Crónicas

Trump: Como vence um xenófobo

Escrito por Rafael Pinheiro

No dia 9 de Novembro, uma grande parte do mundo acordou em choque. O candidato mais improvável, um imbecil misógino, racista, sexista e com desprezíveis tendências autoritárias é o próximo Presidente da nação mais poderosa e influente do mundo. Há uma lição que podemos aprender para que, quando daqui a três anos e meio voltarmos a entrar na longa lenga-lenga das Presidenciais Norte-Americanas, não caiamos no mesmo erro que todos os cidadãos do mundo e opinion makers que acreditam que a sua argumentação tem sequer alguma importância cometeram – o de assumir que as Presidenciais nos EUA são mesmo um acto eleitoral democrático e que importa aquilo que façamos ou digamos sobre o assunto. Serão as eleições, nos EUA, mesmo uma expressão popular da democracia?

Sabia que Hillary Clinton teve mais de um milhão e meio de votos do que Donald Trump? Este é um número que, mesmo num país com a densidade populacional dos EUA, não deixa de ter uma significância importante num processo eleitoral. Na “terra da liberdade”, um candidato pode ser eleito Presidente mesmo quando a maioria do eleitorado deixa expresso que prefere o seu opositor, pois, graças à existência de uma aberração chamada “Colégio Eleitoral”, os eleitores não votam directamente nos candidatos mas sim em representantes que são eleitos membros deste órgão colegial e que, mais tarde, terão a verdadeira palavra final na nomeação do Presidente. O primeiro candidato a conseguir ganhar 270 membros a seu favor neste órgão ganha a eleição e todos os votos que são contabilizados a partir desse momento não importam para rigorosamente nada.

Outra curiosidade: sabia que desde 1945, quando Truman sucedeu a Roosevelt, nunca um Presidente oriundo do seu respectivo partido foi substituído por outro Presidente do mesmo partido? Ou seja, há mais de meio século que um presidente democrata é sempre sucedido por um republicano e um republicano por um democrata. Tendo em conta todas as décadas que já passaram desde a última vez em que se verificou uma excepção à regra, isto não lhe parece estranho? É óbvio que não temos provas concretas para chegarmos a uma conclusão fidedigna sobre o porquê de isto acontecer e só podemos ficar pela teoria da conspiração. Mas não lhe parece coincidência a mais? Quase dá a ideia de que alguém anda a decidir a eleição pelos eleitores, ainda para mais quando uma maioria expressa que vota contra um Presidente não importa para nada.

Sabia que mais de seis milhões de cidadãos dos EUA, a maioria de etnia afro-americana, estiveram legalmente proibidos de votar? Em certos Estados, quem tiver cadastro criminal, mesmo que pelo mais insignificante de todos os crimes, como o consumo de drogas leves, é legalmente privado de exercer direitos políticos. O próprio conceito de retirar a possibilidade de votar a alguém com cadastro não faz sentido, mas muitos destes cidadãos são detidos por delitos cujo impacto na sociedade é insignificante mas que, ainda assim, são criminalizados por lei.

Apesar de tudo, tendo em conta a dimensão da população norte-americana, a diferença de votos, mesmo sendo significativa num processo democrático, não foi muito grande. Para além de colocarmos a questão sobre como que pôde Trump ganhar, também devemos colocar a questão sobre como pôde Clinton perder.

É demasiado fácil e básico culpabilizarmos apenas os apoiantes de Trump pela vitória do republicano. Poderá haver sentido, no século XXI, em não vermos os intelectuais fazer uma abordagem mais profunda e instrospectiva sobre o assunto? As coisas têm uma razão de ser e não podemos culpabilizar a demagogia populista pela sua própria existência. É possível que a mentalidade que nos leva a culpabilizar uma pessoa pelos seus próprios problemas seja algo que herdámos do capitalismo, quando um indivíduo que tem algum problema, que deixa de poder servir a sociedade na sua lógica de obtenção de lucro, é punido e responsabilizado pelos seus actos ao invés de analisarmos o que é que nós, enquanto sociedade, estamos a fazer de errado. Culpabilizarmos Trump pela sua própria existência é um raciocínio de uma simplicidade que não nos vai conduzir a verdadeiras conclusões.

A verdade é que existem fortes facções da sociedade norte-americana que estão fartas do establishment, o círculo da elite burguesa constituído tanto por republicanos como por democratas que desde sempre dita as políticas do país. A capacidade de raciocínio crítico, entre muitos destes cidadãos, foi alienada por décadas de imposição da cultura neoliberal. O facto de nos EUA sempre ter existido um bipartidarismo em que ambos os partidos são de Direita resulta no facto de que as classes mais baixas e desfavorecidas têm sido sempre desprezadas e espezinhadas pelo sistema, sem ninguém que verdadeiramente representasse os seus interesses e com uma burguesia que faz política apenas para si mesma, num sistema fechado a outras alternativas políticas. A Presidência de Obama, apesar de muitos insistirem na negação deste facto, não foi excepção.

Obama é um tipo carismático e socialmente afável, mas a única coisa que joga a seu favor é exactamente isso, o carisma. Obama mostrou-nos que a existência de um Presidente afro-americano não vai impedir que milhares de afro-americanos sejam mortos nas ruas pela polícia xenófoba ou que deixe de haver formas institucionalizadas de discriminação potencializadas pela arbitrariedade promovida pelo sistema capitalista. O ObamaCare, apesar da boa propaganda que lhe foi feita, foi um fiasco, pois nunca houve o objectivo de assegurar a saúde como um direito constitucional e gratuito, como acontece nas democracias a sério, e, em 2016, continuam a existir por volta de 29 milhões de norte-americanos sem seguro de saúde. Obama mostrou-nos que um político que venha do mesmo círculo vai ser sempre uma marioneta do establishment. O único mérito do Affordable Care Act foi melhorar as acessibilidades aos Seguros de Saúde, mas as seguradoras privadas continuam a ditar quem tem ou não, com base na sua situação financeira e social, possibilidade de sobreviver.

Por outro lado, é verdade que, depois da explosão das taxas de desemprego durante a crise de 2008, a administração de Obama conseguiu aproximar os EUA do pleno emprego, mas vê-lo a custo de salários e de condições de vida cada vez inferiores, que só têm vindo a decrescer nas últimas décadas. Há uma classe trabalhadora norte-americana, com pouca educação e pouco capaz de pensamento crítico, que tem sido espezinhada pelo establishment e que está farta das figuras políticas do costume. É neste momento que, estando o eleitorado sem verdadeiras alternativas ao sistema, surge Donald Trump, que, com o seu discurso demagógico e populista, consegue convencer essa classe trabalhadora de que vai chegar ao poder e despedir todos os políticos do costume, como fazia nos seus reality shows, gritando-lhes: “you’re all fired”. Para além disso, aqueles que têm um conhecimento limitado sobre o mundo e sobre a sociedade compram rapidamente o discurso falso que arranja na imigração e na globalização bodes-expiatórios que justifiquem a sua perda de qualidade de vida e de poder de compra, a ideologia reiterada por aqueles que desconhecem raciocínios mais profundos e o funcionamento do sistema capitalista. Existe, então, uma relação entre os antagonismos raciais e as conjuncturas económicas, para além de uma boa dose de desprezo dos líderes das instituições políticas pela qualidade do sistema de educação público e pela maneira como este forma cidadãos.

O Partido Democrata, que estava verdadeiramente responsável por fazer oposição à campanha de Trump, vive isolado numa bolha, num dogma ideológico de arrogância e de pretensa superioridade, recusando-se a admitir a falência do seu establishment capitalista e que as pessoas estão fartas deste sistema. Neste cenário, não só desprezaram e sabotaram a campanha gigantesca e histórica de Sanders, o socialista que representava uma alternativa de Esquerda e humanista ao establishment, como fizeram todos os possíveis para ter Hillary Clinton como vencedora das primárias, uma das figuras políticas mais desprezadas da História recente dos EUA, que participou no processo de decisão que enviou milhares de norte-americanos para a absurda Guerra no Iraque, para além da sua promiscuidade com Wall Street, com a Goldman Sachs e com a indústria petrolífera. As elites do partido ignoraram deliberadamente, também, as sondagens que apontavam Sanders como o candidato em situação mais favorável para derrotar Trump e fizeram todos os possíveis para colocar uma candidata à presidência que representasse os seus interesses empresariais. Um das lições a tirar deste acontecimento é o de que a dialéctica do mal menor não é suficiente para impedir um desastre e que, normalmente, só é aliciante para quem, no contacto com a realidade, já esteja numa situação mais privilegiada.

A História repete-se e, quando o sistema social fracassa, as populações procuram alternativas onde elas existirem. O perigo é que quando não se apresenta uma alternativa sólida de Esquerda, a Extrema-Direita consegue, recorrendo ao recurso demagógico, capitalizar apoios. O discurso de Donald Trump está cheio de contradições e é completamente falso e errado, pois os EUA, à semelhança de todas as potências ocidentais, têm uma grandeza histórica, cultural e económica que foi apenas possível por ter sido sempre construída em cima das costas de escravos e de trabalhadores imigrantes. Como Marx escreveu: ” a nacionalidade do operário não é francesa, nem inglesa, nem alemã; é o trabalho, a escravidão livre, a traficância de si mesmo”.

O futuro Presidente dos EUA é exactamente o tipo de homens responsável pela opressão da classe trabalhadora. No entanto, aqueles que não são educados o suficiente não conseguem ter o discernimento necessário para perceber isto e são comprados pelo discurso de ódio que se aproveita e manipula os seus sentimentos de revolta. Isto explica a vitória de Trump. A maioria do seu eleitorado foi constituída por homens brancos, de classe trabalhadora, com idades superiores a 35 anos. Se tivéssemos Sanders a fazer oposição a Trump, o republicano teria sido trucidado a nível argumentativo, não havendo sequer qualquer margem para o falso discurso de apoio da classe trabalhadora nacional, pois Sanders vai ao âmago da questão, a verdadeira razão de ser de todos os males – o capitalismo. Trump jamais conseguiria, em tal conjuntura, argumentar em favor um sistema de opressão que ele próprio representa, perante um opositor que – esse sim – representaria os interesses da classe trabalhadora.

O grande xenófobo e autoritário vai, brevemente, ter acesso aos códigos das ogivas nucleares norte-americanas e ao controlo de um dos maiores aparelhos militares do mundo, não só para o exterior como para o interior, tendo em conta a força policial altamente militarizada e preparada para investir brutalmente contra a sua própria população, um aparelho de repressão que foi reforçado pela administração de Obama e que é, agora, entregue de bandeja a Trump. Para além disto, tendo em conta a hegemonia económica e cultura dos EUA no ocidente, há o risco de a vitória de Trump constituir um incentivo para todos os xenófobos e demagogos de Extrema-Direita que existem por este mundo fora, como Marine Le Pen e Erdogan. Novamente, a humanidade mostra estar numa situação frágil. Mas há, também, outros horizontes.

Trump, enquanto responsável por inúmeros e sucessivos fracassos no mundo empresarial, é rico, famoso e socialmente relevante apenas por ter herdado a fortuna e a reputação da sua família, sendo um subproduto das especificidades absurdas do sistema capitalista e da sociedade patriarcal. A verdade, então, é que o mundo nunca teve tantas razões para desprezar o capitalismo e a sociedade patriarcal como hoje. A imagem de Trump, o mero facto de um homem como este poder ser importante na nossa sociedade e chegar a Presidente, constitui uma fotografia escarrapachada de tudo aquilo que devemos desprezar no sistema vigente, e o legado da luta contra esta realidade poderá não ter impacto apenas nos EUA mas também aqui, entre nós, na Europa. Os próximos quatro anos podem ser uma época de mobilizações históricas e que podem, até, resultar em processos revolucionários. O leitor tem de se perguntar a si próprio o que é que está a fazer para lutar contra o sistema que nos levou até aqui e o que é que já fez para lutar contra a xenofobia institucionalizada, contra o sexismo, contra a opressão capitalista, contra a destruição do nosso meio-ambiente e contra homens como Donald Trump. Não sabemos o que é que pode acontecer ao mundo, mas chegou a hora de se politizar se ainda não o tiver feito, de finalmente compreender porque é que é importante lutar contra o capitalismo e o patriarcado e participar nessa luta. É o futuro da humanidade e do mundo que prezamos que pode estar em causa.

 

Sobre o Autor

Rafael Pinheiro

Rafael Pinheiro sonha em resgatar heroicamente o Socialismo da gaveta em que Mário Soares o arrumou em 1978. Para além da leitura e da escrita, gosta de tocar guitarra nos tempos livres, optando sobretudo pelo Blues e por Jimi Hendrix.

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