Eurovisão. Indígena a bordo pela Austrália

É a pergunta que todos os anos mais se ouve nos dias que antecedem a realização do Festival Eurovisão da Canção: porquê a participação da Austrália, que está posicionada no extremo oposto do globo, numa competição aparentemente europeia? Este ano, o país concorre pela quarta vez consecutiva e, fazendo jus ao mote do certame deste ano, quis trazer “todos a bordo” – e assim traz a Lisboa uma jovem cantora de ascendência indígena.

A Austrália transmite a Eurovisão, em direto, na televisão pública há mais de 30 décadas. Esta velha paixão de um país que assiste ao concurso quando, no seu território, são seis da manhã foi recompensada em 2014, quando a organização do festival convidou o país a apresentar-se num dos intervalos do espetáculo. Nessa ocasião, a televisão australiana escolheu Jessica Mauboy para ser a embaixadora da nação nesta primeira grande oportunidade de se apresentarem à Europa através da sua música. No ano seguinte, e como a Eurovisão comemorava os seus 60 anos de vida, a Austrália foi de novo convidada a participar, mas desta vez a sério – assim, a canção que escolheram foi a votos na competição e acabou num respeitoso quinto lugar. O sucesso australiano deixou evidente que os europeus acolhiam bem este parente afastado e que queriam ouvir mais do país do canguru.

Assim, a Austrália tornou-se definitivamente parte da família eurovisiva, e em Lisboa surge para a quarta representação neste certame. A televisão australiana, depois de analisar diferentes propostas, decidiu ser fiel ao mote lançado pela organização portuguesa: “All Aboard”. Por isso, aceitando a ideia de diversidade e inclusividade, a emissora voltou a escolher Jessica Mauboy como a sua representante. Assim, em Lisboa, ouviremos uma cantora cuja família tem raízes nos primeiros habitantes da Oceânia.

Representante da diversidade australiana

Nascida em agosto de 1989, Jessica veio ao mundo como filha de um pai de origem indonésia e uma mãe de ascendência indígena, da tribo dos Kuku Yalanji, habitantes da zona florestal do Extremo Norte do estado de Queensland. Desse grupo étnico restam hoje apenas três mil pessoas, uma pequena parte daquilo que era a dimensão da tribo antes de colonos ingleses e exploradores chineses terem interferido com a vida quotidiana deste povo.

Desde cedo, a jovem moveu-se entre os dois universos, mas rapidamente o cosmopolitismo da Austrália arrebatou-a. Hoje, é a cor da pele que a faz ser distinta da maioria dos australianos, que admiram Mauboy e a têm como uma das grandes artistas do país. A cantora conheceu a fama em 2006, ao participar num concurso de talentos onde terminou em segundo lugar. Conquistou de imediato um contrato musical com uma prestigiada editora de música, pela qual já lançou três discos, que foram grandes sucessos no país.

Entre o pop, a música eletrónica e o R&B, Jessica Mauboy tem animado os ouvintes australianos e, com êxitos que se ouviram nas rádios, arrastaram-se pelos tops de vendas e soaram em discotecas. Agora, o desafio da artista é conseguir o mesmo efeito em Lisboa, quando pisar o palco da Altice Arena para cantar We Got Love. A proposta australiana é fiel ao estilo da artista, que está na histórica da música da Austrália por ter sido a primeira cantora indígena a chegar ao primeiro lugar dos tops.

As expetativas são altas, não apenas pela sólida carreira de Mauboy, mas pelo excelente conjunto de resultados que a Austrália tem obtido no certame – o melhor lugar alcançado foi o segundo, em 2016, e o mais baixo que conseguiram foi terminar na nona posição, no ano passado. Em comparação, basta ver como Portugal nunca tinha ultrapassado o sexto lugar conquistado em 1996 por Lúcia Moniz, até que Amar Pelos Dois surgiu para arrecadar o primeiro lugar.

Escute, de seguida, a canção que vai representar a Austrália, na voz de Jessica Mauboy.

Foto de capa: eurovision.tv
Foto de texto: SBS

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Sobre Gonçalo Esteves Coelho 363 artigos
Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto. Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História. Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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