgãos acabaram por sair da minha mente, mas a música de alguma forma ficou. Sou um apaixonado incondicional por música portuguesa, como também sou por tudo o que envolva espectáculo, teatro, cinema e televisão (tendo como maior interesse o Festival da Canção e da Eurovisão e os já extintos Jogos Sem Fronteiras).
Contudo, profissionalmente, os meus palcos foram outros. Licenciei-me em Ensino de História, dou aulas desta disciplina desde 2008, já trabalhei numa biblioteca e já transcrevi até um livro de posturas do século XIV. Faço parte da equipa do site “Festivais da Canção” desde 2008, e também colaboro no site “Brinca, Brincando”, sobre a temática televisiva. Porque o passado também fala, aceitei o desafio de viajar no tempo no ARDINAS.

Deixe um comentário