Lá Fora

Embaixador de Angola: “o povo angolano não quer que o MPLA perca as eleições”

Angola voltou a constituir notícia para a comunicação social portuguesa. Primeiro, o debate entre João Soares e o Embaixador Itinerante de Angola, António Luvualu de Carvalho, sobre a situação política desta antiga província portuguesa, do qual saíram afirmações polémicas de ambos os lados. Depois, a notícia da agressão feita pela polícia angolana a oito ativistas, entre os quais Luaty Beirão. O país que Eduardo dos Santos governa há 37 anos continua a ferver.

“É altura de o deixarem ir-se embora. Deixem o senhor reformar-se e ir-se embora e ponham a Democracia a funcionar em pleno”, repetiu várias vezes João Soares, no debate transmitido pela RTP3 e moderado pela jornalista Ana Lourenço, no programa 360º. Do outro lado da mesa estava o Embaixador Itinerante de Angola, que foi respondendo a todas as acusações que o ex-Ministro da Cultura português ia fazendo, com o objetivo de deixar cair algumas “realidades empoladas” que a comunicação social portuguesa tem, segundo ele, insistido em transmitir.

Luvualu de Carvalho admitiu que Angola “não é um país perfeito” e, especificamente sobre a Democracia do país, declarou que ela “é um estado de vida que se vai consolidando em todo o mundo”. Perante as acusações que João Soares ia repetidamente fazendo sobre perseguições a seitas religiosas, ataques a posições físicas da oposição do MPLA (sendo os ataques às bases e aos membros da UNITA, o maior partido da oposição, os mais noticiados), e também sobre os ataques a cidadãos isolados, o Embaixador ia apresentando caso a caso a sua versão dos factos. Quando João Soares falou no caso do jornalista Rafael Marques, que, segundo ele, foi preso por ter escrito um artigo que incomodou o Presidente angolano, o Embaixador explicou que, na realidade, ele foi processado por um grupo de generais e que, por isso, foi levado ao banco dos réus. “O Senhor Presidente não dá ordens de prisão em Angola”, sintetizou o representante angolano.

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Ana Lourenço conduziu o debate entre o representante do Estado angolano em Portugal e uma das vozes mais críticas do regime de Eduardo dos Santos.

Ana Lourenço entrou na discussão para afirmar que “Angola não é tecnicamente uma Democracia”, uma declaração baseada nos índices de liberdade do The Economist. Luvualu de Carvalho recorreu a estudos de outras organizações, como a União Africana, para corrigir a jornalista e garantir que Angola é um estado democrático.

Mas João Soares não aceitou a resposta do Embaixador: “Não há nenhum país democrático onde alguém esteja no poder, em resultado de eleições livres e justas, durante 37 anos seguidos”, afirmou, denunciando a falta de debate nas campanhas, a falta de escrutínio dos atos eleitorais e também a falta de diversidade de órgãos de informação – além do Jornal de Angola, o folheto oficial do regime, João Soares diz que existem algumas “folhas de couve” pertencentes à oposição, com muito pouca expressão a nível de circulação.

Angola irá, no próximo ano, às urnas, um momento fundamental para o futuro do país, dado que José Eduardo dos Santos, o segundo homem há mais tempo no poder em todo o mundo (apenas atrás de Teodoro Obiang, o Presidente da Guiné Equatorial), vai deixar a Presidência em 2018. João Soares considera o ato eleitoral “uma oportunidade única” para o país e o próprio MPLA se renovarem. Já o Embaixador considera que existe diálogo suficiente dentro do partido e entre as várias forças que fazem parte dele.

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“Angola não é tecnicamente uma Democracia”, fez questão de corrigir Ana Lourenço.

Luvualu de Carvalho foi, no debate, particularmente crítico da imprensa portuguesa, que faz um “estardalhaço” com “qualquer coisa que se passe em Angola”. O Embaixador perguntou de onde vem a “paixão, às vezes mórbida” que a comunicação social nutre por este país africano, sustentando que, em Angola, não se fazem “manchetes das más notícias portuguesas”. O angolano foi ainda mais longe ao afirmar que os jornais portugueses não duravam sequer um dia em Angola por causa “da falta de profissionalismo, falta de ética e pelas acusações sem sentido que fazem”.

Quando o debate começou a subir de tom, Luvualu de Carvalho foi ainda mais frontal com João Soares: “o senhor quer que o MPLA perca as eleições, mas o povo angolano não quer”, passando a ideia de que existe um clima de harmonia no país e que os resultados das eleições são sempre “limpos e justos”. O Embaixador também informou que têm existido avanços nos setores da saúde e da educação, ainda que João Soares tenha dito que o dinheiro utilizado nos investimentos feitos em Portugal deveria ter sido usado “para fazer hospitais e escolas”, lembrando também que o próprio José Eduardo dos Santos trata os seus problemas de saúde na Europa e não nos hospitais do seu país, onde, segundo o político socialista, morrem milhares de pobres.

Declarando que “em todo o mundo existe elite”, o Embaixador explicou que a riqueza do país e de alguns cidadãos provém do mercado de capitais angolano e que a industrialização do país irá arrancar e desenrolar-se com tempo, pelo que pediu tempo a João Soares.

O Embaixador Itinerante de Angola criticou a perseguição que a imprensa portuguesa faz a Angola e aconselhou a que Portugal se preocupasse igualmente com os seus próprios problemas sociais e económicos.

O Embaixador Itinerante de Angola criticou a perseguição que a imprensa portuguesa faz a Angola e aconselhou a que Portugal se preocupasse igualmente com os seus próprios problemas sociais e económicos.

O caso dos ativistas

O processo movido pela Justiça angolana contra Luaty Beirão e os seus companheiros ativistas não ficou de fora do debate. Para o Embaixador de Angola, estes cidadãos estariam a preparar uma rebelião e, por isso, foram constituídos arguidos pelos tribunais. No entanto, Luvualu considera que não se deve fazer deste caso uma “bandeira contra Angola”.

No entanto, no dia seguinte ao do debate, Luaty Beirão e mais sete ativistas angolanos foram detidos pela polícia, agredidos e levados para parte incerta. Quando conseguiram escapar às garras das autoridades, cerca de duas horas depois, declararam que “houve tortura, houve agressões, houve muita violência”. Os ativistas tinham-se deslocado à Comarca de Viana para visitar outro ativista detido, Francisco Gomes Mapanda.

Ao Observador, Luaty Beirão explicou que foram barrados à entrada do estabelecimento prisional e que lhes foram dadas justificações divergentes: “primeiro disseram que havia uma atividade na prisão, depois disseram que havia uma infestação na sala, depois que havia um visitante importante na prisão, mas eles não nos queriam dizer quem era”, contou o ativista à referida publicação. Ao pretenderem obter mais esclarecimentos, dirigiram-se a outra zona da prisão onde, depois, foram recebidos por um grande aparato policial, composto por cerca de 30 agentes que os agrediram em plena rua e depois os levaram para longe.

Fotos: RTP

 

Sobre o Autor

Gonçalo Esteves Coelho

Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto.
Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História.
Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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