Crónicas Histórias de Bolso

Praia Campo

A mochila frouxa que nos davam para transportar a toalha e a garrafa com água congelada era quase sempre vermelha. Às vezes, uma das pontas da corda que servia para apertá-la perdia-se por dentro do pano e só as avós conseguiam recuperá-la e devolver-nos a normalidade para detrás das costas.

Eram tempos mágicos em que as noites eram fáceis de suportar, dado o cansaço. Acordar de manhã como se nunca deixássemos de estar preparados para partir para a camioneta que nos esperava sempre no mesmo sítio. Lugares marcados, os melhores, lá atrás, ficavam sempre para os maiores. Podemos dizer que a importância de cada elemento no grupo se vai medindo pelo seu lugar na camioneta na praia. Mas para os cânticos não há hierarquias tendo em conta que todos cantam, e todos pedem para que o motorista, por favor, ponha o pé no acelerador, e etc, etc. De modo que as manhãs estavam sempre reservadas para a praia, uma da Linha ou da Costa. As filas para colocar protector solar no corpo e na cara ou o momento de guardar os bonés para ir à água, onde os monitores davam as mãos para fazer a barreira intransigível – como esquecer? Depois disso, ainda a medalha de borracha que era obrigatório usar ao pescoço e que ficava com o sabor da água salgada, e que depois mordíamos aos poucos para chupar o sabor da maresia, e o momento de partir e de tirar a areia que ficava nos pés antes de regressar para a camioneta.

O nome da colónia: Praia-Campo. Tudo certo porque, de facto, de manhã íamos para a Praia e à tarde para o Campo. Percorríamos a Serafina, Monsanto e todos os parques de Lisboa onde era possível chegar depressa. Na última semana, tendencialmente no último dia, havia sempre a ida à piscina, o que implicava a nossa visita na véspera às drogarias para comprar toucas, que aleijavam com a aderência do cabelo. Mas também havia a ida ao cinema, que para muitos era a primeira do ano ou da vida, e a outros sítios, como o Oceanário ou o Planetário, esse sítio obscuro onde podíamos olhar para os astros mas onde a maioria de nós, minutos depois, adormecia aproveitando o conforto e o ambiente do espaço.

Mas chega sempre o momento em que a idade já não permite inscrições na Praia-Campo. No papel está tudo claro: dos 5 aos 16. Há uma época para tudo, aqui nunca poderia ser diferente. Custa sempre um pouco a primeira vez que vimos a camioneta partir sem nós, como uma angústia fina e suportável que nos vai dizendo que já somos homens.

Sobre o autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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