Isto é claro?

Quem são e o que querem os “soldados do califado”?

Escrito por Ana Rita Caldeira

Mais um dia a acrescentar à longa lista de atentados terroristas, que nos últimos anos têm vindo a acontecer com mais frequência, e em locais que outrora não sentiam os efeitos das forças do terrorismo islâmico. Hoje foi Bruxelas, o coração da Europa, a perder 34 vidas e a viver um dia de terror, que atormentará muitos belgas nos próximos dias, assim como outros cidadãos da comunidade europeia. Depois dos atentados de Paris, a apenas quatro meses de distância da atualidade, o clima de terror adensa-se e os valores de segurança apregoados pelos líderes europeus estremecem na mesma medida em que se põe em causa a liberdade individual e se repensa a vigilância dos cidadãos.

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Os presumíveis autores dos atentados no aeroporto de Bruxelas. Os dois da esquerda eram bombistas suicidas e o terceiro continua a monte. (Foto: La Dernière Heure)

O terror que abala o vigor europeu tem um nome: Estado Islâmico. Mas, infelizmente, tem vários rostos e demasiados apoiantes. Hoje, no “Isto é Claro?”, viajamos até às origens deste grupo de extremistas islâmicos e tentamos decifrar os seus objetivos, que vão dizimando populações a uma escala ainda mais elevada em países do Médio Oriente. Tentamos perceber o que nos trouxe até aqui, a uma altura em que o ocidente já não pode dizer que esta a salvo de ataques desta natureza.

Como surgiu o auto-proclamado Estado Islâmico?

O grupo nasceu e desenvolveu-se no seio de conflitos. Tudo começou em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque e após de morte de Saddam Hussein, quando uma minoria que juntava organizações terroristas sunitas e membros da Al Qaeda Iraquiana tentava ganhar terreno num país instável e sem forças de poder definidas. Outros grupos insurgentes se foram juntando, e foi na Guerra Civil da Síria, que teve início em 2011, que o Estado Islâmico começou a ganhar forma. Ganhou também um líder, Abu Bakr al-Baghdadi, que se auto-proclamou califa no dia 29 de junho de 2014. Foi a partir deste anúncio que milhares de jihadistas, vindos de várias países do Norte de África e do Médio Oriente, e também de alguns países da Europa, se juntaram à luta pela construção de um califado.

Que territórios dominam e a que países pretendem chegar?

Neste momento o auto-proclamado Estado Islâmico (EI) ocupa uma parte considerável do Iraque e da Síria. A cidade de Raqqa, na Síria, funciona como capital das operações do grupo de extremistas islâmicos, que se têm vindo a multiplicar de uma forma assustadora. As suas investidas territoriais têm sido interrompidas pela resistência dos curdos, que habitam a zona norte da região, e também pelos ataques aéreos por parte de países ocidentais. Para além de dominar estes territórios, dos quais pouco se sabe neste momento, o grupo de extremistas islâmicos tem grande influência em várias comunidades islâmicas do Mundo. Em partes da Nigéria, do Iémen, da Líbia e do Afeganistão, grupos de islâmicos já juraram fidelidade ao califado.

Os objetivos do grupo em termos de apropriação de território chegam a Portugal e compreendem grande parte da África, do Médio Oriente e da Ásia, incluindo também alguns países europeus, como Portugal e Espanha. Um mapa difundido em 2014 nas redes sociais por membros do grupo mostra-nos os objetivos territoriais ambiciosos do EI.

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Como se financiam?

O auto-proclamado Estado Islâmico, que nunca foi reconhecido internacionalmente como Estado, subsiste fundamentalmente da exploração que faz das dezenas de poços petrolíferos que controla. Outras atividades criminosas, como sequestros, que envolvem resgates milionários, roubos de bancos e contrabando de carros e armas ajudam a compor aquilo que constitui o financiamento do grupo de terroristas. Contra quem não segue os valores do Corão ou a vontade dos extremistas do Estado Islâmico o grupo utiliza métodos brutais que envolvem decapitações, execuções e várias formas de tortura. Para atingir instâncias mais gerais, países e ideais a que se opõem, os extremistas do Estado Islâmico têm vindo a recorrer a ataques bombistas e execuções em massa, agora também em países do ocidente.

Quais foram os principais atentados do EI até agora?

O último, antes do que hoje vitimou 35 pessoas, está bem fresco nas nossas memórias. Foi em Paris que no dia 13 de novembro morreram 129 pessoas e 300 ficaram feridas, na sequência de vários ataques, dos quais o do Bataclan foi o mais mortífero. Um mês antes, no dia 31 de outubro, o auto-proclamado Estado Islâmico reivindicava também o ataque a um avião russo, com 224 pessoas a bordo, que caiu na península do Sinai, no Egipto. No mesmo mês, no dia 10, um ataque suicida na capital turca fazia 102 mortos e mais de 500 feridos. Em junho do mesmo ano chegavam-nos notícias de vários atentados e mais números devastadores: 27 mortes numa Mesquita do Kuwait, onde cerca de dois mil de xiitas rezavam; 38 vítimas mortais num hotel em Sousse, na Tunísia; um cidadão francês, proveniente do norte de África, planeava provocar uma explosão numa fábrica de gases industriais, depois de ter decapitado o patrão. Tudo no mesmo dia: 26 de junho. Foi em janeiro que nos foi apresentada diretamente a ameaça terrorista, que pela primeira vez entrava pelas portas da Europa e atingia mais concretamente os valores da liberdade de expressão. Dos ataques ao Jornal Charlie Hebdo resultou a morte de 12 pessoas.

Mais um atentado se junta hoje à lista negra: no dia 22 de março de 2015, três explosões em Bruxelas, numa estação de metro e no aeroporto, causaram mais de 30 mortos e feriram centenas, quando o mundo ainda chorava as vítimas dos atentados de Paris.

Sobre o autor

Ana Rita Caldeira

Vivo e estudo em Lisboa, mas o meu coração está em Albufeira, perto da minha família, das praias, do sol, do silêncio, dos meus 6 cães e 2 gatos.
Sou fã de Gabriel García Marquez, de José Saramago, de escrever, de descobrir, de viajar, do Sporting, de jogar voleibol, de esplanadas e programas de culinária.
Como Ardina, quero conseguir produzir o que não vejo nos jornais portugueses e tornar o jornalismo um mundo menos assustador.

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