Crónicas Histórias de Bolso

O que é nacional é bom, é nosso e não brilha no recreio

Às vezes penso que o Patriotismo exacerbado deveria ser obrigatório, um imposto como os outros, preferindo tudo aquilo que é nosso a tudo aquilo que é de Espanha, da China ou da Austrália, tanto faz. Proponho ainda que o incumprimento desta regra imponha a punição mais impiedosa sempre que se trate de uma escolha que determine o topo hierárquico de qualquer actividade, função ou outra coisa qualquer, tanto faz também.

Em tempos não fazia distinção entre o Luís de Matos e o Ronaldinho Gaúcho. Minto: se calhar distinguia-os. Distinguia mesmo. Havia mais magia naquilo que o Brasileiro fazia coma bola nos pés do que nos truques do Luís de Matos com os aquários gigantes e os baralhos das cartas. Nesta luta entre mágicos desprezei o Patriotismo, declaro, mas o que interessa é o presente. Os tempos eram outros, mas as raparigas das bancadas dos campos da escola continuam a dar prioridade ao virtuoso que pega na bola e ignora os colegas, fintando todos e voltando atrás para fazer o mesmo percurso de novo, fintando todos mais uma vez, incluindo o guarda-redes, parando por fim a bola em cima da linha de golo, encostando-a para dentro com o calcanhar levezinho. Foi golo e as equipas reorganizam-se dentro de campo enquanto o craque olha para a bancada de surra para ver as palmas e o delírio.

O virtuoso do campo da escola será sempre o eterno craque. Nenhuma hipótese para a existência de uma rapariga no meio da claque do recreio que diga que o verdadeiro artista é o outro, sim, aquele, o que está sempre no meio-campo a patrulhar a fronteira, evitando golpes surpresas se o craque perder a bola quando todos esperam o golo. Hoje, as fintas, o ilusionismo constante perante os adversários, continuam a determinar os craques. De trinta em trinta metros há sempre alguém que diz que o Cristiano Ronaldo é fantástico, mas o Messi pega na bola e pronto. Pegar na bola e pronto, pronto, percorrer o campo de uma ponta à outra, mimetizando o virtuoso lá da escola. Pronto. É que isto são matérias delicadas porque os gostos não se discutem, a subjectividade é intocável, o respeitinho é por si só muito bonito e quando se trata de referência é ainda muito mais. Mas devia de existir a tal regra que exalta a Pátria e que, embora obrigando a respeitar a nação, não obriga à invenção de outras ficções para denegrir o que é nacional, e que é bom, superiorizando em paralelo o que é dos outros. 

E não me venham agora falar da vez em que preferi o Ronaldinho Gaúcho ao Luís de Matos porque a conversa agora é outra. Sábado vai tocar A Portuguesa, o nosso hino, não brinquem com coisas sérias.

Sobre o autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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