Reportagens Sociedade

“Eu sou um Estado Islâmico”

Escrito por Tomás Gomes

Primeiro Duarte, depois Rashid. Na internet, também AlAndalus. Este é um muçulmano diferente que se predispôs a contar ao ARDINAS a sua vida. De como passou de menino de famílias de bem, católicas, a muçulmano. E os tabus? Tudo aquilo de que se fala, com especial enfoque para o hip-hop, uma das suas grandes paixões. Esta é a história de Rashid, um muçulmano que rejeita hadices extremistas, que se rege apenas pelo Alcorão e por si mesmo.

Atrás da Basílica da Estrela, onde as ruas paralelas e perpendiculares à Avenida Infante Santo se sobrepõem, vive Duarte. Outrora só Duarte, anos mais tarde Rashid. Na internet acrescenta, ainda, AlAndalus, para que seja mais fácil encontrar outros muçulmanos. Vive com a avó na cave de uma casa pombalina. Trata da senhora, que, agora com Alzheimer, entra em pânico com todas as notícias sobre o Islão; foi com ela que aprendeu a arte do restauro, da pintura e da carpintaria, que hoje é o ofício de Duarte Rashid.


Duarte

Duarte era um menino como tantos outros. É baptizado, tem a primeira comunhão feita, cresceu e foi educado no seio de uma família católica e estudou num colégio elitista da Estrela, também ligado à religião católica. Um cenário que em nada fazia prever a transformação que viria a acontecer na vida de Duarte.

Quando era mais novo, Duarte passava muito tempo ao colo do seu avô a ouvir as histórias das suas viagens. E quantas histórias não eram sobre a Arábia Saudita. O seu avô passava-lhe os costumes, contava-lhe histórias e dava-lhe a conhecer a música árabe. Nesta altura, este era um mundo completamente exótico para os portugueses; o Islão e o terrorismo não eram duas palavras indissociáveis como são hoje. Durante os seus restantes anos, o avô de Duarte continuou a viajar e a fazer negócios pelo Médio Oriente e voltava sempre com histórias para alimentar a paixão do neto pela cultura árabe. Uma paixão que, subtilmente, começou a surgir.

Talvez tenham sido as histórias do seu avô que lhe abriram os horizontes. Um dia, Duarte chegou à escola e teve uma enorme surpresa. Dois meninos de países diferentes viriam a entrar na sua turma, um de Israel e outro que tinha fugido com a família da Guerra do Líbano. Duarte conta-nos que sempre houve discriminação. Enquanto o pequeno jovem de Israel recebia toda a atenção dos professores e começava a integrar-se nas brincadeiras do recreio, o jovem do Líbano vivia um pouco mais esquecido. Duarte sempre achou tal situação muito injusta; custava-lhe ver um menino sozinho, sem ter ninguém com quem brincar. Começou naquele dia uma bela amizade, que não durou muito tempo. Os pais nunca puseram reservas à amizade com aquele menino, mas outras pessoas metiam-no de parte muitas vezes. Tudo acabou por culminar quando Duarte e o seu amigo decidiram ir para os escuteiros. Ora, Duarte entrou; o seu amigo não. Na altura ficou muito revoltado, ficou sem perceber porque é que não podia ir para as actividades de montanha e acampar sem o seu melhor amigo. Não percebia. Tinha uma religião diferente. E daí?

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Duarte e o seu avô. Foto: Bruno Fragata.

A situação acabou por passar como tudo passa na infância, com o tempo. Os dois amigos acabaram por ficar distantes um do outro sem perceberem bem porquê. Mas este tinha sido um contacto que marcaria para sempre Duarte. Foi o seu primeiro contacto com um muçulmano, ainda que o seu amigo fosse apenas uma criança e não tivesse as práticas vincadas e ritualizadas de um adulto.


11 de Setembro

Dia 11 de Setembro de 2001: dois aviões embateram contra as Torres Gémeas, nos Estados Unidos da América. “Foi quando aconteceu o 11 de Setembro, quando eu vi as torres a cair, que eu vi que aquela história não era verdadeira. Que aquilo não era verdadeiro, que não era possível, que havia ali muito por explicar”. Em resposta a isto, Duarte decidiu comprar um livro acerca do fundamentalismo islâmico. “Foi aí que realmente começou a minha história”. Não se identificou de forma nenhuma com o que ali lia, e percebia que, pelo que o avô lhe contara e pelo pouco que ia pesquisando da história sempre que se falava em cultura árabe, aquilo ali era uma visão radical fruto de uma deturpação na interpretação do Alcorão.

Ele nunca tinha sido muito católico, era-o quase por obrigação; pela família, pela escola e pelos escuteiros. Na verdade, confessa-nos que “pela experiência com o catolicismo perdi o gosto pela religião. Pensava que todas as religiões eram iguais e que funcionavam todas num estilo de hierarquia e sacerdócio, muito dependentes da opinião do padre”. Mas após este livro, e com o começo de uma vida mais urbana, onde conheceu pessoas de diferentes línguas, culturas e nacionalidades, começou a querer e a investigar mais sobre o Islão. Era muito diferente do catolicismo. Pesquisou, pesquisou e pesquisou. Descobriu Marrocos e foi a euforia. Ele tinha de ir a Marrocos, ele tinha de ver o dia-a-dia de um muçulmano. Nem dito nem feito. Juntaram-se seis amigos e foram. Obviamente não iam para conhecer a religião. “Uns iam para a noite, outros para a praia, uns queriam ir ver onde estavam as miúdas. Seis amigos aos 18 anos… não há muita cultura nem religião, né?”. Cada um tinha a sua intenção. Foram 15 dias em Marrocos, e Duarte confessa: “foi muito sumo para muito pouco tempo”. As imagens de Marrocos haveriam de lhe ficar na cabeça todos os dias da sua vida. Na altura estava a tirar o curso técnico-profissional de Recuperação do Património. Juntou o estudo da arte ao que viu. Estava encantado. Só pensava que teria de regressar, só pensava no tanto que teria para estudar. Queria conhecer o mundo.

Quando terminou o curso foi para a Escócia. Os tempos difíceis aproximavam-se de Portugal, e Duarte utilizava qualquer argumento para poder sair de cá e conhecer o mundo. Lá trabalhou num hospital e num talho. Apesar de a comunidade muçulmana não ser muito representativa na Escócia, o facto de este país integrar o Reino Unido permite que os seus habitantes tenham acesso a vários canais muçulmanos. Canais sobre o Alcorão, canais com debates inter e intra religiosos… Duarte via tudo, também para ouvir e melhorar o seu inglês. À medida que aprendia mais, com mais dúvidas ficava. Umas vezes sentia que se identificava com os valores do Islão, outras vezes os tabus ligados à música e às mulheres falavam mais alto.

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Foto: Marco Nunes.

A ideia da conversão começava a ganhar cada vez mais sentido. A cultura apaixonava-o, e, à medida que ia aprendendo mais sobre o Alcorão, ia percebendo que os valores base eram iguais àqueles com que tinha sido educado. Mas precisava de estudar mais, de ter a certeza de que era aquilo. Não queria testemunhar em vão. Sentiu que precisava de dar mais à comunidade. Da Escócia foi para o Brasil trabalhar com uma comunidade das favelas. Lá teve a oportunidade de aplicar um dos seus principais gostos, o hip-hop, para brincar com as crianças e ensiná-las. Em Ceará (Fortaleza) deparou-se com as visões mais horríveis: casos de crack, violência, crianças na rua. Duarte mergulhou naquele mundo, sentia que ali contribuía para melhorá-lo. Acabou por conhecer aí uma mulher brasileira e casou-se. A cultura unia-os, mas os objectivos afastavam-nos. Ela queria churrascos, beber e sair à noite. Duarte queria cada vez mais abdicar disso tudo, deixar a vida desregrada e passar a viver de acordo com o Islão. Duarte conta-nos que não foi fácil, que ela por vezes apoiava-o e outras vezes não; que parecia que, para ela, aquilo era apenas uma ideia do momento. Um dia, Duarte decidiu ir dar uma volta pelas favelas. Ao caminhar deparou-se com um edifício velho com uma placa a dizer “Centro Comunitário Islâmico”. “Sorri e disse para mim: é agora”. Entrou e lá dentro deparou-se com um jovem muçulmano recentemente convertido. Falou um pouco com ele e perguntou-lhe se se poderia ali converter. “Testemunho que não existe outra divindade na terra além de Deus. Testemunho também que Maomé é seu profeta.”. E esse foi o dia que marcou o seu caminho. O álcool, os churrascos, a sua mulher. Tudo ficaria para trás, a visão da vida tornara-se demasiado diferente, tão diferente que se tornou insustentável.

Esteve um ano e oito meses no Brasil. Assim que regressou a Portugal, a primeira coisa que fez foi ir à Mesquita Central de Lisboa. Lá falou com o imã. O seu processo de conversão no Brasil tinha sido correcto mas, devido à falta de dinheiro de centros comunitários islâmicos e à falta de centralização no sistema burocrático para com as mesquitas a nível internacional, o processo teve de ser repetido. Sem hesitar, Duarte voltou a testemunhar. Tratou de tudo e algo mudou. Decidiu adoptar um nome islâmico. Não que seja obrigatório, mas sentia que o poderia identificar e aproximar mais da comunidade muçulmana de Lisboa. Rashid passou a ser o seu nome.

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O Alcorão. Foto: Bruno Fragata.


Rashid

é aquele que orienta as outras pessoas, é o caminho correcto; é um líder independente; sabe dizer o que está certo e o que está errado.


Para a família não foi fácil. Sabia-se da paixão que o seu avô tinha despoletado em Duarte, mas, daí até se terem despedido de Duarte e recebido Rashid em sua casa, vai uma longa distância. Isto passou-se há seis anos. Há seis anos o terrorismo já estava ligado ao Islão. Já era uma religião olhada com desconfiança. Rashid conta que a sua família não teve de fazer nada. No fim de contas, ele é que mudou, ele é que teve de se adaptar. “Mas demorou. Demorou muitos anos para explicar as coisas. Ainda hoje quando há problemas que envolvam muçulmanos é logo: «viste o que aconteceu ali?»”

Entretanto, a família de Rashid haveria de crescer. Quando se começou a integrar na comunidade islâmica da zona de Lisboa, conheceu a mulher com a qual viria a casar, desta vez pelo Islão. Zohra (nome fictício) também é portuguesa e converteu-se quando esteve na Suíça. Cá não usa nem burka, nem hijab. Nada que lhe tape o corpo. No entanto, Rashid confessa-nos que esta é muito mais conservadora do que ele, que vive muito mais de acordo com o que se diz ser necessário para não viver em pecado. Regras essas que Rashid adora discutir com ela e descortinar, regras que se dizem obrigatórias mas que, quando se lê o Alcorão, se vê que não têm fundamento na palavra de Deus, mas sim em hadices, narrativas à parte do Alcorão. Rashid diz que se baseiam demasiado em narrativas escritas por outras pessoas que não Maomé e baseadas num passa-palavra que pode tê-las desvirtuado e alterado o sentido inicial. Por isso, ele procura basear a sua fé exclusivamente no Alcorão. Em alguns casos, complementa o Alcorão com hadices, mas apenas as que considera lógicas e aquelas que sente que o podem enriquecer enquanto muçulmano, pessoa e chefe de família. “Esquecem-se as melhores narrativas e falam naquelas que desvirtuam o verdadeiro sentido do Islão e que apelam à violência”.

Com a sua mulher teve uma filha, a pequena Maria. O casamento acabou por não resultar. Durou três anos. Rashid confessa que tudo fizeram para manter o matrimónio mas que, se não dá, não dá. “Enquanto na religião católica existe o namoro e as pessoas vão sair à noite e acabam juntas ali, naquela noite, e a seguir já é outra, nós no Islão temos uma forma diferente de ver as coisas. A relação entre um homem e uma mulher deve ser dentro de um casamento, e um casamento não é mais do que os dois comprometerem-se de que serão fiéis um ao outro e que estão juntos. E aquilo é para andar para a frente. Não é aquela noite ou aquele momento. Claro que pode não andar para a frente, mas naquele momento é para ser sério e para tentar que aquilo dê certo. E essa é a grande diferença.” Vivem agora unidos pelo Islão, cada um confia no outro como pai e mãe. Maria fica com Zora durante a semana e, ao fim de semana, vai para casa “destruir” a oficina do pai. Com o nascimento da filha surgiu outra necessidade para Rashid. Já tinha parado dois anos da sua vida, quando regressou do Brasil, para estudar e dedicar-se ao Islão. Mas agora tinha de ir mais além, tinha de ver como poderia aplicar o Alcorão à sua família. Apesar disso, Rashid diz que a sua filha terá liberdade religiosa. A única coisa que lhe impõe é que respeite os outros, porque se não nos damos ao respeito não podemos pedir para sermos respeitados. Ela não tem nome islâmico, não foi baptizada, nem faz orações, embora já pareça ter uma afinidade pelo Islão; é normal as crianças repetirem o movimento dos adultos. Quando o seu pai se ajoelha sobre o tapete e reza, a sua pequena costuma imitar o movimento. Rashid acha que ela sente paz.

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Os tapetes onde se fazem as rezas. Foto: Bruno Fragata.

A sua família ganhou duas mulheres. Não é por se ter divorciado que Rashid deixa de reconhecer Zora como sendo da sua família. Aproveita a deixa para desmistificar a ideia de que o Islão é uma religião machista: “Eu de patriarca não tenho nada. Sou eu quem lava a louça, a roupa, varro, limpo e meto a minha filha a dormir. As mulheres da minha casa católica fazem menos coisas do que eu. Os homens são obrigados a ajudar em casa. O nosso profeta, pelos exemplos extra-corânicos, arranjava as sandálias, cosia as roupas… Portanto, não acho que seja uma religião machista. Acho que é uma religião que dá direitos ao homem e à mulher.”

Sobre a poligamia, tantas vezes ligada ao Islão, Rashid diz: “o Alcorão é simples: se não conseguires ser igual no trato e na atenção dada a todas as mulheres casa-te apenas com uma. Para mim isto define o Islão como uma religião monogâmica, porque ninguém consegue ser igual no trato a duas mulheres. É impossível”.

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Foto: Bruno Fragata.


Duarte Rashid AlAndalus

Com a vida feita, com uma ideia de Islão assente, e longe de conflitos entre xiitas ou sunitas. Como se converteu, ele acaba por abraçar estas duas facções. Estuda os documentos e as interpretações do Alcorão tanto de xiitas como de sunitas. Tenta retirar o melhor de cada uma delas. Como não nasceu nem cresceu no Médio Oriente, não sofre com as guerras entre sunis e xiias pelos territórios. Acaba por ser um muçulmano de uma facção própria, acaba por ser um “Estado Islâmico independente”.

Vê Marrocos como um exemplo do Islão, daquilo em que ele acreditava. Não era por já ter família e por a sua vida ter dado uma volta enorme que Rashid se tinha esquecido daquelas duas semanas em Marrocos. Dois meses de 2014 foram passados em Marrocos. Ao contrário do que se poderia esperar, por causa dos acontecimentos recentes, lá sentia-se seguro. “Lá eles sabem ver quem é terrorista ou não. Não há a liberdade que há na Europa”. Ao fim de três dias estava na esquadra. “O controlo lá é apertadíssimo. Queriam saber porque é que me tinha convertido, o que estava ali a fazer. Tudo.” Rashid explicou que estava ali para crescer enquanto muçulmano. Ao fim de algumas horas foi libertado. Foram dois meses incríveis, diz ele. Andava sempre de jalaba. “Em Roma sê romano”, acrescenta. Conta-nos que em Portugal uma jalaba não é mal vista num estrangeiro ou num turista, mas que num português é de desconfiar. Ele é que mudou, ele é que teve de se adaptar. Trata-se de uma questão de cultura. Mas em Marrocos podia usar jalaba. Sentia-se bem com ela vestida. Confessa que quando regressou a Portugal se sentia nu, nos primeiros dias. Lá ouviu histórias do antigo AlAndalus. Aprendeu histórias paralelas às lendas que nós ouvimos para dar razão ao nome de algumas terras; ouviu histórias de fundamentalistas que se apaziguaram depois de chegar ao AlAndalus. Descreve a Península Ibérica como um local propício à paz. “Vivo para o renascimento do AlAndalus”, e, antes que esta frase leve a más interpretações, esclarece o que quer dizer: “Quero redescobrir a cultura árabe em Portugal. Os árabes estiveram cá quase 700 anos, e isso cá resume-se a poucas páginas dos manuais de História”. Relembra a etimologia das palavras e da influência Berbere no norte de Portugal. Marrocos é uma experiência que o marca, desta vez ainda mais. Confessa que o seu objectivo é juntar dinheiro e ir para lá viver. Por agora não dá, especialmente com a sua filha tão nova. Quando se preparava para voltar, deparou-se com um problema: tinha comprado demasiados Alcorões, demasiados tapetes de oração, demasiadas jalabas… E agora? Rashid não teve rodeios: ofereceu toda a roupa, excepto a que tinha no corpo, a uma instituição de Marrocos e trouxe tudo o que podia.


Duarte sobre Portugal

“Portugal talvez seja o país da Europa em que a comunidade islâmica vive mais à vontade. Relativamente bem integrada. Nós é que fazemos o esforço para nos integrarmos.” Cá sente-se em paz, é respeitado e respeita os outros. Aliás, se há pessoas de quem ouve bocas é que dos que lhe são mais próximos. Cada vez que acontece alguma coisa já sabe que vai ouvir a boca. É por algumas destas situações que tanta vez invoca a antiga AlAndalus. Gostava de viver o período de prosperidade que outrora aqui se viveu. “Sei que Portugal antes de ser Portugal tinha mais cultura, tinha mais sabedoria, as religiões davam-se melhor umas com as outras. Criou-se um movimento que floresceu em torno de todas as religiões e que criou uma cultura muito rica, que nunca mais se repetiu na história da civilização. E é essa cultura que temos de ajudar a renascer.”

O que falta em Portugal é informação, diz Rashid, informação que não as notícias que vêm no contexto de guerra ou de algum atentado. Essas notícias acabam por vir e ser dadas com um filtro vinculado. O filtro da guerra, do conflito e do perigo. “Eu sei que o Goucha rende imenso dinheiro, mas, se em em vez disso meterem um bocadinho do Islão, um bocadinho de cultura, um bocadinho da História do país (a verdadeira), as pessoas vão estar mais informadas, as pessoas vão saber mais”, sugere.

Em Portugal, a cultura árabe, a praticada na Arábia Saudita, que é a mais radical, por exemplo, é confundida com a religião muçulmana. Há que distanciar as coisas. Rashid esclarece que estas diferentes facções do Islão advêm, não só de uma diferente interpretação do Alcorão, mas sobretudo de um problema de tradução do Alcorão, logo no início. “As traduções e interpretações são feitas com vocabulário bíblico. Por exemplo, Adão é no vocabulário biblico o primeiro homem da terra. Para os muçulmanos também, mas, se formos a um dicionário árabe ver a palavra Adão, quer dizer muitas outras coisas. Quer dizer uma camada de terra, quer dizer uma camada de pele, uma renovação de espécie, colheita, espécie humana. Tem vários significados. Há uma narrativa que diz que o conhecimento é mais valioso do que as orações – «uma hora de busca de conhecimento por dia vale mais do que 40 anos de orações». E é isto que eu procuro fazer, conhecer o antigo Islão e a antiga AlAndalus”.

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Foto: Marco Nunes.


Rashid sobre o Estado Islâmico

“O entre aspas, parêntesis, auto proclamado Estado Islâmico não usa o Islão. Eles não praticam o Alcorão. O que eles cultivam é o culto das armas, destruir tudo. Para eles são todos infiéis. Porque é que nós muçulmanos moderados não nos unimos todos para combater isto? Se eu for agora pegar numa arma, também vou ser taxado como fundamentalista e terrorista. Tentamos ir pela via do diálogo. Demora mais, dói mais, custa mais. Mas é a única forma de as verdades chegarem”. Para Rashid, o EI é totalmente ilegal. Devia ter havido uma eleição para califa, e não houve. Devia ter havido um território reclamado, e não houve. Eles dizem andar a conquistar território em nome do Islão, mas eles não o representam. Apesar de considerar o diálogo importante, o jovem lisboeta não esquece que também é importante combatê-los, mas para ele nem todos têm legitimidade para intervir na Síria. “A intervenção na Síria só devia ter sido feita pela Rússia. Foi o único país que foi chamado a intervir na Síria pelo próprio governo do Assad”.

Tão ou mais importante do que combater o Estado Islâmico é combater os focos de fundamentalismo e de recruta. Rashid diz que eles se situam na Turquia. E que isto é culpa da Europa, que criou um geração de guetos. Famílias de terceira e quarta geração de emigrantes, frustradas por tudo o que não alcançaram, aliciados pelo dinheiro e pelo heroísmo de poder vir a ser um mártire do Islão. A Europa tem de rever a sua democracia, tem de rever os seus valores e encontrar um meio-termo. Rashid diz que, se percorrermos a Europa de uma ponta a outra, vamos ver que estamos constantemente a saltar do oito para o 80. “Tem de haver um meio-termo”, conclui.


Duarte Rashid sobre Paris

“Das duas uma. Ou aquilo é muito desespero daquela pessoa ao ver certas situações ou uma mente mais fraca que acaba por cometer estupidez, como temos cá em Portugal o senhor que mata a mulher com a seixola. Eu acho que não é religioso, que é mais um problema de ponto de vista social, de falta de conhecimento. O reivindicar um atentado em nome de qualquer coisa, quer dizer, isso também eu o posso fazer. Posso pôr uma máscara na cara, ir ao Chiado, esfaquear uma pessoa e dizer que sou judeu. Eu posso dizer isso tudo, mas isso é verdade ou não? Nunca ninguém irá saber. De cara tapada podemos ser tudo. E foi isso que aconteceu em Paris, apesar depois de ter apanhado esse fulano. Isso não é Islão. É a absorção de uma cultura e um querer libertar um país do domínio ocidental. Isso tem algo de heróico na visão deles, também. É o dinheiro, é a fama de ir para uma guerra pelo Islão… Mas não é Islão nenhum. Eles é que não percebem. Muitas dessas pessoas que acabam no Iraque ou na Síria têm um ano ou dois de Islão, não sabem. Eu demorei quase dez para me converter e eles em um ano têm devoção a Deus e já estão no Iraque. É como os indianos chamam ao Hinduísmo, quando as pessoas vão à Índia à procura do espiritual. Chamam-lhe karma-cola. Tudo é karma, tudo é religião. E aqui passa-se a mesma coisa. Música árabe é Islão, andar com um lenço na cabeça é Islão, o machismo árabe é Islão. Metem tudo o que vêem no mundo muçulmano como sendo Islão. Errado. Porque nos países muçulmanos também há outras religiões, e nessas outras religiões também há tradições e culturas que são mescladas.”

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Foto: Bruno Fragata.


MC Duarte Rashid

Rashid tem um grande gosto pelo hip-hop. Esse gosto vem dos tempos de rebelião, ainda antes da primeira viagem a Marrocos. Nunca desvaneceu, sempre gostou de rimar e de ouvir raps. Acha que é uma importante ferramenta para veicular mensagens e para as difundir pela sociedade.

A música sempre foi um tabu no Islão. O mundo ocidental ouve dizer que a cultura árabe reprime a música. Para Rashid não é bem assim: “Há hadices, extra corânicas, que dizem (atenção que o Corão não diz nada disso) que a música é proibida, dentro do contexto da religião, com instrumentos que não sejam o adufo e o tambor. Só esses é que podem, mais a parte vocal. Isto depende da interpretação. Na Arábia Saudita é proibido, em Marrocos não, no Egipto não, na Tunísia não. Tem a ver com as escolas.” Rashid não vê como é que o hip-hop pode ser um veículo de contra-fé. Aliás, foi uma ferramenta que este utilizou bastante para interagir com as crianças brasileiras nas favelas. Rashid passa a falar nas origens do hip-hop que estão ligadas ao Islão. Se estão ligadas ao Islão como é que pode o próprio Islão reprimir a sua criação? O hip-hop transformou-se muito, e em Portugal transformou-se numa guerra de palavras e rimas entre “ditos” MC’s.

“MC, que é um mestre-de-cerimónias que teve origem no Mali, nos griôs. Era pessoal que andava de aldeia em aldeia a contar os acontecimentos, a sabedoria religiosa, cultural, científica e social. Eram os repórteres, só que eles faziam aquilo em rima para decorar mais facilmente. É mais fácil decorar em rima do que em prosa, numa altura em que o papel era pouco.” O estudo deste estilo começou ainda no Brasil, quando ajudava a comunidade nas favelas. Foi aí que começou a ver raízes islâmicas em algo que ele nunca tinha imaginado. “Tinha muito interesse pela cultura brasileira. Quando lá fui trabalhei com crianças usando o hip-hop. Isso fez-me estudar este estilo e perceber que em cada país os melhores grupos estavam ligados a movimentos islâmicos. Mesmo na América, os primeiros estavam ligados ao Islão. Não há hip-hop islâmico, isso é um rótulo moderno, mas existe hip-hop evangélico e hip-hop católico. O hip-hop é islâmico de origem. Cá em Portugal penso que está a começar a haver agora alguns MC’s que dão a cara e que dizem que são muçulmanos, mas não falam do Islão. Temos apenas um, que é o Mohamad Yahia, que é português de origem moçambicana que rima em inglês e que está em Inglaterra. É o único português que rima sobre o Islão. Também temos cá em Portugal um outro MC, que é o Walid al Sayed, que diz que é muçulmano, que é praticante, no entanto não fala muito do Islão, não é directo naquilo que diz, rima em código. Respeito, é um artista. E um artista faz como quer. Até gostaria de o conhecer pessoalmente e se calhar fazer um trabalho com ele. Lá está, o meu hip-hop não foi de fazer álbuns, não foi de investir na parte de comércio e de mim próprio MC como MC, foi mais de enriquecer o meu vocabulário, a minha sabedoria e ir rimando pelos sítios onde fui passando – Brasil, Escócia, Portugal, Marrocos. Ia rimando com os meus amigos e conheci muito com o hip-hop. É como a galinha e o ovo para mim. O hip-hop e o Islão. Qual é que veio primeiro? Não sei. Estão intimamente ligados, e vão sempre estar.

 


Morte

“Espero encontrar-me com a minha família noutra realidade quando morrer. Nós andamos aqui um bocadinho à toa… Há muita gente que não acredita e que diz «como é que eu vou acreditar quando há tanta miséria no mundo?». Se há tanta confusão como é que vai haver justiça da confusão que está a ver? Tem de haver essa justiça. Como nós humanos não temos poder para nos julgarmos uns aos outros, tem de haver uma entidade superior para o fazer. Porque, se não, é que é mesmo injusto. Todas as coisas têm uma razão de ser. Um rico não é rico só por acaso, assim como o pobre não é pobre só por acaso. Riqueza não é sinónimo de felicidade, nem pobreza de infelicidade. Isso é tudo muito ambíguo. Conheço pessoas com muito dinheiro que são as pessoas mais infelizes do mundo e também conheço pessoas sem dinheiro nenhum que são as mais amorosas, carinhosas e felizes. E não querem mais nada a não ser sossego. Às vezes perguntamo-nos porque é que uns nascem com tanto dinheiro e outros com tão pouco, porque é que um tem doenças e outros não. Cada pessoa é uma receita diferente e, porque acho que a vida é muito mais do que aqui estar, se não houvesse um Deus era tudo muito fácil. Íamos todos roubar porque não há ninguém para nos julgar. Mas depois dizem-me: mas o meu país tem leis. Certo, mas eu não acredito nelas. Porque é que hei-de acreditar nelas? Sou livre, não há um Deus. Sem Deus não há o bem nem o mal. Todas as crianças quando nascem têm noção do que é o bem e o mal, às vezes de uma forma subtil, mas sabem. É natural do ser humano saber o que está certo e errado. O certo é Deus e o errado não é Deus. Chamem como chamem a Deus.

Ser muçulmano não é ser árabe e ser árabe não é ser muçulmano. Isso são tudo conceitos que têm de ser muito bem pesquisados. Mas sim, espero reencontrar-me com as pessoas num local melhor, seja aqui, seja noutro sítio. Acho que vai haver uma próxima vida porque a matéria transforma-se, e nós todos somos matéria, logo temos de nos transformar também em qualquer coisa. E a tendência do planeta é essa, as montanhas vão baixando, vai-se aplanando, vai-se achatando até que PAH! e BUM. E aí vai ser uma nova criação.”

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Foto: Bruno Fragata.

Sobre o autor

Tomás Gomes

Tomás Gomes, prazer. Sou aluno do último ano da licenciatura de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social e Lisboa e um apaixonado pelas artes e desporto. Passo grande parte do meu tempo a escrever, artigos e literatura, sempre pratiquei desporto, mas agora sou só sedentário. Adoro uma boa imperial numa esplanada em Lisboa e de ficar a olhar para as ruas à espera de que aconteça alguma coisa. Em Lisboa acontece sempre alguma coisa…

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