Crónicas Palavras e Cigarros

Quem foi, afinal, Fidel Castro?

Escrito por Rafael Pinheiro

Castro, para além de ter sido uma figura que construiu História e sobreviveu a essa própria História, acumula ainda o feito de ter sido, conforme as circunstâncias, duas coisas muito distintas: umas vezes esteve perto de ser um herói e noutras foi um ditador maldito por muitos.

Castro foi um herói quando, ao lado de Che Guevara, acabou com o regime de Batista em Cuba, que era apenas uma marioneta dos interesses norte-americanos que fazia do país o casino e o bordel dos EUA. Foi um herói quando forneceu ao seu povo um sistema público de saúde que continua a ser um dos melhores do mundo, quando levou Cuba a atingir algumas inovações científicas sem paralelo e quando tornou o seu país num dos Estados com mais elevados níveis de literacia do mundo.

Mas Castro foi um ditador desprezível quando achou que a Revolução Socialista podia ser feita em torno da figura de apenas um único homem e se achou predestinado para ocupar esse lugar. Foi um ditador com pouco respeito pela vida humana quando ordenou o fuzilamento dos seus opositores políticos apenas por divergências ideológicas e quando instituiu um regime que reprimia a liberdade de expressão e prendia jornalistas, escritores e intelectuais.

Desde 2006, o reinado assume a aparência do irmão, Raul Castro, mas a Cuba de Fidel mantém-se. Segundo os relatos, o ambiente em Havana tem alguns traços que nos podem fazer recordar parcialmente o regime descrito por Orwell em “1984”. Os cidadãos são bombardeados com propaganda e doutrinação constante e são brindados com cartazes em que Fidel lhes diz “tudo va bien”, enquanto as suas mulheres se prostituem nos hotéis em troca de um punhado de moedas. Nos três canais de televisão controlados pelo Estado, os cubanos ouvem na íntegra os discursos intermináveis e delirantes de Fidel, até ficar pouco mais do que a negação do falhanço de uma revolução que lhes prometia a libertação mas que apenas lhes trocou um ditador por outro.

Em Miami, alguns exilados do regime cubano celebram freneticamente a morte de Fidel. A maioria será constituída, provavelmente, por descendentes de grandes burgueses, expulsos por Castro, que se aliavam à ditadura sanguinária e cleptocrática de Batista, preservando o espaço necessário para poderem continuar a enriquecer com o trabalho dos trabalhadores cubanos. Mas esses, pelo menos, puderam sobreviver para contar a história e para deixar descendência, contrariamente ao que aconteceu a certos dissidentes de regimes ditatoriais apoiados pelos EUA como o de Pinochet, no Chile, que foram colocados num estádio, executados e que jazem hoje em valas comuns.

No entanto, foi também sob a autoridade de Fidel que as tropas cubanas prestaram auxílio a Agostinho Neto quando este procedeu à infame purga dentro do MPLA, em 1977, em que morreram dezenas de milhares de angolanos. Face à violência inegável do regime de Fidel, podemos questionar se o antídoto para a doença que foi Batista e o imperialismo dos EUA não foi veneno também, apenas de uma espécie menos nociva. É provável que agora, após a sua morte, lhe edifiquem uma estátua alta com ares de omnipresença como a que a que foi edificada a Che Guevara em Santa Clara, mantendo uma ideologia de “culto do chefe” que pouco tem de revolucionário, canonizando um homem que, sendo venerado por alguns membros do seu povo como uma espécie de semideus, foi apenas um homem que sangrava como todos os outros.

Nem tudo pode ser etiquetado com os rótulos de bom ou mau e existem muitas áreas cinzentas. A melhor maneira de descrever a vida de Castro é precisamente a ambiguidade de não sabermos se o havemos de rotular como herói ou como ditador deplorável. Nuns momentos, para umas pessoas, foi uma coisa e noutros foi outra. O que é preciso é recordar o bom sem esquecer o mau e também recordar o mau sem esquecer o bom. Face aos factos e à impossibilidade de criar rótulos precisos, o mais coerente é descrever a vida de Castro precisamente com esta ambiguidade, por mais sombria que a incerteza seja.

Sobre o autor

Rafael Pinheiro

Rafael Pinheiro sonha em resgatar heroicamente o Socialismo da gaveta em que Mário Soares o arrumou em 1978. Para além da leitura e da escrita, gosta de tocar guitarra nos tempos livres, optando sobretudo pelo Blues e por Jimi Hendrix.

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