Ciência

Buracos negros com “cabelo”!

Os buracos negros eram apontados como sistemas simples descritos apenas pela sua massa e rotação. Um físico da Universidade de Aveiro (UA), Carlos Herdeiro, defende que, afinal, aos buracos negros pode crescer ‘cabelo’ e, com isso, adquirirem propriedades físicas muito distintas.

Os buracos negros são formados após o colapso gravitacional de uma estrela massiva, ou seja, uma estrela com uma massa superior a oito vezes a massa do nosso Sol. Na região do espaço do buraco negro nada, nem mesmo partículas que se movem à velocidade da luz, podem escapar.

Em 1973 o físico norte-americano John Wheeler apontou que “os buracos negros não têm cabelo”, querendo com isso dizer que, sobre os buracos negros, apenas necessitamos de saber a respetiva massa e velocidade de rotação para o conhecer totalmente.

O estudo de Carlos Herdeiro, realizado em colaboração com Nicolas Sanchis-Gual, da Universidade de Valência, e um grupo de investigadores do Max Planck Institute para a Astrofísica (Munique) e da Universidade Nacional Autónoma do México, demonstraram que as perturbações em redor de um buraco negro, podem roubar parte da energia do buraco negro e fazer crescer “cabelo” em torno deste.

A deteção das ondas gravitacionais [comprovadas este ano] torna extremamente pertinente reconsiderar este paradigma de simplicidade [de que os buracos negros são simples], que pode agora ser testado diretamente usando as ondas gravitacionais, que nos informarão sobre propriedades detetadas de buracos negros em sistemas binários ou perturbados”, aponta Carlos Herdeiro. Contudo, diz o investigador, “este paradigma é suportado em poderosos teoremas matemáticos e é, por isso, muito difícil obter modelos alternativos interessantes e verosímeis”.

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Os investigadores Nicolas Sanchis-Gual (Universidade de Valência) e Carlos Herdeiro (Universidade de Aveiro)

Foi em 2014 que Carlos Herdeiro e o investigador Eugen Radu do Departamento de Física da UA, obtiveram um resultado que surpreendeu a comunidade internacional, ao mostrar que a própria teoria da Relatividade Geral possibilita a existência de buracos negros mais gerais, em que o ‘cabelo’ é um campo de partículas, que existe em rotação sincronizada com o buraco negro.

“A rotação sincronizada cria um equilíbrio, e impede que o campo seja absorvido pelo buraco negro, ficando a flutuar eternamente em torno do horizonte de eventos, que constitui a fronteira do buraco negro”, explica o especialista em Gravitação. Num trabalho subsequente, os físicos do grupo de gravitação da UA mostraram ainda que este novo tipo de buracos negros pode ter propriedades observáveis muito diferentes do modelo convencional, nomeadamente as suas sombras.

Contudo, o investigador da UA lembra que “esta demonstração dinâmica de que o cabelo se pode formar em torno de um buraco negro ainda não é o final da história, dado que as simulações feitas agora por esta equipa usaram um modelo simplificado para modelar os buracos negros astrofísicos em rotação”. Embora o resultado seja sugestivo, a questão fundamental se este processo pode acontecer num ambiente astrofísico realista, ainda está em aberto.

Informação via Serviços de Comunicação, Imagem e Relações Públicas da Universidade de Aveiro e Imagens Google sob Licença CC

Sobre o Autor

Ana Margarida Pereira

Mulher das Ciências de diploma e aprendiz de Comunicadora de Ciência aventuro-me pelo mundo do Jornalismo - aqui no Ardinas escrevo na secção de Ciência.

Os meus traços mais peculiares, fora a personalidade, para a maioria das pessoas, é viver na Amadora, ser alérgica à canela e apesar de não ter piada nenhuma querer ser comediante.

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