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Nagorno-Karabakh: o eterno conflito entre Arménia e Azerbaijão

Reacendeu-se, este mês, um longo conflito que mantém, há quase um século, o Azerbaijão e a Arménia, dois países vizinhos, de costas voltadas. Em causa estão os territórios do Nagorno-Karabakh, um território incluído no Azerbaijão mas que se autoproclamou como independente com o apoio dos arménios. Está longe do fim este desentendimento, que coloca, de tempos a tempos, o Cáucaso em estado de sítio.

A acusação partiu do Ministério da Defesa da Arménia: forças militares do vizinho Azerbaijão tinham atirado vários foguetes Smerch contra o território do Nagorno-Karabakh, atingindo zonas de habitação, além de terem colocado drones a sobrevoar este pedaço de terreno que está, desde 1918, no seio de uma disputa que parece não ter fim. O governo azeri, encabeçado por Ilham Aliyev, virou os dados e apontou culpas ao exército da Arménia, que terá então, segundo ele, atacado pela calada, à noite, algumas zonas residenciais do leste da região, a que está mais próxima do território do Azerbaijão. Pelo meio está o governo da autoproclamada República de Nagorno-Karabakh, que vai respondendo e abatendo drones, verdadeiras bombas voadoras prontas a explodir, na ânsia de garantir a sua afirmação enquanto Estado. Estes conflitos provocaram mais de 60 mortos nos exércitos dos dois países, além de mais de 200 feridos.

No Isto é Claro? desta semana, vamos tentar perceber as origens deste conflito, as suas manifestações ao longo do tempo, o impacto que tem tido nas relações entre os dois países e tentar perceber como poderá este caso terminar.

nagorno-karabakhOnde fica o Nagorno-Karabakh?
O Nagorno-Karabakh é uma pequena região do Cáucaso incluída legalmente no território do Azerbaijão mas que, em 1992, na sequência da queda da União Soviética, declarou, como aconteceu com outros Estados, a sua independência sob a forma de uma República, com o apoio da Arménia, país que faz fronteira com o Azerbaijão e com a Geórgia, o terceiro país do Cáucaso e que se mantém, dentro do possível, longe do conflito. Até ao século XVIII, foram os arménios que controlaram a região, instituindo laços culturais e políticos que ainda hoje não foram desfeitos. A independência do Nagorno-Karabakh (também conhecido por Alto Carabaque) não é reconhecida pela comunidade internacional, o que tem motivado um clima de tensão na região entre os apoiantes da determinação da pequena República e os que defendem que ela deve ser parte do Azerbaijão.

Como começou o conflito?
Com a queda do Império Russo, provocada pelas duas revoluções de 1917, a região do Cáucaso foi dividida em três repúblicas, as mesmas que ainda hoje lá existem: a Geórgia, a Arménia e o Azerbaijão. Entre 1918 e 1920, estes dois últimos países enfrentaram-se por diversas vezes a respeito da posse de várias regiões, entre elas o Karabakh, pois esta região havia proclamado a sua independência e formado um governo com o apoio da comunidade arménia, que não foi reconhecido na altura pelos vizinhos otomanos. Depois da I Guerra Mundial e da derrota dos turcos, foram os britânicos que ocuparam a região e facilitaram a sua apropriação pelo Azerbaijão, atiçando ainda mais as chamas. A região foi passando de um lado ao outro como se de uma bola de ténis se tratasse, até que, em 1923, os soviéticos, que já tinham controlado todo o Cáucaso, distribuíram as zonas em conflito pelo Azerbaijão e pela Arménia – e o Nagorno-Karabakh ficou na posse dos azeris, como uma província (um oblast, em russo) autónoma. Com a mão de ferro de Moscovo, as relações serenaram um pouco.

Quem são os habitantes do Nagorno-Karabakh?
Dos cerca de 150 mil habitantes da região, 95% são arménios. Os restantes 5% abrangem azeris, russsos e outras minorias étnicas. Apesar de ser, ainda hoje, uma província do Azerbaijão, fala-se a língua arménia e é a moeda do país, o Dram, que se usa também na província. Com o desmembramento da União Soviética e o levantar das restrições à liberdade de expressão, a comunidade arménia queixou-se da “azerificação” que estava a ser operada na região, na tentativa de apagar as influências da Arménia na região.

Quais os momentos mais preocupantes do conflito?
Em 1988, já na fase final da URSS, um grupo de militares do Azerbaijão marchou sobre a cidade de Askeran, deixando um rasto de destruição, de feridos e de algumas mortes. Nos anos seguintes, o confronto agravou-se entre os dois países, motivando a emigração forçada de muitos arménios e azeris, receosos de um conflito em larga escala. O poder decadente de Moscovo deu mais poder ao Azerbaijão para resolver a atenção, mas as autoridades do Nagorno-Karabakh anunciaram a sua unificação com a Arménia. Em 1991, por outro lado, promoveram um referendo que resultou na criação de uma República independente, o que conduziu de imediato a uma guerra entre a recém-proclamada República e o Azerbaijão. Para agravar a situação, o desmoronamento completo da URSS deixou estes países entregues ao seu próprio destino, o que intensificou o desejo de cada lado de vencer a guerra. Russos, ucranianos e afegãos intervieram no conflito, que provocou milhares de feridos, mortos e refugiados. O cessar-fogo foi assinado em 1994, mas um tratado de paz ficou por assinar, o que significa que os dois países continuam em guerra, como se viu pelos reacendimentos que vão acontecendo quase todos os anos, provocando mortes atrás de mortes. O Grupo de Minsk (que inclui os Estados Unidos, a França e a Rússia) têm mediado as discussões de paz.

we are our mountains

O monumento We Are Our Mountains está para o Nagorno-Karabakh como a Torre de Belém está para Portugal.

Que relações existem entre a Arménia e o Azerbaijão?
Verdadeiramente, nenhumas. Não existe qualquer relação diplomática entre os dois países. Cidadãos arménios não podem entrar no Azerbaijão, o mesmo acontecendo com azeris que queiram entrar na Arménia. Em 2015, quando o Azerbaijão era o único candidato a organizar os primeiros Jogos Europeus, a Arménia recusou participar na votação que legitimou o direito desse país de receber a competição. Em 2009, durante o Festival Eurovisão da Canção, realizado em Moscovo, monumentos do Nagorno-Karabakh foram incluídos no vídeo que antecedeu a prestação das representantes arménias, sugerindo que se tratava de património do território da Arménia. Nessa mesma edição, a polícia do Azerbaijão interrogou os cidadãos do país que votaram na canção da Arménia, acusados de serem uma potencial ameaça à segurança do país.

Qual o envolvimento da comunidade internacional?
Quando o conflito reacendeu este mês, Vladimir Putin, o Presidente da Rússia, pediu de imediato o cessar do conflito e o respeito pelo cessar-fogo de 1994. Os russos têm uma base militar na Arménia, o que os aproxima mais deste país. Por outro lado, o governo turco, que mantém uma íntima relação política e cultural com o Azerbaijão há várias décadas, parece estar a alimentar a disputa na região e a violência étnica, de modo a defender os seus próprios interesses e os do seu país-irmão, o Azerbaijão. O governo russo já deu mesmo a entender que o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, está a apoiar o terrorismo, não apenas no Cáucaso como também no próprio Médio Oriente.

Fotos: AzerNews, Tumblr

Sobre o autor

Gonçalo Esteves Coelho

Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto.
Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História.
Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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