Crónicas Histórias de Bolso

Allen Halloween

Talvez estivéssemos no ano de 2008 quando os desejados leitores de Mp3 foram invadidos pela sonoridade estranha de uma faixa musical que relatava os episódios de uma dia de um dread de 16 anos. A sonoplastia era sinistra, cheia de pormenores que enfeitavam o beat para além do comum. De repente os bairros da cidade conviviam com a inovação de uma história que todos tomavam como verídica e que concebia ao autor uma imagem distinta, senão obscura. Nessa altura a internet não estava tanto à mão. Era difícil encontrar informação que pudesse contribuir para a moldagem da personagem que acabava de chegar aos ouvintes do Hip-Hop português. Estou em crer que passámos por uma das principais fases especulativas do cenário musical do espaço suburbano. Chegava sempre alguém que dizia que conhecia o homem que um dia, com 16 anos, tinha vivido um dia de marginalidade para a posterioridade ou, por exemplo, que o tinha visto numa estação qualquer do metro. O projecto Mary Witch – álbum a que pertence a referida faixa “Dia de um Dread de 16 anos” -, continua a ser um dos melhores álbuns de sempre do nosso Hip-Hop. Eu, que nesse tempo tinha menos do que 16 anos, passei horas da minha vida a analisá-lo, a ouvi-lo a caminho da escola, a acreditar e a duvidar ao mesmo tempo se aquela voz falava a verdade, se passava por tudo aquilo, se realmente pertencia à vida da cidade todos aqueles enredos. Não reclamo qualquer título ou distinção por ter sido durante muito tempo o único rapaz da escola que sabia de cor o “Dia de um Dread de 16 anos”. A música tem vários minutos e eu sabia-a do começo (Pais falhados, amigos pedrados (…), até ao final (deitei-me num banco de jardim e adormeci). Por motivos de contextualização, devo ainda referir que todas as restantes musicas do Mary Witch se inclinam para o tom mais cru que qualquer reportagem pode deter. Há, inclusivamente, uma faixa que se chama “Raportagem”. Sou o primeiro defensor da ideia de que este álbum é uma das principais referências da explicação da nossa cultura metropolitana. Estávamos em 2008 quando o meu coração parou. Houve outro trabalho discográfico pelo meio até ao ano passado. 2015 trouxe “Híbrido”. Raramente perco tempo a ouvir um álbum inteiro, da primeira à última faixa. A certa altura fiquei com a séria sensação de estar a ouvir a continuidade da mesma história iniciada há anos atrás. Como se se tratasse de um filme que nos contam ao ouvido. As histórias contadas por quem realmente as vivia (hoje já não tenho dúvidas) passaram a ser contadas por quem realmente as viveu. Isto tem tudo para ser uma tese. Hoje há internet sempre à mão. Graças a ela pode ter acesso a uma entrevista do autor. Foi durante a mesma que confessou que lhe questionam sobre o facto de já não falar na marginalidade como antes. Surgiu a resposta sincera, como todas as músicas do Allen: é que agora eu já não sou bandido. E a verdade só vai sobrevivendo por causa de coisas assim.

Sobre o autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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