”Se nos perguntarem o que é a felicidade, será este o momento que descreveremos”

Matilde e Miguel nas praias da Tailândia

A decisão estava tomada, e rapidamente nos apercebemos de que fora a decisão certa. Hoje, olhando para trás, pode parecer pouco importante ou relevante, mas, sendo o nosso primeiro Natal passado longe de casa, longe da nossa família e da comida típica de natal, dos doces e salgados infinitos sentados em frente a uma lareira quente num dia frio, estávamos de facto preocupados e com medo. Por isso, foram dias complicados a nível emocional. Viajar para outro extremo do planeta tem as suas desvantagens, e esta é a maior delas todas: estar longe da família em datas importantes.

Muitos de nós até podem nem valor dar a estas datas, por serem apenas aquelas datas onde se repetem ‘cerimónias’ e celebrações iguais a todos os anos, mas, quando a rotina se quebra, quando a mudança é drástica, aí, sim, damos valor, muito valor! Foram momentos duros para nós. Apesar de ter sido o primeiro Natal juntos, prometemos que não iríamos voltar a passá-lo longe de casa, longe do amor do nosso abrigo, mas também tencionamos não voltar a passar separados. E assim será.

Restavam apenas três dias, e caso nos dirigíssemos para as ilhas tailandesas arriscaríamos a passar esta data sozinhos ou com completos estranhos. Banguecoque podia não ser o sítio mais excitante para passar esta data, mas estávamos rodeados de personalidades ímpares, algumas das quais com quem já tínhamos criado alguma relação.

Não eram só personalidades ímpares, mas também as ocasiões raras que as fizeram estar pelo mesmo sítio, na mesma época que nós. Já vos falámos do Chang, que esteve quase um ano em coma, e decidiu por ali ficar uns tempos. Agora falaremos do Mike, a pessoa mais interessante com quem alguma vez estivemos em contacto. Originário dos Estados Unidos da América (facto do qual não se orgulha nada), com cerca de 55 anos de idade, viaja há cerca de 30 anos sem parar. Sim, 30 anos sem parar… Mas um estilo de viajante diferente do normal, muito diferente!

Matilde e Miguel com Mike e o cão do hostel

É um indivíduo super culto, interessado em política, cultura e negócios. De momento, vivia no norte da Tailândia, em Chiang Mai, há mais de dois anos. Passámos várias horas diárias a conversar com ele, algo que era tão fácil e fascinante, dado que a conversa simplesmente fluía.

O Mike decidiu fazer uma viagem de bicicleta pelo país (diz ser a melhor maneira de explorar um país), mas infelizmente foi atropelado em Banguecoque e partiu uma ou duas costelas. Nunca soubemos ao certo quantas nem a gravidade da situação, visto que ele se recusava a ir ao hospital, alegando saber exatamente o que tinha e que no hospital não faria nada a não ser gastar tempo e dinheiro. Já entendem o porquê de ocasiões raras juntarem personalidades ímpares?

Mike diz ter trabalhado como ninguém entre os seus 20 e os 30 anos. Dormia escassas horas por dia e investia todos os seus esforços na indústria da tecnologia. Criou os seus negócios e geria duas empresas que eventualmente vendeu por milhões de dólares a empresas gigantes como a Cisco e outra (cujo nome nos escapa). Desde então, Mike saiu do seu país e nunca mais voltou. Muda de país a cada três anos e, durante esse período, aprende tudo sobre o país residente: a língua, a cultura, política, economia, os fortes e os fracos… literalmente tudo. Concentra os seus esforços em criar para si uma experiência de como se fosse um local. Incrível, não?

Como se não bastasse, adora ajudar e, como todos nós precisamos de um propósito na vida, Mike encontrou o seu, criando organizações humanitárias pelos países onde passa. Seja para acolher crianças abandonadas, seja para ajudar idosos com dificuldades ou pessoas com doenças graves, Mike criou várias organizações, que fez questão de deixar à responsabilidade de locais.

De facto, tudo isto torna-o uma pessoa incrível que vai ficar para sempre nas nossas memórias. Trocámos contactos e prometemos fazer uns tempos de voluntariado em alguma das organizações, pois é algo que tencionamos fazer na nossa rota.

Já era dia 24, véspera de Natal. Acordámos na ansiedade/curiosidade do que este dia nos traria. Incrivelmente começámos o dia a falar português, com um novo guest, um alemão apaixonado por Portugal! Era um professor de piano que de momento dava aulas de piano pela Coreia, e que dividia o seu tempo livre pela Tailândia e Portugal, os seus dois países favoritos. Viveu apenas um par de anos em Portugal e impressionou-nos com o seu nível elevadíssimo de português. Arrisco-me a dizer que falava melhor que nós (risos).

A hora do jantar aproximava-se. Ponderámos imensas vezes em cozinhar algo típico português para a noite de Natal, mas, depois de muitas ideias e discussões, acabámos por concluir que, de acordo com o nosso budget e os ingredientes existentes na Tailândia, a única solução era um arroz doce. E vínhamos a descobrir mais tarde que foi uma bela solução!

A foto que partilhámos naquela noite nas nossas histórias do Instagram: o nosso arroz doce

Um natal bem diferente, não só pela presença das personagens de que falámos anteriormente, mas também pelo facto de que era hora de jantar e estavam cerca de 30º de temperatura! (risos) Está claro, o jantar foi feito na rua! Juntou-se um grupo engraçado, todos sensíveis à data e disponíveis a criar o melhor momento possível. O jantar, obviamente, foi cozinhado e gerido pelo Chang. Estava uma delícia, para não variar, e, depois de uma refeição tailandesa para o Natal, que melhor poderia suceder que uma sobremesa típica portuguesa? Mesmo havendo uns percalços no cozinhado, saímos surpreendidíssimos com o resultado do nosso arroz doce. Que preciosidade de sobremesa que tanto nos fez relembrar o nosso lindo país! Sem trocas de prendas, mas com muita troca de conversa, experiências e gargalhadas; bons momentos, neste Natal… diferente!

Jantar de Natal

Não somos grandes fãs de grandes cidades mas adorámos Banguecoque, talvez pelas pessoas e acontecimentos que se cruzaram no nosso caminho, mas é de facto uma capital à qual pretendemos voltar um dia!

Passado o Natal, era altura de dizer adeus! O nosso visto era limitado e pequeno e, tendo apenas 30 dias disponíveis no país, com tanto por visitar, estava na altura de prosseguir viagem e dirigir-nos para as famosas ilhas do sul, que tanto já desejávamos! Mas, antes, avizinhavam-se cinco ou seis horas de comboio e outras duas de autocarro. E que viagem horrível!

Foram seis horas num comboio esgotado, em bancos duros e completamente rectos, sem qualquer inclinação, seguidas de duas viagens de autocarro. Foram 10 horas no total que passámos em transportes públicos. Depois de dois meses na Índia, em que a qualidade das estradas era quase sempre lastimável, nunca pensámos que fosse na Tailândia que viéssemos a ter a viagem mais desconfortável de todas. Quem segue os nossos vídeos diários no Instagram talvez ainda se recorde desta viajem em que o Miguel acabou por optar em dormir no chão! Ser backpacker tem destas coisas e, enquanto a nossa carteira não nos permitir, de vez em quando teremos de nos submeter a condições destas. Mas, no final, sabemos que tudo vale a pena e que este é o preço a pagar por experiências memoráveis. Experiências essas que agora temos o prazer de partilhar aqui consigo!

Chegámos ao nosso destino, a nossa primeira ilha Tailandesa: Koh Lanta. Era muito diferente do que esperávamos, muito ampla, com algum turismo, mas não tanto quanto esperaríamos. Aparentemente, é uma das ilhas menos populares do sul, e talvez seja por isso que gostámos tanto! Natureza linda e praias muito tranquilas, não nos conseguimos esquecer dos pôr-de-sol nesta ilha, lindos de morrer! Como sempre, depois do Natal, vem a passagem de ano, e ambos estávamos a precisar de festa e nada mais conveniente do que estar por perto das ilhas Koh Phi Phi nesta mesma época. Portanto, foi lá que decidimos passar o ano.

Matilde e Miguel no baloiço da praia de Koh Lanta

Para quem não sabe, Koh Phi Phi são as ilhas mais turísticas da Tailândia, e recebem anualmente milhões infinitos de turistas. Sabendo de antemão que é um destino caríssimo em relação às outras ilhas, planeámos passar o mínimo tempo possível por lá, portanto chegámos no dia 31 e planeávamos sair no dia 1 ou 2. Um bocado parvo da nossa parte, chegámos à ilha principal a meio do dia 31, sem qualquer alojamento planeado (típico de nós os dois!). Pesquisámos online, estava tudo esgotado, andámos pela ilha a perguntar por alojamento, só havia quartos a 50€ por noite. Más notícias, pensámos nós… Mal sabíamos que iríamos ter a melhor noite do ano, pelo melhor preço possível!

Tentámos arranjar uma acomodação durante um par de horas, mas acabámos por perceber que só havia duas soluções: ou pagávamos 50€ por um quarto essa noite, ou festejávamos até o mais tarde possível e dormíamos na praia umas horas. Esta era fácil! Claro que optámos por dormir na praia. Já havíamos perdido muito tempo em tentar arranjar outra solução e a nossa carteira agradecia.

Decisão tomada, imediatamente nasceu outro problema: onde deixar as nossas malas que contêm não só toda a roupa como os nossos computadores, câmaras e documentos? Sabemos que nestas épocas e locais não podemos simplesmente confiar na generosidade de uma cara bondosa aleatória pela ilha. Tínhamos de arranjar outra solução mais segura. Depois de outra volta pelo centro da ilha, pensámos que a melhor hipótese era mesmo tentar deixar as nossas malas na esquadra da polícia alegando que os alojamentos estão todos esgotados e que iríamos dormir pela praia. Mesmo já tendo umas pessoas generosas que aceitaram guardar as nossas malas espalhadas pela ilha, tentámos na esquadra da polícia e, para surpresa nossa, aceitaram sem qualquer problema.

Tudo arranjado, acomodação decidida, malas seguras, era hora da diversão!

Encontrámo-nos com um grupo de amigos e conhecidos, alguns dos quais também digital nomads, e juntos enfrentámos a loucura que é as ilhas Phi Phi. Muita dança, muito festejo, representações com fogo e malabarismos, dançarinas e palhaçadas, tudo com um pé na areia e outro no mar. E assim foi durante horas. Confessamos que, apesar de nos termos divertido imenso, nunca perdemos a preocupação de passarmos a noite ao relento. E, na verdade, não foi a melhor de sempre. Mas o acordar, esse sim, ficará nas nossas memórias para sempre.

Finalmente, tínhamos encontrado um paraíso da Tailândia, e estava literalmente aos nossos pés. Acordámos naturalmente com o calor da manhã e com a maré a subir lentamente e quase a tocar-nos nas pontas dos pés. Assim que abrimos os olhos, deparámo-nos com a praia mais linda que alguma vez vimos! Areia branquíssima e água azul turquesa, tal e qual os filmes. Uma imensidão de praia, só para nós. Levantámo-nos com o maior dos sorrisos na cara e fomos imediatamente para o mar. Se nos perguntarem o que é a felicidade, será este o momento que descreveremos (Ainda podes ver este momento, nas highlights em destaque ‘’Thailand’,’ no nosso Instagram).

Matilde e Miguel nas praias da Tailândia

E assim foi o virar de um ano incrível que passou. 2017 ficará marcado pelo término das nossas vidas académicas e pelo ano em que decidimos largar tudo e seguir os nossos sonhos. O ano de 2018 promete e, da maneira como começou, naquela manhã de sonho, numa praia deserta numa ilha pela Tailândia, só poderá ser risonho de certeza. E desejamos o mesmo para todos vós. Ficam aqui então as nossas últimas aventuras do ano, desde Banguecoque até às ilhas do Sul. Para a semana voltamos com mais e diferentes aventuras pela Tailândia, já com direcção à Malásia!

Com muito amor,
Miguel e Matilde

PS: Entretanto não percam os nossas aventuras mais de perto através das nossas redes sociais – Facebook e Instagram.

Sobre TravelB4Settle 30 artigos
Somos a Matilde e o Miguel, um casal de portugueses que deixou tudo para trás e decidiu seguir o sonho em comum! E que sonho é esse? Viajar a tempo inteiro e explorar todo o mundo enquanto trabalhamos online! Não, não somos especialistas em tecnologia e nunca fizemos nada online, mas, hoje em dia, tudo aquilo de que precisas é conexão à internet e uma forte vontade. Assim, podes aprender qualquer coisa e consegues o que quiseres! E isto foi o que fizemos: virámos as costas à sociedade e ao caminho tradicional (imposto por esta) e lançámo-nos nesta aventura com o objetivo principal de ajudar todos os que têm o mesmo sonho que nós! Estamos nas grandes redes sociais como “Travelb4Settle” e agora estamos no ARDINAS 24 a partilhar as nossas experiências e conhecimento sobre o mundo que andamos a descobrir! O online e o planeta terra!

2 Comentários

  1. Fico rendida às vossas crónicas, e apesar de seguir cada segundo das vossas aventuras através das redes sociais, não consigo parar de ler as histórias e experiências que nos contam! Beijinhos e …continuem!

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