[Entrevista] Mário Mata. Ainda se faz música popular

É um nome incontornável do panorama musical português. A dar música há cerca de 40 anos, Mário Mata tem pela frente um concerto muito especial, na sala Lisboa ao Vivo, esta sexta-feira, para homenagear o seu percurso artístico. Em palco terá consigo velhos amigos – como Fausto, José Cid ou Né Ladeiras – mas na alma e na voz levará a energia com que sempre pôs os portugueses a festejar.

Em vésperas deste espetáculo (o terceiro de uma série que já passou pelo Porto e por Coimbra e que tem por título “Música Popular Portuguesa”), o ARDINAS 24 esteve à conversa com este músico, cantor e compositor, que nos contou como foram estes últimos anos de carreira, passados um pouco mais à sombra, e as expetativas para a noite de sexta-feira. Entre muitas surpresas, é seguro afirmar que não faltarão no alinhamento grandes êxitos como Faz-te à Vida, Somos Portugueses ou o intemporal Não Há Nada Para Ninguém.

 

ARDINAS 24 – Antes de mais, deixe-me felicitá-lo pelos seus 40 anos de carreira. Deu pela passagem de todo este tempo?

Mário Mata – Dei. Foi uma carreira com várias etapas, umas atrás das outras, e nós vamos guardando na memória imagens desses momentos.

E como surgiu a ideia para este espetáculo, que comemora esta data tão especial?

A ideia surgiu com o intuito de se gravar um CD e um DVD ao vivo, para comemorar a data, em Lisboa. Tivemos dois pré-espetáculos, no Porto e em Coimbra, mas este tem um gosto especial. Além disso, a ideia ainda surgiu do encontro de amigos que gostam muito uns dos outros. Tenho uma longa amizade, de há muitos anos, com o Fausto, com o José Cid, e uma grande admiração pelo percurso da Né Ladeiras. Por isso, somos três pessoas com percursos diferentes dentro da área da música popular portuguesa, mas decidimos juntar-nos para fazer uma festa.

Foi difícil convencê-los a participar neste espetáculo?

Não, porque são exatamente amigos de antigamente. A única complicação que houve, e que é normal, foi conjugar as disponibilidades de cada um. De resto, o processo foi bastante simples.

Dos dois espetáculos que fez anteriormente, um no Porto e outro em Coimbra, qual foi o feedback que recebeu?

Tem sido muito bom! Até acima das expetativas, confesso, pelo facto de as pessoas já não me verem há muitos anos. Pessoalmente, foi uma surpresa muito agradável. Toda a gente cantou os refrões, as pessoas sabiam as músicas, apesar de haver alguns temas novos, que apresentamos neste espetáculo.

O ano passado regressou com o lançamento de um novo trabalho. Como foi esse processo de voltar aos álbuns e ao contacto com o público?

Tinha saudades de lançar um disco. O último que tinha lançado tinha saído em 2014, se bem que tenha sido uma experiência extra-percurso, pois foi um álbum composto e produzido por um músico inglês, que assinou as letras também. Não é um trabalho voltado para o mercado nacional, e é um disco eclético, muito voltado para o jazz e música sinfónica. Foi algo completamente paralelo ao que faço habitualmente. Antes deste álbum, tinha lançado um último em finais de 2012, o “Sinais do Tempo”, que teve muito boa aceitação por parte do público. Foi o meu regresso à música popular, ainda que tenha misturado, aqui e ali, um ou outro tema da minha outra vertente mais rock. Este meu último disco, o “Regresso”, é muito mais virado para o pop-rock. Decidimos manter dois ou três temas desse CD para este espetáculo de Lisboa; não colocámos mais porque o concerto vai ser mais voltado para a música popular portuguesa, afastando-me da música pop-rock, que não encaixa muito bem no cariz destes concertos.

Enquanto compositor, sempre conseguiu distinguir esses dois mundos, o do pop-rock e o da música popular portuguesa?

Às vezes andam à bulha um com o outro (risos). A música popular sempre me serviu mais para expor uma vertente que eu tenho (e penso que mais ninguém tem) que é o lado humorístico. Brinco com as coisas sérias, e a música popular sempre serviu para este tipo de mensagens, que ninguém faz. É a parte de crítica social. Por outro lado, a vertente pop-rock permite-me explorar mais as baladas, e fazer outra abordagem diferente à minha música. Isto deriva sempre das influências com que cresci, que vão de Bob Dylan a Fausto, José Cid, Caetano Veloso… O bonito é que, ao mesmo tempo, somos admiradores uns dos outros.

E o espetáculo desta sexta-feira vai mostrar isso mesmo…

Sim, vai haver duetos. E, além disso, o Fausto vai cantar uma música minha, e eu cantarei uma canção do Cid, que vai também cantar uma minha… A Né Ladeiras fará o mesmo… Vai ser um concerto de muita partilha. Depois, no final do espetáculo, vamos atuar todos em conjunto e cantar o tema que eu escrevi para a Associação de Doentes Depressivos e Bipolares, que é o Dupla Face. Estarão exatamente os cantores em palco e representes desta associação, para fecharmos o concerto todos juntos.

 A escolha da sala para este espetáculo tem algum significado especial?

É uma sala alternativa. Por acaso, considero-me, dentro da música popular, um cantor alternativo, pelo que até me insiro bem nesta sala. Aliás, quem está à frente dela são pessoas que já conhecemos há alguns anos. Mas a própria disposição da sala faz sentido para este espetáculo.

Após este concerto, qual é o próximo passo da sua carreira?

Vamos fazer a edição do CD e do DVD ao vivo, que sairá perto do fim do ano. Também tenho muitos espetáculos agendados, e estou envolvido nuns espetáculos que são sobre dez castelos, relacionados com a peça “O Enredo”. Além disso, irei fazer a tournée do José Cid como cantor convidado. Felizmente, há muito trabalho, e bastante diversificado. 

Nestes anos todos de carreira, o que é que lhe falta fazer?

Este processo de retoma é muito mais complicado do que quando se aparece pela primeira vez. Estamos a fazer todos os esforços para que a coisa resulte e para que os espetáculos que estamos a preparar sejam do agrado do público. Acho que são concertos que vale a pena ver, visto que não há mais ninguém a fazer o tipo de canção que eu faço.

Sente pena por isso?

Não, pelo contrário. Sinto orgulho. Viva a diferença! É algo que sempre ensinei ao meu filho: a importância da diferença. Não temos de seguir a carneirada. Temos de ser nós próprios e acreditar no que fazemos. Por isso é que digo que resistir é vencer!

E a música popular portuguesa tem pernas para andar?

Sim, se bem que convém separar o conceito de música popular portuguesa. Fala-se muito dela, mas uma coisa é música populista, e outra é a música popular portuguesa. Esta resulta da evolução da música tradicional para um estilo mais “estilizado”. Eu penso que, se a música popular um dia falhar, todos os outros estilos de música falharão também. Temos um processo de criação com raízes muito próximas do popular.

Mário, se tivesse de deixar uma mensagem aos nossos leitores a convidá-los para assistirem ao concerto de sexta-feira, o que lhes diria?

Digo-vos para aparecerem porque vão assistir a um bom espetáculo, com bons músicos que lá estarão presentes e num ambiente de festa e de verdadeira música popular portuguesa!

 

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Sobre Gonçalo Esteves Coelho 358 artigos
Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto. Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História. Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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