João Afonso: “a minha cultura musical é muito Zeca Afonsina”

Nascido numa família onde as cantigas eram uma constante, João Afonso não poderia ter-se tornado outra coisa senão músico. O seu apelido remete-nos automaticamente para a mais forte das influências artísticas – o tio Zeca Afonso. Cantor, músico e compositor, João vai participar na segunda semifinal do Festival da Canção 2018, este domingo, enquanto criador de um dos temas concorrentes.

O pai cantava, o tio também. A música sempre teve grande importância na família Afonso, e isso definiu de imediato o rumo que iria seguir a vida do jovem João. “Apesar da minha atração pela terra, e daí ter estudado Agronomia Tropical, a música sempre foi para mim uma forma de respirar e talvez ultrapassar uma certa timidez”, explica-nos o músico, numa conversa em exclusivo com o ARDINAS 24. O que mais o inspira é, claramente, o tio Zeca.

“Foi um tio muito especial, e guardo para mim boas recordações. Tenho imensas saudades dele, do seu humor e do seu sorriso. As canções de José Afonso sempre me acompanharam, a mim e aos meus irmãos”, recorda João, que se recorda particularmente do “momento mágico” que se vivia quando chegava um disco novo de Zeca Afonso: “no hall da nossa casa, cantávamos as cantigas do meu tio com a guitarra do meu irmão Zé. Há uma canção ‘escondida’ no meu disco ‘Um redondo vocábulo’ comigo em miúdo a cantar uma canção do meu tio”, partilha.

São estas memórias que o levam a ter, ainda hoje, uma “cultura musical muito Zeca Afonsina”, que, segundo o próprio, provém da “criatividade, exigência poética e música e o dom interpretativo” de um dos maiores ícones da música nacional. Mas ser sobrinho de quem é deposita algum peso a mais nos ombros, no momento de criar canções novas e defendê-las junto do público? “Tento não sentir essa responsabilidade, até porque não me posso comparar com o grande compositor e cantor José Afonso. Sinto principalmente uma grande honra e orgulho. E sinto que sou privilegiado por ter o mesmo sangue a correr-me nas veias. Esta é uma herança excepcional”, explica João Afonso.

Aos 53 anos, o músico, nascido em Moçambique, prepara-se para viver uma nova e inusitada aventura: a participação no Festival da Canção, este domingo, como compositor da canção Anda Daí, interpretada pela cantora Rita Ruivo. “O Festival da Canção é um desafio”, começa por dizer João Afonso, que depois acrescenta: “quando cheguei de Moçambique, via o Festival da Canção com a família e, entre irmãos e primos, divertíamo-nos a dar valores às canções”, lembra. E, devido à nova aura que o concurso da RTP adquiriu, é “com muito prazer” que aceitou o convite da estação pública para participar na edição deste ano. “Quando o Nuno Galopim me convidou, não hesitei um minuto. Pensei no universo de qualidade que, quanto a mim, o último Festival trouxe, e abracei o desafio”, admite.

O seu tema resulta de um trabalho de equipa: Moz Carrapa é o autor da letra, Miguel Fevereiro é o arranjador, Filipe Rocha na bateria e no baixo, e João Cardoso nas teclas. João Afonso promete um tema alegre e uma alusão à liberdade, com um refrão forte que “dá vontade de cantar”. Mas essa responsabilidade fica essencialmente a cargo de Rita Ruivo, a sua intérprete: “quando me apresentaram, fiquei com a certeza de que era a pessoa certa. Uma voz bonita com sentimento”, diz.

Enquanto se espera por domingo à noite ou, quem sabe, pela participação na Eurovisão, em maio, João Afonso não vai estar parado e continua a preparar o seu próximo disco (o sétimo da sua carreira) e a trabalhar noutros projetos em que se envolveu. Depois? “Apenas sei que vou continuar a fazer aquilo de que gosto: a tocar e a cantar por aí”, promete.

Foto: RTP

Sobre Gonçalo Esteves Coelho 358 artigos
Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto. Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História. Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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