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Livros para ti, eBooks para mim

Um livro novo. A etiqueta do preço ainda está por tirar, porém há sempre uma grande hesitação, não vá ficar alguma parte colada. Abrir, sentir o cheiro de novo. Sim, aquele cheiro único, inconfundível e difícil de caracterizar. Um processo que se repete livro após livro, ano após ano, mas que poderá estar em risco.

A democratização e evolução da internet mudou a forma como as pessoas interagem e agem sobre a sociedade. A compra e venda de conteúdos em plataformas virtuais é hoje uma realidade garantida. É neste novo mundo online que os livros começaram a transformar-se, lentamente, em eBooks. Os eBooks são um sucesso a nível internacional, embora em Portugal o mercado online dos livros seja pouco conhecido e regulado.

Apesar da expansão dos eBooks, os livros em formato de papel continuam a existir. É uma dicotomia quase comparável com a dos jornais impressos e os digitais. Segundo Rui Magalhães, membro da editora Húmus, há públicos para ambas as versões. Mas, “após um grande entusiasmo pelo digital, parece que o livro impresso voltou a recuperar algum do espaço perdido, pois são maiores as vendas no formato em papel”, explica.

Os livros digitais permitem uma maior facilidade e rapidez de consulta, para além de que num mesmo dispositivo pode-se armazenar e organizar vários títulos. Por outro lado, os livros em papel exigem mais espaço, metodologia de organização e cuidado na preservação das folhas. Contudo, os livros digitais podem ser associados a “fatores de stress, de menor capacidade de concentração e memorização”, refere Rui Magalhães. Para além disso, ler uma obra como o Memorial do Convento, de José Saramago, em formato digital poderá contribuir para a perda da participação de outros sentidos também eles relevantes para o processo de leitura, como o tato e o olfato.

Rui Magalhães explica ainda que, de forma geral, raros são os autores que aceitam “uma proposta editorial para uma edição digital sem prévia edição em papel”, sendo, por isso, “um facto importante para reflexão” sobre este setor.

Em Portugal, ainda se vendem muitos livros

Nem mesmo a crise económica que o país atravessa tem afetado de forma significativa o número de livros vendidos – principalmente os analógicos. Para a editora Húmus, as vendas dos livros em papel variam conforme o setor em que se enquadram porque “a crise não se estende por igual nos diferentes tipos de livros”. Assim, os livros escolares, da área do turismo e do entretenimento continuam a “alimentar uma poderosa e lucrativa indústria de produção”, comenta.

Os números de venda registados dependem também do perfil de consumo dos portugueses. Em 2014, cerca de 5 887 portugueses afirmaram ter lido um livro nos últimos 12 meses. Ora, estes dados, segundo o estudo da Marktest, concluem que um em cada três portugueses tem por hábito ler livros. É também importante compreender que, do total de leitores, são as mulheres que dizem ler mais do que um livro por ano. Segundo o estudo, os jovens continuam a representar a maior fatia do total de leitores, baixando gradualmente para os indivíduos com idades superiores a 35 anos.

Um livro e um formato de leitura para cada um

O futuro poderá estar na combinação dos dois formatos de leitura. Rui Magalhães defende que o digital e o analógico irão, porventura, tornar-se em formas complementares de abordagem de uma estória. Com o tempo, cada formato, e principalmente o digital, irá aperfeiçoar-se e adequar-se às necessidades dos públicos.

Dependendo do tipo de conteúdos de cada publicação e dos seus possíveis leitores, poderá fazer sentido criar alguns conteúdos exclusivamente para o digital. Os eBooks podem ser a solução para as produções mais especializadas e que precisem de poucas tiragens, permitindo “reduzir custos e dar um novo fôlego aos livros impressos”, conclui.

Assim como há um livro para cada pessoa, também poderá haver um formato ideal para cada um. Olhar para estas duas formas de acesso aos conteúdos de forma dicotómica poderá não ser o caminho ideal. Por isso, os livros não desaparecerão das prateleiras das livrarias, das bibliotecas, das escolas, dos escritórios e das casas. Os livros, tal como os conhecemos, permanecerão iguais, com o mesmo cheiro e o mesmo dilema da etiqueta do preço. Continuarão a travar uma luta com o mundo virtual, de onde se espera que, um dia, conquistem um final feliz.

Sobre o autor

Angélica de Gouveia Dias

Vivo com o coração dividido entre a Venezuela e a Madeira. Desde jovem que tenho paixão pela comunicação, pela História, por descobrir o mundo e saber os porquês de tudo.
Sou uma sonhadora. Acredito, ainda, no jornalismo como serviço público que salvará o mundo. Acredito que terei um lugar no jornalismo em Portugal. Acredito que farei a diferença.
As pequenas estórias quotidianas, as mais simples, são as mais belas. Quero explorar e conhecer as realidades que me rodeiam, afinal nunca fui de ficar muito tempo no mesmo local.
Nos próximos tempos serei uma ardina madeirense, a estudar em Braga, mas a colaborar com Lisboa. Porque é isso que quero fazer: dar voz ao Minho por todo o país.

Sou utópica, não achas?

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