Crónicas Histórias de Bolso

Quase sempre não estou

Quase sempre não estou. É uma forma de estar vivo, de ser pessoa. É esta a regra no fundo: não morrer desaparecendo, ou se a língua portuguesa to deixar dizer, morrendo como se desaparecesse. Aprende-se esta conversa à porta do Bar Olson, em Copenhaga.

Instalações baptizadas pelo empreendedorismo de um compatriota que jura a pés juntos querer uma aventura profissional nos Nórdicos não estando nada em relação com os desgostos amorosos. A mesma pessoa que nos explica a hipótese de não estar não morrendo pode ser a mesma a dizer-te que aos trinta e cinco anos não é credível desejar morrer (morrer mesmo) só porque descobriste que a tua mulher intervala o inferno laboral com idas à pastelaria da rua com o colega do departamento. Tocavam uma cover do Nat King Cole, sou capaz de jurar que era ele, quando alguém iniciou um discurso sobre o perigo da emancipação feminina, que se trata de um Dossiê difícil para a Humanidade e especialmente para todos os humanos que se encontram às seis da manhã no escuro de uma rua gelada no centro de Copenhaga, cidade adormecida por defeito doce.

Estamos no pior momento para conversas, porque o regresso a casa depois do ambiente do Olson é coisa para doer para sempre. Disse-me ainda que era sortudo por não ter ninguém em Copenhaga à minha espera para sofrer com o cheiro das bebidas brancas sendo por isso, apenas por isso, que se fica tanto tempo à porta do bar enquanto o cheiro da lixivia ganha terreno no soalho do bar com as cadeiras de pernas erguidas ao contrário por cima das mesas. Havia de lembrar-me de tudo isto ao ouvir a tal versão original do Nat King Cole no rádio de casa, a roda das frequências a balançar de um lado para o outro até segurar o posto certo, e a voz norte-americana que se ouviu na cidade de Copenhaga a invadir a minha casa como se o piano em movimento estivesse no andar de baixo, na casa do meu vizinho. O meu vizinho que não bebe desde que o pai dele morreu. O meu vizinho, o mesmo que me pediu uma lembrança de Copenhaga quando me viu a partir quando estava à janela e chamou a mulher pequena para me dizer adeus como se os dois tivessem medo de que eu pudesse voltar.

Naquele dia era já manhã adulta quando sai da porta do Olson, que se fechou pelas mãos do dono sem que eu percebesse ou pudesse atrever-me a incentivos de mais uma bebida para mim e para o meu companheiro, que entretanto ausentou-se para que eu nunca mais o visse, entrando num carro ao fundo da rua cujo condutor me pareceu ser de novo o Nat King Cole, que afinal não chegou a morrer nunca.

Sobre o Autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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