A Longa Viagem de Spider-Man (de 1982 a 2018)

A chegada do mais recente Spider-Man (2018) trouxe, sem dúvida, uma lufada de ar fresco àquilo que são os videojogos de super-heróis hoje em dia. Uma aposta – sem qualquer dúvida – ganha pela Insomniac e pela Sony, que detém o exclusivo de Spider-Man para PlayStation 4. E, porque é hora de olhar em frente, decidi ser do contra e olhar para trás.

O sucesso foi enorme. Faz poucos dias que Spider-Man (2018) chegou ao mercado e é já considerado um dos melhores videojogos do ano e do género. No entanto, e apesar de todas as  virtudes e novidades, assim como de toda a evolução que este novo título incorporou ao género, ao invés de escrever sobre o novíssimo Spider-Man (2018), decidi escrever um pouco sobre o passado da personagem no mundo do Gaming, desde a sua primeira aparição há 36 anos na icónica Atari 2600, à tão recente chegada à PlayStation 4, com este último título, lançado há pouco mais de uma semana.

 

1982 – 1996: O Início do caminho

Criado e desenvolvido por Stan Lee e Steve Ditko, Spider-Man (em português, Homem-Aranha) é o super-herói cujo fato azul e vermelho esconde Peter B. Parker, o jovem estudante e fotógrafo nova-iorquino que, em 1962, pela picada de uma aranha, laçou teias ao mundo dos quadradinhos e da Banda Desenhada, chegando às bancas no número 15 da conhecida Amazing Fantasy.

A primeira projeção de Spider-Man através de uma consola teve lugar vinte anos mais tarde, em 1982, através da Atari 2600 (originalmente comercializada no final dos anos 70 e controlada por um Joystick, que, quarenta anos depois, permanece um ícone do Gaming). A mecânica era simples, bem como o jogo em si. Um clássico no estilo Atari, linear e sem grande conteúdo; ainda assim, um sucesso para a época. Antes de fechar portas à década de 80, Spider-Man fez-se representar num dos três Questprobe (1984) – a par com Hulk, Human Torch e The Thing, que protagonizaram os outros dois episódios da trilogia – e em The Amazing Spider-Man and Captain America in Dr. Doom’s Revenge, um nome longo para um Arcade curto, publicado no final da década para clássicos como Amiga, Commodore 64 e ZX Spectrum.


Com a chegada dos anos 90
– que considero das melhores épocas em termos de criação musical e artística, assim como ao nível dos videojogos – Spider-Man passou a estar presente em novas plataformas, incluindo as portáteis, como é o caso de The Amazing Spider-Man (1990), o primeiro título da série a ser editado para Game Boy, a consola portátil de 4ª geração da Nintendo, lançada em 1989. Para terem ideia da variedade de plataformas, nos primeiros quatro anos da década, The Amazing Spider-Man vs The Kingpin (90, 91, 92 e 93), foi lançado para várias consolas Sega: MS, Genesis, GameGear e Mega CD, respetivamente. Em 1991, além da breve participação em The Punisher, Spider-Man teve direito a mais um exclusivo Sega, desta vez um Arcade Sega System 32, Spider-Man: The Videogame. Como a criatividade dos títulos era mar sem terra à vista, em 1992 foi lançado, num exclusivo Game Boy, The Amazing Spider-Man 2, seguido de Spider-Man: Return of the Sinister Six (1992), para Sega MS, NES (Nintendo) e Game Gear.

Em conjunto com outros conteúdos, estes anos foram verdadeiramente ricos no que diz respeito à escalada de Spider-Man pelas paredes do Gaming. Para além de se lançar em teias exclusivas Nintendo ou Sega, Peter Parker garantiu lugar em praticamente todas as plataformas de então, como é exemplo Spider-Man and the X-Men in Arcade’s Revenge, que, em anos consecutivos, foi publicado para diferentes plataformas: Super NES (1992), Genesis (1993) e Game Gear e Game Boy (1994). Mantendo o estilo de The Amazing Spider-Man 2 (1992), chegou em 1993 – imaginem sóThe Amazing Spider-Man 3: Invasion of the Spider Slayers, igualmente um exclusivo Nintendo Game Boy. Se é que alguma vez partiram, os maus da fita regressaram em 1994, com Spider-Man and Venom: Maximum Carnage, à SNES e à Genesis, as mesmas plataformas que acolheram, no ano seguinte, o lançamento de Spider-Man (1995), ainda que, para o mesmo videojogo, tivessem sido desenvolvidos padrões de jogabilidade distintos.


Venom/Spider-Man: Separation Anxiety
(1995), o título que deu continuação a Spider-Man and Venom: Maximum Carnage (1994), foi um tombo da série ao nível da crítica, recolhendo fracas avaliações e uma má recepção junto de jogadores e críticos, antecipando a crise que estava prestes a chegar. O último título desta época, The Amazing Spider-Man: Web on Fire, chegou em 1996 como exclusivo Sega 32X (Genesis/Project Mars). Não conseguindo recuperar dos fracos resultados dos últimos tempos, a criação de Stan Lee voltou ao anonimato por uns anos e não se mostrou a Nova Iorque (ou a qualquer parte do Mundo), regressando apenas no início do novo milénio.

 

2000 – 2010: PlayStation e a rentabilização de um nome

Depois de quase duas dezenas de títulos lançados, alguns dos quais apenas na América do Norte, como é o caso do último, The Amazing Spider-Man: Web on Fire (1996), a série entrou numa pausa (sem Kit-Kat) de quatro anos, até que voltou a ter novidades no mercado. Tal aconteceu no ano de 2000, quando (pasmem-se com o nome) Spider-Man foi lançado. O primeiro título do novo milénio chegou para Windows (Microsoft), Game Boy Color (Nintendo), Dreamcast (Sega) e, pela primeira vez, para PlayStation (Sony), onde conseguiu reunir excelentes avaliações e críticas francamente positivas. Independentemente das consolas a que mais nos rendemos, é importante reconhecer o impacto da PlayStation na promoção e no sucesso dos videojogos não exclusivos de outras plataformas.


Como o que é bem-feito deve ser mantido, Spider-Man 2: The Sinister Six (Game Boy Color, 2001)  e Spider-Man 2: Enter Electro (PlayStation, 2001) foram projetados como sequelas do original de 2000, embora em diferentes plataformas e com diferentes estilos de jogo. A título de curiosidade, ao ser lançado em outubro de 2011, o final de Spider-Man 2: Enter Electro foi modificado, após o atentado às Torres Gémeas, visto que a ação final do jogo tinha lugar no topo destes edifícios. No mesmo ano, Spider-Man deu o salto do Game Boy Color para o – então acabado de lançar – Game Boy Advance, com Spider-Man: Mysterio’s Menace, com Mysterio, o conhecido vilão de outros tempos, como é o caso de The Amazing Spider-Man and Captain America in Dr. Doom’s Revenge (1989).

Não tardou a ter início a (dolorosa) saga das adaptações e eu não sou propriamente fã de videojogos baseados em filmes. Na verdade, não gosto (mesmo) de adaptações de filmes para videojogos; além de condicionarem brutalmente a jogabilidade, condicionam ainda a motivação e o mindset do jogador, que já sabe o que esperar e o que está para acontecer. Neste ano, foi publicado Spider-Man (ou Spider-Man: The Movie), baseado no conhecido filme de 2002, protagonizado por Tobey Maguire, Kristen Dunst e Willem Dafoe. O lançamento deste título foi feito para plataformas Nintendo (Game Boy Advance e Game Cube), Microsoft (Windows e Xbox) e PlayStation. Dois anos passados, foi lançado Spider-Man 2, igualmente baseado no filme de 2004 com o mesmo nome. (Além de as adaptações serem extremamente aborrecidas, são um poço sem fundo, como podem ver). O principal ponto positivo deste lançamento foi a chegada da série a novas plataformas, neste caso Nintendo DS e PlayStation Portable.


Nesta viagem sem descanso, as adaptações tiveram direito a uma pequena folga (felizmente), dando lugar, em 2005 e 2006 respetivamente, a Ultimate Spider-Man e a Spider-Man; Battle for New York, exclusivo Nintendo (Game Boy Advance e DS). Ainda assim, não tardou a termos um Spider-Man 3 (2007), cuja história remonta a mais um filme e mediano em termos de críticas, a chegar em força a todo o tipo de consolas. A típica adaptação começava agora a ficar saturada e, talvez por isso, no mesmo ano, saltou para o mercado Spider-Man: Friend or Foe, igualmente disponível numa panóplia de sistemas, assim como o seu sucessor, Spider-Man: Web of Shadows (2008).


A era das grandes consolas e das plataformas rentáveis estava instalada. O final da década de 2000, em plena sétima geração, ficou marcado pelo intenso lançamento de novas consolas, mas Spider-Man mantinha-se fiel às plataformas mais conhecidas: PlayStation 2, PlayStation 3, Xbox 360, Nintendo Wii e Windows. No entanto, esta lealdade não interferiu no lançamento exclusivo de Spider-Man: Toxic City (2009) para Mobile, Blackberry e Windows Phone. Um lançamento inesperado, na época em que o Blackberry era rei dentro e fora dos Negócios, mas não muito apropriado para jogos e grandes aplicações. O regresso às consolas deu-se com o último título deste capítulo, Spider-Man: Shattered Dimensions (2010), que tinha tudo para dar certo – incluindo a participação de atores como Neil Patrick Harris, nos papéis principais – mas no qual, apesar da valorização da ideia e do conceito, a execução ficou bastante aquém do que fãs e jogadores esperavam.

 

2011-2018: A (continuação da) queda e o recomeço

O sucesso de antes não parecia ser o de então, e os videojogos do fantástico Spider-Man não estavam a arrasar nas vendas nem nas críticas. E é do Spider-Man que estamos a falar… O Homem-Aranha! Como se não fosse suficiente o fracasso de Spider-Man Shattered Dimensions (2010), em 2011, Spider Man: Edge of Time seguiu a mesma linha do antecessor. E adivinhem só o que ajudou a empurrar tudo mais para baixo: outra adaptação, neste caso The Amazing Spider-Man (2012), que pode ser considerado “atirar o barro à parede”, visto ter sido publicado para Nintendo DS, Nintendo 3DS, Nintendo Wii, Nintendo WiiU, Xbox 360, PlayStation 3, PlayStation Portable, Android, iOS, Windows e Windows Phone. (Ufa!). A crítica não parece ter-se rendido à versatilidade de The Amazing Spider-Man (2012) e maioria das avaliações oscilou entre os 5/10 e os 6/10.


As edições Mobile regressaram em força, talvez para recuperar folgo ou para repensar o caminho seguido pela saga. Primeiro, com Ultimate Spider-Man: Total Mayhem e logo depois Spider-Man Unlimited, um Endless Runner, no estilo de Subway Surfer, mas com o Spider-Man como personagem principal; o clássico e respeitável Spider-Man, que fazia sucesso desde a década de 60 na Literatura e na Televisão… Mas há que apalpar terreno e fazer o que é rentável.

Escrevi “a continuação da queda” no título deste ponto porque, de facto, a queda prolongou-se por muito tempo; diria que Spider-Man saltou de um décimo andar e não houve teia que o salvasse. Mas a verdade é que, em havendo financiamento, há espaço para criar, mesmo que não seja bem ou necessário. O penúltimo jogo a ser lançado foi The Amazing Spider-Man 2 (2014), baseado em mais um filme e publicado em mil e uma plataformas, assim como o anterior The Amazing Spider-Man (2012). A principal diferença entre ambos é que este último conseguiu a proeza de chegar a classificações como 20% ou 2/10, 1 estrela portanto.


Não era Venom nem Mysterio, mas o pesadelo de Spider-Man adensava-se e o caminho continuava a não fazer sentido. Felizmente e finalmente, fez-se luz. Não sei se foi a Tia May ou se foi a Mary Jane, mas Spider-Man reencontrou o caminho certo e refez-se das cinzas nas quais parecia arder há já algum tempo. O (agora sim, fantástico) Spider-Man (2018) foi lançado este ano, há questão de uns dias, a 7 de setembro. Desde então, tem conquistado tudo e todos os que se cruzam com ele. A liberdade de jogo – algo por que prezo bastante, primeiro por ser liberdade e depois por ser de jogo – o facto de ser Open World, a ação e os gráficos irrepreensíveis são alguns dos principais pontos a contribuir para o sucesso deste Spider-Man, especialmente em comparação com os anteriores. Entre os muitos elogios que tem recebido, Spider-Man (2018) é já considerado um dos jogos do ano e do género de Ação, sendo ainda apelidado de “o jogo de super-heróis pelo qual sempre esperamos”.


Parece que a nossa longa viagem termina por aqui. 56 anos desde que chegou às bancas e 36 desde que se estreou na também fantástica Atari 2600. Ao todo, mais de 30 videojogos, para mais de duas dezenas de plataformas.


Spider-Man é sem dúvida uma personagem com história,
indiscutivelmente bem construída e com um ambiente envolvente muito próprio, que, apesar das experiências que foram sendo feitas, encontrou o caminho certo este ano. Resta esperar, para os que, como eu, são fãs, que continue assim por mais uns 36 anos. No mínimo.

Sobre Diogo Ventura 103 artigos
Cedo percebi que o meu caminho passaria pela criatividade e pela imaginação. Comecei com desenhos e rabiscos, passei a pequenas histórias e mais tarde cheguei à publicidade e às peças de humor. Foi também desde cedo que dei por mim a mergulhar no mundo dos videojogos, quase antes de começar a andar - até porque, quando jogava, jogava sentado. Anos mais tarde, licenciei-me em Publicidade e Marketing e trabalho há algum tempo na área do Marketing e da Criatividade Digital. No Ardinas 24, já escrevi e opinei, e sou agora autor da rubrica semanal Bonus Stage, um pequeno espaço sobre videojogos e o mundo do Gaming.

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