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Entrevista. Moonspell, entre dois concertos especiais e um álbum em português

Os Moonspell fizeram uma breve pausa no seu percurso de sucesso para embarcarem numa curta viagem ao passado. Este ano, assinalam os 20 anos sobre o lançamento do segundo disco do grupo, Irreligious, que catapultou a banda para o sucesso nacional e internacional. Para o ano, comemoram os 25 anos de existência enquanto projeto. O ARDINAS 24 conversou com Fernando Ribeiro, vocalista da banda, para saber como vão ser celebradas estas efemérides e quais as próximas etapas dos Moonspell.

Foi na sala de ensaios do grupo que conversámos com Fernando Ribeiro, a precisamente sete dias do primeiro concerto de comemoração destas datas especiais. A 2 de dezembro, no Multiusos de Guimarães, os Moonspell vão dar um concerto muito especial: vão tocar, na íntegra e fielmente às versões de estúdio, três álbuns da sua carreira. O espetáculo repetir-se-á a 4 de fevereiro de 2017 no Campo Pequeno, em Lisboa, novamente para uma noite de muitas recordações. As demais novidades foram-nos contadas pela voz da banda – que já prepara o lançamento do seu 12.º álbum de estúdio, o primeiro em português.


ARDINAS 24: Já lá vão 20 anos desde o lançamento do álbum Irreligious, e para o ano os Moonspell comemoram também 25 anos de existência. Deste pela passagem do tempo?

Fernando Ribeiro: Dei, claro, e acho que todos os outros músicos têm uma relação muito própria com o tempo. Nós vamos vendo o nosso envelhecimento, pois tornamo-nos um bocadinho “figuras públicas” (que é uma designação um bocadinho abusiva para os Moonspell e para aquilo que fazemos) e, por isso, temos contacto com as fotografias que foram saindo na imprensa e com outros registos nossos. Por essa razão temos uma noção muito mais apurada da passagem do tempo. Mas, simultaneamente, a intensidade destes anos de vida foi tão grande que também acontece o fenómeno de, por exemplo, já terem passado 20 anos sobre o Irreligious e nós ainda termos uma memória muito viva desses tempos.

E, no entanto, o tempo passou…

Pois… Para o ano entramos já numa fase incomum para as bandas, que é o quarto de século! São 25 anos… mais de metade do nosso próprio tempo de vida… Há agora uma certa confluência curiosa entre os Moonspell na sua fase criativa, nos anos 2015 e 2016, devido ao álbum Extinct, e os Moonspell que agora pretendem cruzar as águas do seu passado. Nós não estamos à deriva, mas estamos a tentar perceber qual é o nosso espaço e a tentar encontrá-lo efetivamente. Uma vez que agora até temos mais tempo, porque trabalhámos muito para o Extinct, vamos dar mais atenção por uma fase a esta parte da banda – a parte mais retrospetiva. O tempo passa, quer nós tenhamos perceção disso ou não, e com o tempo também vem alguma responsabilidade, associada ao nosso legado. Quando começámos, talvez pensássemos ser possível estarmos a celebrar 20 ou 25 anos de vida da banda, mas não pensaríamos ser possível termos um álbum nosso tão importante ao ponto de termos de celebrar, por sugestão do público e também da editora, 20 anos desse disco. É algo que ainda causa um bocadinho de espanto.

Há 20 anos, quando lançaram esse álbum, qual era o vosso objetivo? O que tinham em mente quando colocaram o Irreligious cá fora?

Os nossos objetivos eram um bocadinho mais modestos (risos). Nós vínhamos do Wolfheart, que foi um álbum muito importante na cena underground, com raízes muito pagãs e lusitanas, e que foi um excelente arranque para os Moonspell. Mas sentíamos, enquanto músicos, que precisávamos de passar de um álbum que tinha a identidade das seis pessoas que estavam na banda para um álbum que tivesse uma identidade de banda, de conjunto. Penso que esse objetivo foi conseguido. Conseguimos criar um som muito mais homogéneo, original e focado. Mas, além disso, também queríamos não perder as oportunidades que nos tinham sido criadas pelo Wolfheart, e procurámos não repetir o mesmo disco, o que sempre foi um objetivo dos Moonspell.

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Uma renovação constante.

Sim, renovar, inovar! Na altura quisemos estar abertos às influências daquilo que ouvíamos na altura – que, por acaso, eram bastante do domínio do rock gótico, da música mais atmosférica, e também da literatura que não era portuguesa. Apesar da presença de Fernando Pessoa no nosso trabalho, procurámos inseri-lo num contexto europeu de literatura, onde também estão outros autores de relevo mais recentes e que eu associo muito à nossa cultura ocidental e europeia. Foi um álbum que teve estas confluências, e quisemos com ele provar à nossa editora e, principalmente, ao nosso produtor (que, de uma maneira um pouco dura, nos tinha ensinado a trabalhar no estúdio) que nós éramos uma banda com a qual as pessoas deviam contar. Uma banda para ficar. Nós não tínhamos aparecido para fazer aquele primeiro trabalho apenas. Foi isso que fizemos e conseguimos impor-nos por causa disso, e realmente foi um grande sucesso. Teve oito semanas no top alemão, por exemplo!

Lembras-te da recetividade que esse trabalho teve em Portugal?

Em Portugal, o Wolfheart foi recebido com um bocado de ralenti, mas o Irreligious já foi mais imediato e mereceu outra atenção por parte do público. E não é demais dizer que o Irreligious foi o álbum que nos permitiu estar mais ao lado de bandas como os Ornatos Violeta, os The Gift ou os Blind Zero (que estavam a fazer coisas com muita qualidade, numa altura em que a música portuguesa era diferente). Conseguimos inscrever este álbum nessa dimensão, algo quase inédito para as bandas de metal ou mesmo de rock portuguesas.

Como é que vocês encararam ao longo dos anos precisamente essa questão da aceitação do público português das músicas que vocês iam fazendo?

Ao criarmos a banda, posicionámo-la num universo mais underground, para dotar a cena de Metal portuguesa de um grupo deste género.

Porque era algo que fazia falta?

Nós achávamos que sim, e claro que a nossa decisão muito rápida foi: “vamos fazer uma banda”. Não é que tivéssemos um talento especial ou experiência sequer; estávamos a replicar aquilo que ouvíamos enquanto fãs. Mas, depois, o contacto com outras bandas e com outros projetos que estavam a crescer lá fora fez-nos despertar para a realidade de que o nosso apoio enquanto entusiastas deste género era bom mas não era suficiente. Não queríamos estar a receber tapes de Black Metal e estar a enviar tapes de Trash, porque estava um bocadinho desatualizado na época. E assim criámos a nossa própria banda, e tivémos essa intenção de criar as nossas próprias estruturas. Temos vindo a fazer isso ao longo dos anos, e foi o que permitiu fazer com que o nosso projeto resultasse! Era algo que nunca tinha sido feito desta maneira, pelo menos a nível da cena metaleira em Portugal.

E o impacto desse vosso segundo trabalho conduz, então, à reedição do disco que aconteceu agora…

Sim, a editora original do álbum, na qual já não estamos mas com a qual mantemos uma excelente relação, fez a reedição e convidou os Moonspell a participar neste projeto. Dissemos imediatamente que sim e participámos com gosto, até para aumentar a qualidade desta reedição. Eu escrevi as notas de rodapé, fomos aos nossos arquivos, tirámos fotografias que lá tínhamos e reunimos outro material. Simultaneamente, criámos a nossa própria editora para lançar, não só o Irreligious – versão da banda, que esgotou logo num mês e meio, como também, pela primeira vez, o Opium [primeiro single do referido álbum] em vinil. O single não tinha merecido essa honra há 20 anos, mas agora, como as pessoas começam a procurar de novo o vinil, agarrámos esta oportunidade. Sabemos que os fãs ficam satisfeitos com esta novidade.

E vêm também dois espetáculos…

Sim, temos duas datas agendadas!

E o que poderemos esperar desses concertos, que parecem ser muito especiais?

O que é mais importante para os Moonspell é a consistência dos espetáculos e a atmosfera que se vai instalar. Decidimos, por isso, respeitar mesmo a natureza dos três discos. Vamos tocá-los na íntegra, sem arranjos novos, e pela ordem em que os temas aparecem nos álbuns. Queremos manter a pureza com que fizemos as coisas, e cada “palco” (é apenas um, mas é como se fossem três) estará de acordo com o espírito dos álbuns: o Wolfheart será mais lunar, mais pagão, com o estilo dos Moonspell de 1995; o Irreligious já vai subir um bocadinho a parada visual, pois vamos apostar numa coisa mais gótica, mais trabalhada; enquanto o Extinct será mais o apocalipse, porque será o final do espetáculo e é um disco que tem esse teor estético. Como é óbvio, vamos ter uma parafernália muito grande a nível de som, luzes e fogo, mas o que queremos fazer, acima de tudo, é um concerto bastante personalizado e que faça duas coisas: que desperte as memórias adormecidas desses tempos nos fãs que contactaram nos anos 90 com os Moonspell, e também que permita que as novas gerações tenham uma imagem de como é que era e de como se reagia a estas músicas naquele tempo.

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O cartaz dos dois concertos especiais que os Moonspell darão em breve.

Esses três álbuns são muito diferentes, tal como todos aqueles que os Moonspell já lançaram… Como é que vocês se reinventam de álbum para álbum?

Acontece pelo facto de mantermos a criatividade e as opções em aberto. Nós gostamos muito de compor, o que é um desafio muito mais interessante do que tocar num concerto que é retrospetivo – o que também é um desafio grande, para ser franco. Como já sabíamos que, mal vimos a edição a ser pronta, haveria uma grande procura por concertos desta índole, que fossem recuperar os temas do Wolfheart e do Irreligious, chegámos à conclusão de que este ano e o próximo vão ser um bocado dedicados a esta recordação. Vamos celebrar. No entanto, não podemos estar completamente agarrados ao passado. Vamos continuar a compor e a finalizar o nosso próximo álbum, o primeiro trabalho que faremos em português, sobre o Terramoto de 1755.

Há data prevista para o lançamento desse trabalho?

Sairá daqui a precisamente um ano. Não temos muitas novidades para dar, pois é algo que vamos fazendo com calma, mas este é um trabalho que nos faz estar num caminho interessante, que não se torna aborrecido e consegue fugir ao passado, à herança que temos.

Vamos continuar a compor e a finalizar o nosso próximo álbum, o primeiro trabalho que faremos em português, sobre o Terramoto de 1755″


Cantar em português é um sonho antigo?

Foi uma ideia nossa. Acho que é uma escolha completamente livre, tal como foi a nossa escolha de cantar em inglês, que foi feita muito mais para facilitar a comunicação com o público; o nosso estilo é praticamente todo ele em inglês. As bandas que ouvíamos, fossem da Suécia ou da Noruega, cantavam em inglês. Apesar disso, também tivemos contacto com bandas que realizaram algumas experiências interessantes de cantar nas suas próprias línguas. E foi por aí que as coisas começaram. E como o tema que escolhemos, o Terramoto, é algo muito português e teve já várias ramificações ao longo dos anos, decidimos pegar nele para o nosso próximo álbum. Antes mesmo de fazermos qualquer experiência musical, concordámos todos que este disco teria de ser em português. Graças a isso, já descobrimos algumas coisas nos Moonspell que são diferentes – vai ser um álbum menos melodioso que o Extinct, e muito mais metaleiro e sísmico, ao mesmo tempo que tenta recrear todo o ambiente da época – o ambiente moçárabe, sacro-profano…

Algo que não choca o vosso público, habituado que está a essas deambulações estilísticas.

Sim, claro! Terá a marca dos Moonspell, mas não estará muito relacionado com os nossos discos mais recentes. Será uma coisa diferente, até pelo próprio cantar em português, que dá uma cor completamente distinta a este trabalho.

Fotos: Paulo Mendes

Sobre o autor

Gonçalo Esteves Coelho

Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto.
Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História.
Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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