Isto é claro?

O que se passa na Venezuela?

Escrito por Ana Rita Caldeira

Alta escassez de bens essenciais e medicamentos, cortes de energia, queda dos preços do petróleo – a grande fonte de receitas do país – aumento da criminalidade e dos protestos contra o Governo, semanas com dois dias de trabalho e uma inflação fora de controlo.

A Venezuela está a viver uma das piores crises económicas da história e a luta entre o Governo de Nicolás Maduro e a oposição passou para os confrontos e manifestações das ruas. Depois de ter sido suspensa a proposta de um referendo revogatório, que poderia levar à destituição de Maduro, a oposição convocou uma greve geral para esta sexta-feira e promete tirar o presidente do poder.

Mas como começou esta crise? Que implicações tem uma inflação de 475% na vida dos venezuelanos? Que medidas tem tomado o presidente? No Isto é Claro? desta semana, esclarecemos as principais dúvidas.

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 Como começou esta crise económica?

Para entender a crise económica da Venezuela é essencial avaliar as decisões políticas do Governo de Nicolás Maduro, que começaram a ser questionadas em 2014, pouco tempo depois de ter sido eleito. Mas foram as eleições legislativas de dezembro do ano passado que marcaram o início de uma crise política e o agravamento do estado da economia venezuelana. No dia 6 de Dezembro de 2015, a oposição, liderada pela coligação Mesa da Unidade Democrática (MUD), obteve maioria e roubou espaço na Assembleia Nacional aos socialistas de Maduro, pela primeira vez em 16 anos. Logo de seguida, a oposição promete tirar Maduro do poder e em março propõe a realização de um referendo revogatório do mandato do Presidente.

Antes disso, em Janeiro de 2016, já Maduro tinha declarado “estado de emergência económica”, o que lhe conferia poderes extra, como controlar o abastecimento de bens básicos ou confiscar ativos de empresas. Esta medida dava também mais poder ao exército e às autoridades policiais.  Em Março, o Supremo Tribunal aprova uma lei que limita os poderes da Assembleia Nacional e o desrespeito pela democracia junta-se ao rol de contestações da oposição.

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Nicolás foi eleito Presidente da República Bolivariana da Venezuela em abril de 2013.

Que referendo é este que Maduro teme?

A impopularidade do presidente já atingiu os 76,4% e 67,8% dos venezuelanos quer revogação do mandato de Nicolás Maduro, que termina em janeiro de 2019. Não é difícil adivinhar os resultados de um referendo revogatório. Este mecanismo, previsto na Constituição venezuelana, permite fazer uma consulta popular sobre o afastamento de Maduro do poder. Depois de ter conseguido, em Março, quase 2 mil assinaturas a pedir a realização do referendo (um número 10 vezes superior ao necessário para seguir para a segunda etapa), a oposição tem sido impedida de avançar com o referendo, quer pelo Supremo Tribunal quer pelo Conselho Nacional de Eleições.

Que medidas tomou Maduro para resolver a crise?

Para fazer frente à crise económica do país, Nicolás Maduro tem vindo a apresentar soluções que são fortemente contestadas pela oposição e por entidades internacionais. Enumeramos algumas das mais surpreendentes:

 Aumentou o preço da gasolina em 1 500%

Desvalorizou o bolívar em 300%

Diminuiu a semana de trabalho para dois dias, para poupar energia

Mudou o fuso horário, adiantando 30 minutos, para combater a crise energética

Criou o Ministério do Poder Popular para as Comunas e Agricultura Urbana e incentivou a população a cultivar produtos agrícolas e a criar animais para consumo privado 

Passou a regular os preços dos bens essenciais

Criou Comités Locais de Abastecimento e Produção, que distribuem comida aos filiados do Partido Socialista da Venezuela

Chegou a desaconselhar o uso dos secadores de cabelo às mulheres, para racionar energia

A pior economia do mundo

Dois grandes fatores contribuíram para que a Venezuela chegasse a esta situação de grande escassez de bens e inflação sem controlo. A queda dos preços do petróleo, cuja exportação representa mais de 95% das receitas do país, e a má gestão das instalações petrolíferas puseram em risco a grande fonte de receitas da economia venezuelana. Os preços dos bens essenciais começaram a ser regulados pelo Governo, o que obrigou os importadores e importar menos produtos, de modo a evitar prejuízos. As importações de alimentos caíram 50% na primeira metade de 2016, em relação ao mesmo período de 2015. Esta medida despoletou uma escassez de alimentos assustadora e a população é obrigada a esperar em filas intermináveis para conseguir comprar pequenas quantidades de leite, açúcar ou café. 

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100 bolívares equivalem a 9,15 euros.

O FMI prevê que a inflação na Venezuela atinja os 475% este ano, o que corresponde à maior inflação do mundo. A subida generalizada dos preços dos bens essenciais e a consequente diminuição do poder de compra conduz a uma desvalorização da moeda da Venezuela. A nota mais valiosa, 100 bolívares, não dá, por exemplo, para comprar um café, que custa 150 bolívares. Os valores da inflação vão subindo sem controlo e os quatro aumentos do salário mínimo que Maduro já anunciou este ano não chegam para aumentar o poder de compra dos venezuelanos. Nem para controlar os protestos e a onda de criminalidade que obriga as pessoas a ficar fechadas em casa.

Imagens: bbc.com

Sobre o Autor

Ana Rita Caldeira

Vivo e estudo em Lisboa, mas o meu coração está em Albufeira, perto da minha família, das praias, do sol, do silêncio, dos meus 6 cães e 2 gatos.
Sou fã de Gabriel García Marquez, de José Saramago, de escrever, de descobrir, de viajar, do Sporting, de jogar voleibol, de esplanadas e programas de culinária.
Como Ardina, quero conseguir produzir o que não vejo nos jornais portugueses e tornar o jornalismo um mundo menos assustador.

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