Crónicas Histórias de Bolso

A Minha Prima Vanessa

Eu e as minhas primas somos primos sem o ser. Temos a afinidade metida na genealogia porque os meus pais e os delas viviam, como se diz, quase uns ao lado dos outros, em Alfama. Algumas pessoas, claro, questionam a raiz da ligação familiar – já que não partilhamos apelido. A minha Mãe, hoje, continua a referir-se a elas como minhas primas. A tua prima Vanessa. A tua prima Carina. 

Recordo, embora sem certeza de se tratar de matéria real ou imaginária, de a minha prima Carina comprar bolos nas férias na Ericeira para trazer para o Pai. Esta é uma das poucas recordações que tenho do Zé Júlio, a quem a minha irmã tratava por Tio, embora gostasse de ter mais. Lembro-me muito melhor da porta do Beco do Loureiro, que abria ao puxar-se uma corda que percorria os andares do prédio, da casa que tinha umas escadas que davam para uma divisão que nunca visitei e do Tosco, o gato. Nesses tempos eu assistia à noite aos ensaios da Marcha de Alfama. Contas rápidas: faltavam oito anos para chegarmos a 2010.

Hoje penso em qual terá sido a reacção geral quando se soube que a minha prima Vanessa ia ser a próxima ensaiadora da Marcha de Alfama. Digo isto sem qualquer elemento do presente que me faça duvidar da confiança que terá existido há seis anos, até porque, parece-me, neste caso o destino encarregou-se de voltar a reforçar a crença daquele que nele acreditam. O passado era terrível, o Magalhães estava já cheio de troféus nas vitrinas, o impulsionador dessa galvanização parecia insubstituível. Mas Alfama, e a minha prima Vanessa, ganharam logo no primeiro ano. Creio que já disse, em raras ocasiões em que a orientação da conversa o permite, e apoiando-me de manobras metafóricas, que a minha prima Vanessa virou à direita no momento em que todos ainda viravam apenas para a esquerda. Em 2011 os nossos corações pararam. Isto é uma frase romântica, embora exacta para explicar o aparecimento de uma nova Era. A partir daqui, a história renovou-se e as coisas nunca mais foram iguais. Qualquer arte só sobrevive com estes momento de ruptura. 

Sem pretensões de narcisismo, talvez poucas pessoas se importassem de ter tão cedo a capacidade de influenciar a generalidade das ordens de trabalho. O escritor Angolano Pepetela escreveu algo parecido com isto: “é muito raro alguém ter o pote do mel ao lado e resistir a passar o dedo”. Seis anos depois a minha Prima Vanessa, ou mais propriamente o seu talento, são a principal influência para os congéneres. Como um baú aberto onde um diamante cintila mais do que todos os outros. 

Alfama voltou a ganhar este ano. Ou estou de novo engano ou as coisas foram mesmo assim: a minha avó ainda foi a tempo de ver a marcha descer a rua e bateu palmas, o Zé Júlio vai receber de novo os bolos que a minha prima Carina compra e o John Locke está a rever apontamentos sobre a actividade empírica onde a minha Prima Vanessa passará a ocupar um lugar de destaque, onde só os heróis que escalaram na vida vão cabendo.

Sobre o autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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