Personagens de Natal

Quando chegámos à Índia o plano, ou a ideia, era seguir para o Nepal ou para o Sri Lanka, por serem países adjacentes. Passado um mês, foi-nos informado que os transportes para o norte estavam cortados, por estar a chegar o inverno, o que eliminaria o Nepal das hipóteses, e que para o Sri Lanka já não existem Ferries marítimos e só seria possível visitá-lo voando ida e volta. O nosso budget não nos permitiria fazer isso. Foi assim que decidimos: ‘vamos apanhar o voo mais barato possível para um sítio onde possamos prosseguir por terra’. E daí surge a nossa nova rota, e que ganhou por larga margem: ‘Bangkok, aqui vamos nós!’.

Passando um mês à frente, cheio de aventuras e peripécias que já partilhámos convosco (ver edições anteriores), lá estávamos nós a chegar à capital de um dos destinos mais populares do mundo, Bangkok, na Tailândia! E, claro, só nos passava uma coisa pela cabeça: chegar o quanto antes às ilhas, para podermos desfrutar daquelas praias paradisíacas que tanto se veem pela internet! E atendendo ao facto de que tínhamos chegado à Tailândia no dia 20 de dezembro, queríamos ir o quanto antes para podermos ter algum tempo de criar algumas relações para podermos ter a melhor réplica de época natalícia possível.

Os primeiros momentos em Bangkok não foram bons. Chamámos um Uber para nos transportar, e fomos de imediato introduzidos ao trânsito infernal de uma das capitais mais influentes do sudeste asiático. O que aparentava ser uma pequena distância no mapa levou-nos duas longas horas a percorrer. Depois de muito ‘para e arranca’ e de uma sesta, chegámos finalmente ao destino.

Em apenas alguns minutos a pé até ao hostel, deu para analisar as diferenças culturais que mais saltavam à vista. A Índia é de facto um subcontinente e parecia que só naquele momento tínhamos realmente chegado à Ásia.

Encontrámos pessoas tão diferentes com comportamentos tão diferentes… Milhares de pessoas nas suas rotinas diárias sem nos darem qualquer atenção, sem ser um sorriso, quando os olhares se cruzavam! Amámos a Índia e voltaremos com certeza, mas confessamos que, depois de dois meses intensos, não ter a atenção de todos os humanos num raio de meio quilómetro foi um alívio profundo.

Ficámos, portanto, espantadíssimos com o quão desenvolvido era Bangkok, com o quão limpa era a cidade comparando com a imagem que tínhamos na cabeça (talvez por alguns filmes ou séries), e principalmente com a quantidade enorme de carne que era vendida e consumida pelas centenas de barraquinhas de comida de rua que havia em cada esquina. Acreditem, depois de dois meses no país mais vegetariano do mundo, passar directamente para a Tailândia é chocante! Arriscamos a dizer que, em cada rua, é vendida a mesma quantidade de carne que é consumida num estado inteiro na Índia, no mesmo intervalo de tempo.

Chegámos ao hostel, sossegado e praticamente vazio, com apenas a família que era dona do mesmo e um Digital Nomad no radar. Fizemos um check-in super rápido, pois estávamos esfomeados. Ainda mais quando apareceu um guest asiático, com três tachos cheios de comida quente e super bem cheirosa, que se sentou ao nosso lado para almoçar. Nós parecíamos uns cachorros nos desenhos animados, a ser atraídos pela nuvem de aroma que vinha daqueles pratos. Fome, sua necessidade diabólica…

“Ei, vocês os dois. Sentem-se aqui, comam connosco”, disse o asiático, na nossa direção. Não estávamos a acreditar, e por isso tivemos de confirmar. “Nós?” – era bom demais para ser verdade, e nem tínhamos muito dinheiro local para podermos suportar o que aparentava ser uma refeição de cinco estrelas! “Sim, vocês! Sentem-se aqui comigo. É uma refeição de boas-vindas!”. Não resistimos mais, sentámo-nos e deliciámo-nos. Tivemos a melhor introdução à cozinha tailandesa possível em toda a história, por uma pessoa cuja história nos viria a arrepiar!

Chan servindo comida

Chang era seu nome. Nascido em Hong Kong, é um cozinheiro de topo que detém vários restaurantes de sucesso pela Ásia. Teria tido um acidente muito grave de aviação há um ano, no qual tinha perdido o seu parceiro de há muitos anos e grande parte da sua memória. De momento apenas geria um dos restaurantes, e estava como numa pequena reforma de passagem em Bangkok. É uma história arrepiante, vinda de uma pessoa que irradiava boas energias. Adorava tratar das pessoas à sua volta, dizia ele. E rapidamente o percebemos, pois ele cozinhava todas as refeições, com comida deliciosa, para todas as pessoas do hostel. Juntou o prazer de cozinhar, ao prazer de alimentar os que o rodeavam, e assim era ele feliz.

Nós, boas bocas que somos, sempre o ajudámos, a cozinhar e a comer, claro. A comida era deliciosa. Nós tomávamos conta das limpezas de cada refeição e ele adorava a nossa companhia. Parecia-nos uma colaboração perfeita! E assim ficámos, viciados em comida tailandesa. Melhor ainda, aprendemos a cozinhar para satisfazer o vício. Que entrada surreal na Tailândia! Comíamos pelo menos duas refeições juntos, e até acordados para ir comer fomos! E, comparando a qualidade das suas refeições com qualquer restaurante nas redondezas, ‘ir comer fora’ deixou de fazer sentido. Vamos é comer a casa! (risos)

Chan e o digital nomad

Era, de facto, um pequeno grupo no hostel, mas cheio de grandes personagens. Sim, começámos pelo Chang, que se certificava de que estávamos absolutamente cheios de comida durante 80% do dia (os restantes 20% passávamos a dormir), mas havia mais, bem mais! De seguida vem a dona do hostel: natural da Malásia, mudou-se para Bangkok pelo negócio, e lá tem família, um marido e um filho com cerca de cinco anos. Honestamente, não tinha muito jeito para gerir um hostel. Muito pouco mesmo. Era especial, e não tinha muita paciência e tolerância para os hóspedes e, neste tipo de negócio, isso é vital. Além disso, alegadamente vendia comida e bebida que raramente tinha ao dispor. Aparentemente e surpreendentemente, tinha um negócio bem sucedido online e de lá fazia um bom dinheiro, onde o principal destino era a compra de animais raros e, claro, suportar as despesas do hostel, que, por certo, não era lucrativo. De facto, uma personalidade caricata que só no hostel, em cativeiro, tinha três animais estranhos que nem nos atrevemos a descrever.

O filho dos donos do hostel – um amor

Houve um dia em que os donos se tiveram de ausentar ao final do dia para cuidar de um dos seus familiares que estava hospitalizado. Pediram ao Chang, que, pelo que parecia, já era parte do staff, para tomar conta da casa na sua ausência. E nós, que costumávamos ficar a trabalhar nos nossos computadores até tarde, estávamos também dispostos a ajudar. As noites costumavam ser tranquilas ou mesmo mortas por lá. Para nossa surpresa, por volta das 23 horas, apareceu um grupo de nove franceses, entre os 30 e 40 anos, a perguntar se servíamos comida (aparentemente estava tudo fechado nas redondezas). Caso os donos estivessem presentes, a resposta era fácil: “Não servimos comida”, o que era verdade, seja dentro ou fora de horas. Mas, estando ausentes, o Chang teve uma brilhante ideia: “porque não cozinhamos nós, em segredo, a um preço razoável, e com o dinheiro financiamos o resto dos nossos dias?” Dito e feito; o Chang cozinhava deliciosamente por prazer, e nós seríamos empregados de mesa por uns minutos em troca de alimentação nos próximos dias.

Adorámos o desafio, o grupo francês deliciou-se com a comida (não é difícil), os donos nunca souberam de nada (visto que os produtos eram do Chang), e, com os lucros, aumentámos o budget da cozinha nos dias seguintes. Foi hilariante e recompensador podermos começar a ter gambas e cerveja (que é cara) nas nossas refeições. Toda a gente feliz e, sem dúvida, mais uma história para contar!

Há muitas mais histórias para vos contar de Bangkok, muitas personagens e episódios nos rodearam, nunca esquecendo que foi neste hostel que conhecemos a pessoa mais interessante que alguma vez se cruzou no nosso caminho. Mas não nos vamos alongar mais. Queremos apenas afirmar que estávamos a adorar Bangkok, e as relações estavam cada vez mais fortes. Já havia uma pequena família, e, com algumas horas passadas em conjunto, começámos a pensar: “Porque não ficar?”. Claro foi: ficámos. E foi um natal… diferente!! Continuamos na próxima semana com as aventuras nesta época tão especial nesta cidade tão imprevisível.

Até lá caso queiram acompanhar as nossas presentas aventuras não hesitem em visitar o nosso Instagram e/ou Facebook.

Com amor,

Matilde e Miguel (Travelb4settle)

Sobre TravelB4Settle 25 artigos
Somos a Matilde e o Miguel, um casal de portugueses que deixou tudo para trás e decidiu seguir o sonho em comum! E que sonho é esse? Viajar a tempo inteiro e explorar todo o mundo enquanto trabalhamos online! Não, não somos especialistas em tecnologia e nunca fizemos nada online, mas, hoje em dia, tudo aquilo de que precisas é conexão à internet e uma forte vontade. Assim, podes aprender qualquer coisa e consegues o que quiseres! E isto foi o que fizemos: virámos as costas à sociedade e ao caminho tradicional (imposto por esta) e lançámo-nos nesta aventura com o objetivo principal de ajudar todos os que têm o mesmo sonho que nós! Estamos nas grandes redes sociais como “Travelb4Settle” e agora estamos no ARDINAS 24 a partilhar as nossas experiências e conhecimento sobre o mundo que andamos a descobrir! O online e o planeta terra!

2 Comentários

  1. Oh não, já acabou?? As vossas crónicas são viciantes, as experiências simplesmente emocionantes e a vossa escrita vai transportando-nos para dentro das histórias que contam…quase que sinto o cheiro dessa comida e o som da vossa risada! Quero o resto….quero o Natal! Bj e até já

    • Olá Fátima,desde já queremos agradecer muito por este comentário. Que bom saber que está a gostar das nossas histórias! Hoje é dia de Natal, hoje continuamos esta história e introduzimos novas. Esperamos que continue a gostar e a dar-nos o seu feedback. Obrigada

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