Crónicas Histórias de Bolso

Lutas diárias

É possível que ainda não tenha sido a última vez que corremos para o autocarro de manhã, porque os pequenos fins do mundo acontecem sempre todos os dias. Nunca se pensa muito nisto mas chegámos ao ponto de ver com mais frequência os companheiros das lutas diárias dos transportes do que aquele Tio nosso que faz a vida toda na outra margem do rio, cujo filho – nosso primo – foi morar para o Norte em aproveitamento de uma oportunidade única naquela área académica em que se tornou especialista.

Pareceu-me que hoje foi, acima de tudo, um golpe de sorte. O motorista fechou a porta e voltou a abri-la. Respeitou o instinto, notou-se, mas depois renunciou à maldade – o que também não é de todo desprezável. Deve-se, porém, este pequeno milagre à idosa sentada nos bancos etários que te viu a correr pela rua e que avisou o motorista. Uma notificação destas em pleno autocarro é uma ordem, nenhum motorista a rejeita. De modo que toda a gente fica a admirar-te perante o teu cansaço, a ver como te comportas à procura do passe encostado a um dos postes da zona da entrada. É fácil perceber que nem todos estão solenes no fim do teu esforço porque nestas coisas de chegar a horas é cada um por si, sendo natural que naquele momento em que a idosa gritou ao motorista duas ou vinte pessoas tenham suspirado a raiva de ter de esperar mais uns segundos por ti. Mas apanhaste o autocarro e chegarás ao destino ao mesmo tempo que elas. Eis o que fica na história.

Depois de fingires que analisas algo importante no teu telemóvel moderno para dissipar os olhares que te rodeiam, reparas que há um lugar vazio ao lado da idosa que te salvou a manhã sem que saibas porém. Pensas: se está vazio mereço sentar-me. Mas com que moral o farias se ainda ninguém o fez? Preferes em lucidez partir para a parte dobrável do autocarro, o acordeão onde toda a gente vai preferindo estar, o epicentro da vida suburbana onde o mesmo ar é das mesmas pessoas. Mais uma vez partilhas o metro quadrado com o rapaz que vai para a escola a ouvir Heavy Metal pelos auscultadores encarnados e pelo homem engravatado que aguenta ler o jornal desportivo do dia ignorando o mau-estar que a precipitação do alcatrão vai provocando na estabilidade do autocarro. Em descargo de consciência, aconselho-te a pensares que não serás certamente o único a desejar que as pessoas que não pagam bilhete sejam um dia apanhadas em flagrante, que surja uma brigada de revisores a perfurar todas as portas do autocarro não dando hipótese de fuga aos indisciplinados das tarifas de bordo. Mas esta manhã não houve brigada e o semáforo do final da rua voltou a ficar encarnado no momento exacto em que o ias ultrapassar e então percebeste que o Mundo mais uma vez não iria acabar hoje. Trata-se de um veículo de ponta, com tecnologia avançada que permite que o gravador vá ditando o nome de cada paragem. Chegámos à tua. Como se diz nos túneis da cidade convém teres cuidado com o intervalo entre o cais e a plataforma, mas, como não tiveste, acabaste de colocar o pé numa poça de água da chuva pela décima vez este mês. É um bom recorde que te permite ir sonhado com a eternidade, porque nestas coisas da vida diária não convém mudar muito, ou não vá um dia chegares cedo à paragem e o autocarro, porém, nunca chegar a aparecer.

Sobre o autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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