Crónicas Histórias de Bolso

Bolinha Vermelha

A minha professora do ensino primário media o comportamento dos alunos com as cores. Era um semáforo que graduava a postura de cada dia, tal como o próprio semáforo, atribuindo as cores: verde, amarelo, vermelho. Havia uma folha mensal para cada aluno com o número dos dias e, à frente de cada número, uma bolinha pequena que deveria ser pintada ao fim do dia.

Os alunos traziam as folhas para casa ao final do mês para os pais assinarem. Havia raridades entre nós. Colegas meus com a folha límpida, somente com uma bolinha amarela quase indecifrável e a ser engolida no meio de tanto verde. Outros – parcela onde eu me costumava inserir – tinham muitas bolinhas vermelhas: que, no meu caso, representavam a grande maioria. Mas havia muita batota neste método. Aliás, este métodos era só batota. Lembro-me de ver, pelo menos algumas vezes, que a professora pintava cada bolinha dos vários dias do mês apenas no último dia do mês. O dia em que deveríamos levar a folha para casa.

Claro que a cerimónia era feita de forma aleatória, preenchendo o espaço de cada bola olhando nos olhos do aluno. Neste dia foi verde, mas neste já foi amarelo. E depois de três amarelos seguidos possivelmente veio um dia de vermelho. É isso. Três bolinhas amarelas equivalente a uma vermelha, de seguida. Estas coisas não se explicam a uma Mãe que se magoa com o choque de tonalidades quentes. Uma folha de bolinhas vermelhas era a pior coisa que eu poderia dar à minha Mãe, que depois de me dizer que na escola é para estar atento e que brincar era em casa, assinava no fim da folha a muito custo, exigindo mais bolinhas verdes para a folha do próxima mês. Não terei calculado naquela altura que o truque para ter um folha sem vermelhos seria portar-me bem a partir da última semana, já que o esforço para conter a brincadeira durante os primeiros dias despercebia-se. O que era realmente importante era não dar nas vistas nos dias que antecediam o dia da pintura das bolinhas. Os três marcadores em cima da mesa; as folhas no movimento da sobreposição, uma a uma. As bolinhas preenchidas ao calhas. Parece que desta vez há mais bolas verdes e amarelas do que vermelhas. O aluno portou-se bem nos últimos dias do mês e isso ficou na memória da professora. Parabéns ao aluno. O aluno não seria eu.

Mais uma folha trazida para casa. A folha do comportamento era um segredo dentro da mala. Ora adiava a entrega da folha assinada à professora dizendo que me esqueci, ora dizendo à minha mãe que a professora se havia atrasado com as folhas. Uma vez o tempo apertou. A folha tinha muitas bolinhas vermelhas. Mais bolinhas vermelhas do que dias para pintar. Peguei na caneta e falsifiquei a assinatura da minha Mãe. Eis a minha estreia no crime dos fluxos comunicativos da escola. A minha Mãe descobriu a tempo a folha dentro da mala. Ralhou-me. Já não me lembro do que me terá dito, mas talvez tenha pintado mais uma bola vermelha para a professora saber que o mau comportamento era genérico.

Sobre o autor

Ricardo Gonçalves Dias

Na escola os professores tinham o costume de atribuir notas altas às minha composições, e isto, juntamente com a leitura de dois ou três livros que fizeram o favor de me agitar, foi essencial para que a escrita entrasse na minha vida.

Gosto de escrever todos os dias, e sinto-me mal quando não o faço.

Alguns textos meus foram premiados, e outros estão disponíveis todas as quartas feiras no Ardinas.

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