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E agora, Europa?

Escrito por Goncalo Nuno Cabral

Depois do Brexit e da (inesperada) vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, eis que as atenção começa a virar-se para a Europa. França e Alemanha têm agora uma grande prova de fogo para evitar que a extrema-direita se aproxime do poder.

Em menos de um ano parece que estamos a inaugurar uma nova era: a do populismo. A Grã-Bretanha dá o pontapé de saída e deixa metade da Europa em choque com o resultado do referendo que disse “sim” à saída da União Europeia. Seguiu-se a América. O que parecia ser um candidato improvável e nada ameaçador acabou por se tornar o Presidente da nação mais influente e poderosa do mundo. Pois é, Donald Trump derrubou o tradicionalismo de Hillary Clinton e deixou o mundo de mãos na cabeça.

E agora? O que se segue? Ninguém sabe ao certo o que será o futuro. Uns começam a vaticinar cenários apocalípticos e outros confiam num futuro mais risonho dado que os principais protagonistas foram colocados de lado. Falamos por exemplo de Putin que está de champanhe e copo na mão a celebrar a nova América. Ou então de Jean-Claude Juncker que já disse que todo este cenário é um grande risco. Nada de novo, portanto.

O que sabemos é que vêm aí novas provas de fogo. As presidenciais francesas já no próximo ano podem ser a continuação do caminho que está a começar a ser trilhado. Segundo sondagens recentes, a extrema-direita de Marine Le Pen tem neste momento 28% das intenções de voto e pode mesmo discutir a segunda volta com Nicolas Sarkozy. Na Alemanha o cenário é o mesmo. As eleições regionais e nacionais estão aí à porta e Merkel já teve uma pesada derrota no sufrágio para a Câmara dos Deputados. O partido Alternativa para a Alemanha posicionou-se como quarta força política e pode crescer num futuro próximo.

Estamos perante uma das maiores crises identitárias. Isto porque cada vez mais poucos são aqueles que se identificam com o sistema e procuram alternativas sólidas e imediatas que lhes dêem repostas. Ora, isto é o terreno fértil para os nacionalismos e os radicalismo emergirem contra um sistema que está a ficar para trás sem qualquer hipótese de rebater este novo cenário. Até este novo paradigma, os principais líderes e responsáveis políticos decidiram fiar-se na tradição que vem sido cumprida há muitos anos e que não tem sido alterada de forma significativa. Errado! Como diz o povo, dormir à sombra da bananeira nunca dá bom resultado.

Não podemos achar que a maior crise migratória dos últimos anos não tem consequências na forma de pensar de quem vota. Na Europa, esta é A causa para o que se está a passar agora. Por mais que sejamos politicamente corretos a sermos favoráveis ao acolhimento de refugiados pela Europa fora, há efeitos e eles estão aí à vista. O radicalismo e o extremismo estão a prosperar a uma velocidade inimaginável sem que haja um acompanhamento sério e sólido deste problema.

Outro dos países que começa a merecer alguma atenção e quiçá preocupação é a Itália, um dos pesos pesados da União Europeia. O primeiro-ministro propôs um referendo para simplificar o processo legislativo e tirar poder ao Senado que tantos governos derrubou em pouco mais de 70 de História democrata. Não haveria problema nenhum com este referendo se este não fosse uma validação à governação de Matteo Renzi que confirmou a sua demissão caso as alterações não fossem aceites pelo povo italiano. Ora, Itália não está imune aos nacionalismos e o Movimento Cinco Estrelas – anti-europeu – está a ganhar força e já disputa as sondagens com os democratas de Renzi. E ninguém exclui um Italexit caso o cenário mude a favor dos nacionalistas já que estes estão dispostos a referendar a presença do país da União.

O próximo ano será o ano de todas as decisões para o futuro de muitos países e essencialmente da União Europeia. Para os mais otimistas, a vaga populista pode estancar se houver uma mudança considerável no sistema que está montado. Os mais pessimistas não descartam uma alteração significativa na Europa que todos conhecemos caso os cenários nacionalistas venham a ser uma realidade. E agora, Europa?

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Goncalo Nuno Cabral

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