Beatriz Pessoa: “O novo EP é uma mistura de tudo o que quero fazer”

Dona de uma voz celestial e de uma grande sensibilidade artística, Beatriz Pessoa está a apresentar ao país o seu segundo EP, chamado precisamente II. Autora e compositora dos próprios temas, que oscilam de forma subtil entre uma escola jazz e uma influência pop, Beatriz mostra seis novas canções, que são o reflexo de seis partes do seu todo artístico. Para percebermos este conceito, conversámos com ela numa soalheira manhã, no LX Factory.

 

Passou uma semana desde que lançaste o teu segundo EP. Que balanço é que tu fazes da percepção que as pessoas tem deste teu trabalho?

Fiquei muito surpreendida com a reação das pessoas, porque normalmente mandam só mensagem a dizer que gostaram muito e, neste segundo EP, recebi muitas mensagens a falar sobre cada tema: “Olha, gostei muito deste tema, por esta razão. E daquele tema”. Achei muito giro receber aquele feedback tão específico, e também gostei do facto de as escolhas das pessoas me terem surpreendido. A maior parte está a gostar mais de temas de que não estava à espera e que me surpreenderam, talvez por serem menos fáceis de ouvir. Fiquei surpreendida por isso.

Tu estudaste Jazz, no entanto as tuas canções têm um certo toque pop. Porquê esta deriva entre uma coisa e outra, que às vezes parecem tão opostas e tão distantes…

Eu sempre ouvi pop. O pop sempre fez parte da minha infância e da minha adolescência, e continua a fazer. Apesar de eu ter estudado jazz, acho que foi sempre uma coisa que ficou em mim. Nunca tive vergonha de o assumir; sempre ouvi e vou sempre ouvir pop. De certa forma, acho que foi uma mistura desses dois mundos. Também oiço jazz e mil e uma outras coisas, e acho que foi uma junção do jazz e daquilo que eu oiço, porque o pop acabou por ser uma escola com a qual eu cresci.

Não achas que há um certo preconceito entre as pessoas que cantam e ensinam jazz em relação ao pop?

Eu acho que cada vez há menos. Já houve, mas cada vez menos sinto isso. Até foram professores meus do jazz que me incentivaram a escrever música, fosse ela qual fosse. O mote aqui é fazer música. Tanto no jazz como na pop. Um bom professor não iria não incentivar a não compor algo por ser de outro género.

O importante é criar algo nosso…

Sim, e, mesmo que não seja nosso, dar um toque pessoal a uma música já existente. Acho que para compor não é necessário criar algo de raiz. Pode ser pegar nalguma coisa e reinventá-la.

Achas que o caminho que a Música está a ter neste momento é esse caminho de juntar realidades diferentes numa só?

Sim, acho que sim. Especialmente no jazz, acho que sempre aconteceu muito e sempre vai acontecer essa junção de música. E acho que isso é muito importante. Na verdade, para mim é uma forma muito interessante de fazer música, esta de olhar para as coisas e elas não estarem separadas em caixinhas. É importante gostar de um pouco de tudo, ou pelo menos ouvir um bocadinho de tudo.

Fala-me um pouco deste EP. Como surgiram as ideias para os temas, canções e como é que tudo se desenrolou?

Olha, eu estou sempre a escrever música. Por isso, quando chega a altura de selecionar, é caótico! Mas acabo por incluir músicas que me digam alguma coisa ou que quero partilhar com as pessoas. Que mexam com o público que me ouve. Acabam por ser as histórias que quero contar, como um escritor ou um cineasta fazem também. No outro EP, se calhar, houve mais a ideia do conjunto: serem três músicas que se vão complementando e que contavam uma história as três juntas. Neste EP talvez as músicas sejam mais individualistas. Há três músicas em português e três em inglês, mas não sinto que entre elas haja qualquer coisa que as ligue. É um EP que conta um pouco de cada parte de mim. Há músicas que vão entrar pelo jazz, outras que vão seguir as minhas influências brasileiras, outras em que sigo Björk ou um pop mais tradicional. É uma mistura de tudo o que quero fazer. A ideia foi criar um caminho cada vez mais fácil de decifrar até ao álbum. Quero chegar ao álbum com uma sonoridade mais completa e com mais confiança.

No fundo estas seis canções diferentes e estes seis caminhos diferentes és tu à procura da tua identidade.

Acho que sim! Não foi algo consciente. Não disse “olha, vou fazer isto”. Acabou por acontecer, e acho que isso se ouve no EP, essas sonoridades diferentes, partes de mim, o que acaba por ser o elo de ligação entre as músicas, essas tais histórias, todas minhas.

Em relação à escolha entre o português e o inglês, há alguma razão na base disso?

Em inglês, para mim, torna-se mais fácil criar uma personagem, porque, no fundo, estou sempre em personagem porque aquela não é a minha língua mãe. Enquanto, ao cantar em português, acaba por serem canções mais pessoais, porque sou eu, é intrínseco, é a minha língua, é a minha forma de falar, é o meu calão. Por isso, aí acaba por ser diferente. O tema Desconstrução, por exemplo, custou-me mais a escrever porque, de repente, estou a ouvir em português aquilo que estou a sentir e o que quero que as outras pessoas sintam, e acho que, se fosse em inglês, não tinha tanto esse impacto, nem comigo nem com alguém de nacionalidade portuguesa que esteja a ouvir a música. Eu comecei a escrever em inglês porque a parte standard do jazz, enquanto estudava, era o inglês, portanto, para mim sempre foi mais natural até cantar em inglês. Tive de me forçar a escrever em português, e agora até a maior parte das músicas que escrevo são em português. Foi um processo que não sei se vai dar a volta e vou voltar a escrever mais em inglês, ou mesmo em francês.

Essas canções que vais fazendo, em português, vão depois também para um possível álbum?

Eu ainda não estou a  preparar as músicas que vão para o álbum. Na verdade, estou sempre a escrever música, e depois há de chegar a altura em que o álbum estará em cima da mesa e aí faço uma colheita das canções, ou faço outras novas, consoante o que achar. Ainda no outro dia escrevi uma música e não foi com o intuito de um álbum. Por enquanto, estamos a aproveitar o lançamento do EP II. Agora no verão também vamos ter uma série de concertos, e só depois, mais tarde, é que vou sentar-me e organizar um álbum. Vou aproveitar agora também para assentar as ideias e perceber esse tal rumo de que falámos.

Eu vi também a tua agenda, sei que tens algumas datas para os próximos meses. Fala-me um bocadinho dos teus planos para o futuro.

A data que já foi anunciada foi o dia 13 de junho, no NOS Alive, que é uma data muito fixe! Eles vão fazer, no coreto, um dia feminino, onde são só artistas portuguesas e mulheres, e eu vou estar lá. Além disso, tenho concertos marcados no Ar Quente, em Faro, e vamos também a Famalicão, ao Porto. E vamos estar em Lisboa, antes do Alive, ainda numa data secreta.

A propósito desse dia dedicado às mulheres no NOS Alive, tu tens uma canção no teu EP chamada Feminina. O tema da mulher e este movimento feminista influenciou-te nesta canção?

Sim! Eu acho que talvez não tanto o movimento, mas acho importantes estas revoluções que se têm criado à volta desse tema. A minha iniciativa de escrever uma música como esta partiu mais do que é ser mulher e desligar a ideia de o feminino ser uma coisa mais frágil ou delicada. E assim, de repente, comecei a questionar-me porque é que o feminino ficou associado a esta ideia de ser o lado mais fraco. A verdade é que o feminino dá para os dois géneros; tu podes ser feminino, eu posso ser feminina, e isso está a ser visto de uma forma pejorativa. Eu nunca associei o “feminino” à fraqueza, ou mesmo porque é que a fraqueza é necessariamente uma coisa má. Há muitas questões que ainda me são muito desconhecidas, sobre as quais ainda quero pesquisar mais (como os transgéneros e transexuais, perceber de onde isso vem, o que todas essas pessoas sentem). São temas que estão muito em voga e acho que é importante estarem e falar-se sobre isso e entender essas pessoas.

Há um mês estiveste no Festival da Canção. Qual é o balanço que fazes dessa experiência?

Já foi há um mês? Ai, Jesus! (risos) Gostei muito, foi muito importante para mim ter trabalhado com a Mallu e com a Jéssica. A Mallu incluiu-nos imenso na escolha da música e no processo criativo. O Eu Te Amo era uma música que fazia sentido para mim e fazia sentido cantá-la nesta fase da minha vida. Depois, houve aquelas confusões todas [com a contagem dos votos], mas acho que, para nós, o que ficou foi fazer parte desta amostra que, na minha opinião, é muito fiel da música que se faz hoje em dia em Portugal. No backstage o ambiente era descontraído, tive a oportunidade de cantar com muitos artistas que admiro, fez-se muita música ali atrás das câmaras e isso para mim foi o mais importante. É um festival que tem muita história, e fazer parte disso é um orgulho. A verdade é que fiquei para a história, nunca ninguém se vai esquecer do que aconteceu (risos).

Vamos ouvir esse Eu Te Amo mais vezes? Num futuro EP ou disco?

Eu acho que a canção está a descansar. A canção é da Mallu, e não sei se ela vai pegar nela. A participação no Festival foi muito intensa, e, depois de momentos assim, é preciso refletir no que aconteceu. A música é muito bonita, portanto, espero que sim, que tenha vida no futuro. Mas não temos nada planeado. Efetivamente, a canção não é minha. Dei a minha voz, mas tem uma sonoridade muito “malluense”. E agora tive tempo para me concentrar no EP e retirar-me um bocadinho da atenção que foi o Festival.

Esta colaboração com a Mallu e com o Brasil é para continuar?

Espero que sim! Gostava de me internacionalizar. Sempre ouvi muita musica brasileira, e 40% dos meus ídolos musicais são brasileiros. Por isso, é um país com quem quero trabalhar, cantar com os seus artistas e, quem sabe, ir lá tocar. Tenho muito essa ambição.

Dessas influências de que falaste, quais são alguns nomes principais?

O Chico, o Caetano, a Elis Regina… Da malta mais recente, o Rodrigo Amarante, o Marcelo Camelo, a Mallu, o Cícero, o Moreno, os Velosos todos, o Zeca, a Gal Costa, o Milton, o Hermeto Pascoal, sei lá… Podia estar aqui o dia inteiro, oiço imensa música brasileira. A verdade é que o estudo do jazz cá em Lisboa passa muito pela música brasileira. E a verdade é que eu adoro, são ritmos que aquecem imenso!

A última pergunta é um bocadinho difícil… Qual é o maior sonho da tua vida?

Ui… Gostava de poder fazer sempre música e, se calhar, fazer só música. Ou seja, ser esse o meu trabalho. É um pouco difícil fazer isso, e não é só em Lisboa. É injusto quando nos concentramos só no nosso país e nas nossas dificuldades. É difícil estar no mundo das artes, dentro e fora da Europa, embora haja um grupo de pessoas que consegue fazer isso, porque acabam por estar em circuitos mais comerciais. Sinceramente, gostava de conseguir também, e para mim isso seria um sonho. Queria que houvesse mais investimento financeiro na cultura. A verdade é que, para nós, o nosso privilégio é que não vemos isto como um trabalho. O que fazemos é uma coisa constante e é frustrante não ser considerado um trabalho. Era um sonho para mim, e para os meus pais também, porque ficam nervosos. Além disso, quero muito ser fiel à música que quero fazer, o que às vezes é difícil devido a isso mesmo, à pressão de seguir outro caminho. E gostava de ter uma carreira internacional. Gostava de ir ao Brasil, aos Estados Unidos, uma tour europeia. De resto, quero surpreender-me e surpreender os outros. Agora, por exemplo, comecei a pensar em escrever uma sinfonia, em tocar com uma big band e escrever um arranjo.

Escute o EP de Beatriz Pessoa:

Fotos: Joana Linda

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