Crónicas Histórias de Bolso

A poesia do Elísio

Há quem faça avaliações sobre quem pede na rua. Pensa-se no grau de veracidade de cada desgraça, pode-se também duvidar da infelicidades mais óbvia. Outro dado importante: quem pede na rua depende de quem passa. Uma rua movimentada será um bom sítio.

Mas eu estava sentado. E o Elísio apareceu. Hoje, passados alguns dias, recordo que nem sequer o deixei terminar a sua apresentação. Interrompi-o. Disse que o ajudava, não queria justificações. Dei-lhe as moedas que tinha e não as aceitou em mão. Sugeriu que fosse eu a colocá-las na caixa de metal que trazia a tiracolo. O Elísio agradeceu e perguntou-me se eu gostava de futebol. De repente retirou da mala um poema dedicado ao meu clube desportivo. Quadras a falar da vitória na final da Taça de Portugal, numa ode de elogio aos jogadores e aos adeptos. No momento guardei o papel dobrado no bolso. Li o poema no dia seguinte, divertido. Pensei que aquele era o primeiro poema que lia sobre o meu clube, com o privilégio acrescido de mo ter sido oferecido pelo autor. Guardei-o com afecto no meio da estantes. 

Estou a escrever este texto e recordo-me do problema do Elísio. Sofreu um acidente de mota que o deixara incapacitado num dos braços. Na parte de trás da lata de metal onde transporta as moedas tem colada uma fotografia da moto que acabaria por marcar a sua vida. Tem ali um género de prova que actua quando alguém teima em fazer as avaliações perante quem pede. O Elísio caminha com o braço visivelmente lesionado. É também nele que fala no pequeno discurso de apresentação que certamente fará sempre que se aproxima de alguém. Penso agora também na quantidade de pessoas que o terão ignorado, assim como penso no que teria acontecido caso tivesse feito o mesmo, fingindo estar ocupado ou simulando qualquer emergência.

No final da nossa conversa disse ao Elísio que talvez um dia escrevesse sobre aquele momento. Sei agora que o Elísio não me pediu nada e que se calhar fui eu quem lhe ficou a dever algo. A poesia não tem valor.

Sobre o Autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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