Francisco Murta: “o jazz faz parte de mim”

Na primeira tarde de sol ao fim de inúmeros dias de chuva, o ARDINAS 24 sentou-se à conversa com o descontraído Francisco Murta. Não foi a primeira vez que o fizemos (já tínhamos estado com ele há precisamente um ano), mas desta vez havia um motivo especial: o lançamento de Sentido, o primeiro single do cantor. Com este tema bem disposto e descomprometido, o jovem intérprete e compositor espera mostrar aos portugueses uma faceta diferente daquela que conhecemos no “The Voice Portugal”, onde foi vice-campeão.

 

Como correu a tua passagem pela televisão, no programa “The Voice Portugal”?

Correu muito bem! Já fez um ano e foi uma experiência incrível. Foi uma alavanca para a minha carreira e deu-me uma projeção gigante. O programa fez com que, no ano passado, tivesse mais de 50 concertos – uma cena estúpida – também porque eu apostei muito nas apresentações ao vivo. No fundo, o programa foi a afirmação da seriedade com que eu tinha de olhar para a música.

Esses concertos que deste foram com covers?

Sim, covers só. Só agora, em março, é que lancei o meu primeiro single – o Sentido.

E como é que foi todo o processo de criação deste tema? De onde vieram as ideias?

Este tema foi escrito na altura do verão, e por isso é que se sente aquela vibe mais tranquila, muito leve e chill. Esta é uma vertente minha que não mostrei no programa; o meu lado de simplesmente cantar e curtir a cena! Cantei sempre temas com uma carga emocional muito grande, como os grandes clássicos, e estava-me a pôr na pele de grandes nomes. Desta vez, com o meu primeiro single, quis fazer algo diferente. O tema foi desenhado com o intuito de não pensar na letra como se fosse um poema do Fernando Pessoa; não estou a tentar passar uma filosofia minha, embora queira muito passar uma mensagem. Afinal, fui eu que escrevi a letra e tenho algo a dizer com ela. Esta canção fala de algo que me aconteceu ao acaso e sobre a qual eu quis escrever. Achei um tema engraçado. A canção está simples e direta, e era isso que eu queria alcançar. Quando ouves o tema, aprecias mais a vibe do que a letra. Era essa a minha ideia. 

Falaste de que no “The Voice” interpretaste outras coisas diferentes daquilo que este single é. Achas que no “The Voice” ficámos com uma imagem diferente daquilo que é o Francisco na realidade?

Adoro essa pergunta! Nunca me tinham perguntado isto e eu queria muito que o fizessem! (pausa) O Francisco é um rapaz muito versátil… Tão versátil que pode ser prejudicial para a carreira dele, percebes? O que viram no “The Voice” é uma das minhas partes, que verão, também, em originais meus. Eu escrevo temas também como aqueles que cantei no programa. O meu instrumento mais forte é o piano, por isso tem tudo a ver com o que ouviram no concurso, mas a questão aqui é que eu queria descolar-me um pouco do “The Voice”. O que viram lá não é propriamente como eu quero ser reconhecido na totalidade. Quero tentar mostrar outro lado de mim – uma face mais tranquila. Acredito que, se juntarmos um bocadinho do “The Voice”, um bocadinho do meu single, um bocadinho de outros temas, estou eu representado por completo.

Mas, no programa, esse teu lado mais soft não apareceu porquê? É a televisão que te impõe uma seriedade acrescida?

Não… Aqueles eram os temas que eu sentia que faziam sentido. Primeiro, um programa de televisão é isso mesmo, e por isso tens toda uma produção contigo. Felizmente, fui dos poucos a quem a produção não impôs nada; tenho o prazer de dizer que tive sempre a liberdade para dar a minha opinião relativamente àquilo que eu fazia em palco e fui sempre ouvido, o que foi ótimo (e talvez por causa disso tenha chegado tão longe). Tentei sugerir uns temas mais eletrónicos, mas sugeriram que eu me mantivesse nos clássicos… e resultou!

Muitos artistas que participam nesse tipo de programa fazem um balanço e arrependem-se um pouco de lá terem estado… Já percebi que tu não.

Não, não mesmo! Não me arrependo nada! Aprendi tanta coisa… Estes programas têm o seu lado bom e o seu lado mau. Se fores para o programa e não tiveres notoriedade nenhuma, é mau – ficas marcado como uma pessoa que foi ao programa e não retirou nada dele. Para mim, isso não fazia sentido. E ter ido foi muito bom! As coisas que eu já fiz por causa do programa… foi incrível! O que é difícil é descolar-nos dessa imagem, e, quando não ganhas, é muito difícil o pós-programa. Quem ganha tem, depois, todo o apoio para se lançar enquanto artista. Já o segundo lugar, apesar de ter tido também muita notoriedade, não beneficia dessa ajuda. Mas faz parte e, apesar de ser um caminho mais atribulado, é isso que te faz trabalhar mais. Acredito que, se estás destinado à música, acabas por lá chegar, e terás ou mais mérito, ou mais maturidade, porque tiveste de te esforçar mais.

E também assim aprendes mais…

Claro. No fundo, o que acontece é que todo o caminho demora mais. Quem não ganha tem de lutar muito. E isso é ótimo! Tenho 19 anos ainda, por isso tem valido a pena por tudo o que aprendi.

E quais têm sido as maiores dificuldades que sentiste até teres, hoje, este single na mão?

Encontrar as pessoas certas para trabalhar comigo. Sou uma pessoa muito perfecionista, e odeio faltas de profissionalismo. Odeio pessoas que não tenham vontade de fazer o seu trabalho e não tenham brio naquilo que fazem. Preciso de pessoas ao meu lado que trabalhem com vontade, com disponibilidade psicológica e com criatividade. E nunca pensei que fosse tão difícil encontrar isso, sabias? Felizmente encontrei a Music In My Soul, e a partir daí foi sempre a subir.

Amanhã tens um showcase muito especial na estação de Metro do Cais do Sodré. O que podemos esperar deste concerto num local tão invulgar como este?

Estou muito esperançoso com isso (risos). Não estou à espera de que esteja lá muita gente; é um metro, as pessoas estão a passar desejosas de ir para casa – é às 18h – mas estou esperançoso de que vá ser incrível! Aceitei o desafio do Metropolitano de Lisboa e pensei que Portugal precisava disto. No meio de uma estação de metro, um concerto num formato como este – guitarra e trompete – vai de certeza criar um ambiente incrível, muito casual. Só espero que as pessoas adiram, porque vão ser 20 minutos que valerão bem a pena. Vai ser um momento de descontração. As pessoas vão mais felizes para casa!

Que canções vamos ouvir amanhã? O single e mais temas novos?

Não, originais meus não, porque ainda não estão lançados. Mas vou tocar o Georgia On My Mind, num formato diferente, entre outras canções. Vai ser fixe!

E daqui a um mês tens mais um concerto, esse de maior dimensão…

E de produção própria, que será no Auditório Carlos Paredes, a 21 de abril. Isto significa que as pessoas vão comprar bilhete para me ver, o que me deixa já nervoso (risos).

Aí também se mede o feedback das pessoas em relação ao teu trabalho.

Exatamente. Muito feedback mesmo. Só espero que esgote e que tenhamos até de abrir outra data! Isso deixar-me-ia muito feliz. Não posso prometer a apresentação de canções novas nesse espetáculo, apesar de elas já estarem acabadas e de eu querer muito lançá-las. No entanto, eu e a editora temos um plano bem definido para os próximos meses e queremos que este single tenha destaque e seja ouvido por várias pessoas. Depois, sim, lançamos mais canções.

Vai ser um ano, então, bastante preenchido para ti?

Sim, vai ser um ano com bastante trabalho para mim. Vou ter bastantes atuações, embora eu queira mais! Por mim, fazia concertos todos os dias e lançava coisas novas frequentemente. Neste aspeto tenho uma mentalidade muito anglófona; na Inglaterra ou nos Estados Unidos lançam-se temas todos os dias, fazem-se parcerias… É um dinamismo completamente diferente. Não há nada a prender. A música é arte e, como tal, deve ser solta e livre. Em Portugal, infelizmente, esquece-se muito isso.

Além destes dois concertos (o de amanhã e o de abril), tens mais datas para anunciar?

Temos já algumas datas agendadas, mas não posso comunicar já. São espetáculos que vão acontecer no verão. E tenho o privilégio de ter sido convidado por um grande nome mundial para tocar num evento produzido por ele. A seu tempo saberão!

Posso perguntar-te, quase em jeito de conclusão desta conversa, qual é o grande sonho da tua vida?

Eu tenho muitos grandes pequenos sonhos. Mas há dois que se destacam. Primeiro, quero muito chegar ao maior número de pessoas possível. Quero chegar ao mundo inteiro e poder ser um artista internacional. Quero muito poder fazer uma tour europeia e ter reconhecimento por isso. Depois, gostava muito de poder dar à minha família uma maior tranquilidade económica. Adorava poder chegar ao pé deles e dizer que não iam ter de trabalhar mais o resto da vida.

O teu primeiro sonho – o de ser muito reconhecido – é curioso, tendo em conta a tua proveniência da escola jazz, um estilo onde nem sempre existe grande notoriedade…

Acho que já houve menos notoriedade. Em rigor, o jazz já foi aquilo que a pop é hoje. Na altura do Frank Sinatra, o jazz lançava estrelas mundiais, e ele próprio é exemplo disso. Toda a gente no mundo sabe quem ele é, ou a Ella Fitzgerald, ou o Chet Baker, que é uma das minhas maiores inspirações. Depois, a popularidade do jazz caiu, entretanto voltou graças às novas tecnologias e a uma nova interpretação do estilo, e hoje está presente em praticamente, posso garantir, 80% das músicas que se fazem. Cada vez mais, hoje em dia, procuram-se grandes músicos, grandes criativos, e eles sabem que o jazz é a solução para tudo. O jazz é um lifestyle. Não se explica: sente-se. É uma filosofia que constitui uma solução para tudo – afinal, a base do jazz é a improvisação. Eu adoro fazer jazz e hei de tocá-lo a vida inteira. Faz parte de mim.

Foto de capa: Gonçalo Esteves Coelho / ARDINAS 24
Fotos do artigo: MIMS – Music In My Soul

Sobre Gonçalo Esteves Coelho 313 artigos
Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto. Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História. Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.