Basset Hounds: “este álbum é uma boa viagem por diferentes ambientes”

Têm um álbum fresquinho, intitulado “II”, e muita vontade de o mostrar em palco. Por isso, os Basset Hounds abriram-nos as portas do Frasco, o estúdio onde trabalham, em Lisboa, para conversarem connosco sobre este novo trabalho, os planos para o futuro e lembrarem momentos únicos da carreira. Afonso, José e Miguel foram os três anfitriões e os motores desta conversa, na impossibilidade de o quarto membro – António – estar presente. Foi uma conversa igual à música que fazem: espontânea, inteligente e harmoniosa.

 

ARDINAS 24: Nós conhecemo-vos no concerto que deram na Casa Independente, em Lisboa. Passados estes dias, que balanço fazem do concerto?

Miguel: Acho que o balanço foi super positivo. Penso que nenhum de nós estava à espera de ter uma noite onde não pudessem entrar mais pessoas. Tivemos a casa cheia, o que é ótimo. Deixa o nosso ego, enquanto músicos, lá mais para cima. Só temos pena da quantidade de pessoas que queria ter assistido ao concerto, mas não pôde entrar.

Afonso: Soube bem especialmente porque foi o primeiro concerto em Lisboa depois de tanto tempo sem atuar aqui. 

Foi o vosso regresso à capital, agora a propósito do vosso segundo álbum, lançamento em abril. Que feedback têm tido de quem vos segue?

Miguel: Até agora tem sido bom. A verdade é que estivemos algum tempo parados, tanto a nível de concertos como na parte de estúdio, e, por isso, o nosso regresso foi quase um recomeço. Temos vindo a receber feedback desde o lançamento do primeiro single, Ouroboros, mas com o lançamento do álbum, e agora com este concerto em Lisboa, conseguimos ter um feedback mais consistente, e tem sido muito bom.

Afonso: O feedback é algo que demora a chegar, mas acho que vai um pouco atrás daquilo que nós esperávamos. Houve, talvez, um pouco de estranheza no início, porque é um álbum um pouco diferente do primeiro, mas acho que, depois de as pessoas terem ouvido algumas vezes, reconhecem que ele é nosso. Reconhecem a sonoridade.

Nesse tempo de paragem que houve entre os vossos dois álbuns, posso arriscar dizer que houve um crescimento pessoal e profissional de todos vocês. Como foi depois o regresso enquanto banda, o voltarem a estar juntos?

Miguel: É certo que, visto do exterior, estivemos parados, mas interiormente não. Deixámos de dar concertos, mas começámos logo a trabalhar na composição deste segundo álbum, e a partir daí foi trabalhar nas músicas, nas letras, na gravação do disco… Por isso, tecnicamente, nunca chegámos a estar separados. Não houve propriamente uma paragem, por isso não houve quase um recomeçar… Foi mais um continuar.

Afonso: Sim, estivemos sempre a ensaiar e a trabalhar. Houve, sim, condicionantes das nossas vidas pessoais que também entraram em jogo, mas nada que tivesse posto em causa o projeto ou o rumo do nosso trabalho.

Miguel: Aconteceu que, depois de termos gravado o álbum, procurámos descansar um pouco. Gravar um disco é um processo muito intenso. Passas dias seguidos fechado em estúdio com as mesmas pessoas… Por isso, quando ele esteve concluído, procurámos poupar-nos um pouco. Depois disso, sim, o regresso foi um pouco mais difícil. O retomar dos ensaios, o estudo das canções… 

A música não é só a vossa única ocupação… Como é que equilibram as vossas diversas facetas?

José: Fazemos música em horário pós-laboral… (risos) Temos de nos encaixar e ver as prioridades de cada um… Por isso é que estamos só cá três hoje!

Afonso: Por acaso acho que foi das coisas que mais mudaram em relação ao primeiro álbum: no primeiro álbum, só um de nós estava a trabalhar, mas agora estamos todos. É mais exigente para conciliar tudo.

Mas a vontade de singrar na música é cada vez maior, certo?

Miguel: A vontade é a mesma. Já era grande antes! 

Afonso: Sinto que é preciso cada vez mais organização e disciplina, mas a vontade e a necessidade de tocar acabam sempre por falar mais alto.

Então, pela vida mais ocupada que têm hoje, e também pelo sucesso que têm vindo a somar, sentem hoje mais responsabilidade do que quando começaram?

José: Sentimos mais maturidade, e daí vir mais responsabilidade necessariamente.

Miguel: Sim, mas não é algo que nos preocupe. A responsabilidade está lá, num plano B. Não é assim tão importante, mas não é que estejamos também muito desleixados naquilo que fazemos. A nossa filosofia é simples: temos de fazer aquilo que tem sentido para nós. Por isso, guiamo-nos mais pela maturidade que temos hoje.

José: Também aprendemos bastante com o primeiro álbum, e também na estrada. Crescemos bastante e ganhámos aí imensas ideias. E será assim que, muito provavelmente, ganharemos a seu tempo ideias para um terceiro disco. Com a técnica.

Afonso: E a responsabilidade acaba por estar mais presente nos ensaios. O tempo que temos não é assim tanto, e por isso é preciso chegar aqui e ter disciplina para fazer o que temos a fazer. Embora, muitas vezes, cheguemos a estúdio e acabemos a tocar livremente. No entanto, em termos de vendas, resultados e valores, não temos essa responsabilidade. Não pensamos: “no primeiro disco vendemos estas cópias, agora este segundo tem de vender mais”. Não sentimos isso. Fazemos aquilo de que gostamos, com a preocupação de, nos ensaios e nos concertos, sermos muito profissionais.

Afonso, Miguel e José são três dos elementos da banda e conversaram com o ARDINAS 24 no seu estúdio, em Lisboa.

Para este segundo álbum houve claramente mudanças face ao primeiro. O rumo que seguiram aqui foi espontaneamente decidido entre vocês, ou houve um plano traçado previamente?

Miguel: Sim e não. O rumo não foi pensado. O que surgiu de repente foi trabalhado de forma a ter sentido. Contudo, sabíamos bem coisas que queríamos explorar, como o saxofone e os violinos, que queríamos trazer para este trabalho. De resto, trabalhámos a quatro estas canções, estruturámos a quatro os temas, e as músicas têm a sua identidade por causa disso. Houve a adição destes instrumentos, que acrescentaram algo às músicas, mas elas não deixam de ter o seu próprio corpo só com nós os quatro.

Porquê a inclusão desses instrumentos?

José: Surgiu a ideia durante a composição do disco. Começámos a sentir a necessidade de outros sons. Experimentámos e gostámos, e decidimos inclui-los mesmo nas canções.

Como é a vossa dinâmica aqui, na sala de ensaios? Chegam ao vosso estúdio, e depois?

Afonso: Acho que é por épocas. Na altura dos concertos, chegamos e garantimos que o set que vai ser tocado nos concertos é visto de uma ponta à outra. Isso, pelo menos, temos de fazer. Obrigamo-nos a tal. Lá está, é quando a responsabilidade de que há pouco falámos entra em jogo. Fora da época de concertos, aproveitamos para explorar ideias que vamos tendo, ou vamos simplesmente brincando e vendo o que surge. Pode ser que acabemos a gostar de alguma coisa.

Vão fazendo esboços.

Afonso: Sim, que depois trabalhamos e resultam em muitas canções.

Miguel: Por vezes é um pouco random. Num ensaio pode haver tudo: trabalhar uma ideia nova, ensaiar um tema já composto, discutir o que fazer com ideias que já temos… E há ensaios em que acontece o oposto: não surge nada, não existe inspiração para nada, e acabamos por parar um pouco e relaxar.

Afonso: Por fim, há aqueles encontros de banda que servem para tratar de assuntos mais sérios, papelada, burocracia, contas, dinheiro… (risos)

Agora que tocaste no assunto do dinheiro… É um plano vosso conseguir, um dia, viver exclusivamente da música?

Miguel: Acho que nenhum de nós vê isso como algo 100% fazível…

Afonso: Mesmo que fosse fazível, acho que não é o objetivo de nenhum de nós, porque temos todos outras profissões além disto que também gostamos de fazer.

Miguel: Não é que me importasse. Mas é um pouco relativo, essa questão de viver da música… O que é, na verdade, viver da música? Dar concertos apenas? Não dá. O que acaba por acontecer aqui em Portugal é que, para viveres da música, tens de saber explorar diversas vertentes deste mundo: a composição, a produção, aulas, tocar em bandas… Fazendo um pouco de tudo, acho que é possível. Ainda que difícil.

Afonso: Nós achamos que, ao fazermos isto sem ser a nossa atividade principal, conseguimos gozar de mais liberdade. Não existiria aquela pressão de termos de lançar aquele single ou aquele disco naquela altura para termos liquidez para pagar contas. 

Miguel: Desde que consigamos ir fazendo o que queremos, sem grande pressão… estamos felizes.

O segundo álbum já está lançado… Agora, quais os próximos passos dos Basset Hounds?

José: Temos mais alguns concertos em julho, com datas que ainda não estão fechadas. Aliás isto foi uma das melhores coisas que aconteceram na sequência do concerto da Casa Independente. Tivemos alguns convites logo depois.

Afonso: Sim, isto mostra como é importante olearmos a máquina. Embora não tivéssemos estado parados, o facto é que as pessoas deixaram de nos ver com tanta frequência. Ao mesmo tempo, o mundo da música não para. Não estás presente no meio por algum tempo, e és passado para segundo plano. Digo isto sem maldade; é mesmo porque há muitos projetos e gente com talento a trabalhar e que vai ocupando as oportunidades que existem. Por isso, o que temos a fazer é reocupar o nosso espaço. Concertos puxam concertos, por isso é ir fazendo mais datas em breve. Assim que tivermos datas anunciaremos nas nossas redes sociais.

Olhando para o que está para trás, quais foram os momentos altos que destacam no vosso percurso?

Afonso: Eu acho que gostámos todos da oportunidade de irmos ao Alive, ao Super Bock, ao Indie… São festivais com grande dimensão, que enquanto putos já acompanhávamos, e a verdade é que acabámos por ir lá atuar. Isso deu-nos gozo a todos. Mas, curiosamente, o meu concerto preferido até agora foi no Damas. Aquele dia estava a correr mal, estávamos cheios de stress, tínhamos assuntos a resolver… Aquilo que estava para ser um péssimo concerto, tornou-se um concerto único. A casa encheu e estava um ambiente incrível.

Miguel: A certo ponto, tínhamos o nosso técnico de som a brincar com as luzes, na mesa ao lado. Foi mesmo uma aura especial que se gerou ali.

José: Eu diria que Monção também foi brutal. O concerto foi ótimo, com casa cheia, e houve imensa proximidade com o público. Fomos muito bem tratados lá.

Miguel: Mas há outros momentos especiais que não os de palco. Lembro-me de quando reviram o nosso primeiro disco no Ípsilon. Ver um crítico musical que é uma referência para ti analisar (e elogiar) o teu trabalho, só pode ter um significado especial. E também são ótimos todos os momentos que passamos com o Henrique Amaro. 

Afonso: E há uma série de momentos especiais que o público não vê. Para nós, um concerto não é só quando atuamos num palco. É toda a envolvência: o dia do espetáculo, a forma como nos tratam, as viagens, as pessoas que conhecemos… Tudo isso faz a experiência ser inesquecível.

Porque um concerto são só duas horas num dia inteiro de trabalho…

Afonso: Exatamente! Um dia inteiro cheio de dinâmica em torno do espetáculo e daquilo que fazemos.

De um modo geral, preferem as salas mais pequenas, onde há esse tal contacto com o público, ou salas maiores, onde há multidões?

Miguel: Ambas.

José: A multidão também pode ter contacto. Já atuámos em salas pequenas onde as pessoas estavam todas escondidas no fundo da sala. Não sentimos qualquer contacto. E, no Super Bock, vimos a multidão toda junto às grades, muito próxima de nós.

Miguel: Nós queremos dar concertos, e queremos transmitir a nossa energia para o outro lado. Se o fazemos para poucas pessoas ou para um recinto enlatado e enorme, é pouco importante. Queremos é tocar e contactar com as pessoas. Vai depender mais do público do que da sala. Importa mais a energia das pessoas.

E qual é o palco, o festival ou o evento onde gostassem muito de atuar?

Miguel: Adorava ir ao palco principal do Paredes de Coura. Seria aquela coisa que, depois de feita, ia riscar da lista de objetivos.

José: Digo o CCB. Atuar lá seria muito bom!

Afonso: Não tenho ambições (risos). As oportunidades vão aparecendo livremente, mas o Paredes, de facto, é uma referência para todos.

Ainda em relação ao futuro, já têm alguma ideia do que poderia ser o vosso terceiro álbum? Uma vez que vão fazendo música de forma espontânea…

Miguel: Houve algumas ideias que não seguiram para este álbum, e também há ideias que surgiram já depois de este disco estar concluído. Talvez possamos pegar nisso e trabalhar melhor. Provavelmente um terceiro álbum será parecido com este segundo, ou se calhar não será. Não sei… quando começarmos a tocar é que talvez comecemos a ter uma ideia do que será.

Afonso: Há vontade de um próximo álbum, claro, mas ainda é prematuro tentar arriscar o que será.

José: Vai depender muito do que estivermos a ouvir no momento também.

Miguel: Sim, e além disso acho que podemos também repensar um pouco a experiência da gravação. Tivemos duas experiências um pouco semelhantes, por isso, para um terceiro álbum, e agora que temos este espaço de ensaio, talvez pudéssemos fazer um modo de gravação diferente.

Afonso: E também vai depender muito dos últimos meses da nossa vida, no momento em que chegarmos a estúdio. A vida e as nossas vivências determinam as histórias que contamos e o rumo que seguimos.

Os Basset Hounds em palco, na Casa Independente, um concerto a que o ARDINAS 24 assistiu.

O que mais vos inspira no ato de criação musical?

José: Eu também gostava de saber… (risos)

Afonso: É uma pergunta muito difícil. Quando ouves entrevistas a artistas onde há perguntas semelhantes a essa, as pessoas sabem sempre muito concretamente como responder. Eu tenho muita dificuldade em responder.

Miguel: É um loop um pouco manhoso… O que nos leva a fazer música é a música, ou é a vontade de fazer música… Acho que é um pouco espontâneo. Um riff que surge, uma ideia que tens na cabeça e desenvolves quando chegas ao ensaio, a partilha das ideias com os teus colegas…

Afonso: Acaba por ser uma coisa tão natural que é difícil de compreender. É quase como o ato de comer quando tens fome. Não é propriamente algo racional; é uma necessidade. Aparece naturalmente. Além disso, acaba por ser uma forma de passarmos mensagens que não sabemos transmitir de outra forma.

Miguel: E gostamos de música e, acho que posso dizê-lo, sabemos tocar. Depois, simplesmente surge a vontade e a ideia, sempre muito naturalmente. E isso dá-nos um prazer enorme. Um sentimento de realização pessoal.

Para finalizar a entrevista, e dando mais ênfase ao álbum, que argumentos utilizariam para convencer as pessoas a ouvir e a comprar o disco?

Afonso: Isso é uma pergunta difícil, sabes?

José: Eu diria que este álbum é uma boa viagem. Passa por diferentes ambientes, muitas texturas e diversidade. Pelo menos, eu gosto de encontrar isto num álbum.

Miguel: Se tiverem pouco mais de meia hora disponível, oiçam o nosso álbum! Ouve-se muito bem, e, se gostar de rock indie alternativo, vai lá encontrar coisas que são familiares, e outras que são um pouco mais out of the box.

Afonso: Sim, é um álbum que consegue ter riffs que dão para saltar e dançar, e outros um pouco mais introspetivos. Por isso, concordo com o Zé. O disco acaba por ser uma viagem, e essa é uma característica de muitas das nossas músicas. Não são previsíveis. Não começam já por anunciar como há de ser o fim, e, assim, levam a pessoa que ouve por diferentes estados de espírito. O ouvinte vai à descoberta e tem tudo a ganhar em ouvir.

Fotos: Gonçalo Esteves Coelho / ARDINAS 24

Sobre Gonçalo Esteves Coelho 363 artigos
Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto. Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História. Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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