[Entrevista] Peter Serrado, do Canadá para o Festival da Canção

Com a guitarra na mão, companheira inseparável de uma vida de 25 anos, Peter Serrado deixou o Canadá para rumar a Portugal. Na bagagem, levou um sonho: vencer o Festival da Canção e representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção. Este luso-canadiano foi uma das escolhas surpresa da RTP para a edição deste ano do concurso, e vai dar-se a conhecer aos seus compatriotas no próximo domingo à noite.

Não é apenas de grandes nomes e extensas carreiras que se faz o Festival da Canção deste ano. Depois do sucesso de Salvador Sobral no ano passado, a RTP quis abrir as portas do seu concurso a todos aqueles que, tendo talento e uma boa canção para mostrar, quisessem concorrer à competição. O apelo à participação de todos os interessados atravessou o oceano, e atingiu em cheio o coração de Peter Serrado, um jovem de 25 anos, nascido no Canadá, filho de pais portugueses. O músico não perdeu tempo – pegou na guitarra, namorou com ela e daí saiu a canção Sunset, que vai defender na próxima noite de domingo, na televisão pública.

“Sempre foi um sonho poder atuar no Festival da Canção, subir ao palco para representar Portugal na Eurovisão”, começa por contar-nos o jovem, cujos pais acompanham desde sempre o programa e a ele passaram o bichinho. “Uma das músicas que me vem à memória é Chamar a Música, que teve muito sucesso em Toronto nas rádios portuguesas, e lembro-me de ouvir os meus pais a cantarem essa canção para mim quando eu era pequeno”, lembra Peter. Desde aí, ficou instalado o sonho de, um dia, fazer parte do evento, principalmente o português: “A Eurovisão seria um bónus, mas estar no Festival da Canção já é bom sinal”, admite.

A canção de Peter Serrado foi escolhida entre mais de 300 que foram enviadas para a RTP. Por isso, tem um gosto especial ter sido um dos dois selecionados pela estação: “sinto-me muito contente por o meu trabalho ter sido valorizado”, especialmente num ano em que o Festival está repleto de “compositores e intérpretes de alta classe e experiência”.

E o que podemos esperar de Sunset? “É uma música sobre tomar poder na nossa vida. Fugir dos problemas da nossa vida, das pessoas que nos põem em baixo e pensar em grande, para sairmos para um sítio mais tranquilo, com oportunidades”, explica Peter, que promete uma canção com um som “muito orgânico, simples e contagioso”.

Para Peter, a participação no Festival tem ainda um outro lado positivo: a oportunidade de cantar no país de origem da sua família. O cantor tem feito música em Toronto desde os 18 anos, tanto para pequenas plateias como em grandes eventos – festivais e aberturas de concertos para grandes artistas, como Xutos & Pontapés, Shawn Desman ou Keshia Chante – e inclusivamente gravou já um disco, ao mesmo tempo que vai compondo temas para outros artistas locais. Mas atuar em Portugal tem outro significado, e o entusiasmo sente-se na forma como fala desta experiência: “estou tão feliz de ser parte do Festival da Canção”, confessa.

O que o futuro tem reservado para Peter é algo que ele próprio não sabe – pode perfeitamente atuar na Eurovisão, em maio, como representante de Portugal – mas o certo é que tem “a vida feita” no Canadá, pelo que andaria sempre entre um lado e o outro do Atlântico. O Canadá é onde toda a sua estrutura assenta, mas Portugal é um país especial: “adoro o país, a gastronomia, a cultura, a história, as pessoas… É um país realmente maravilhoso e sinto muito orgulho de ser português”.

Peter reconhece que nunca foi prejudicado no Canadá por ter dupla nacionalidade; aliás, a sua condição até o ajuda: “tenho vantafem porque posso tocar para a comunidade portuguesa em Toronto, como posso também tocar nos bares canadianos”, explica. O importante é “trabalhar muito e procurar formas de chegar lá acima”, o que pode ser difícil para quem deseja ser músico.

Este cantor de “soul/rock com tons de blues“, cujas inspirações musicais passam por Joe Cocker, Bruce Springsteen, Bryan Adams ou Paolo Nutini, vai começar a preparar o seu novo disco, deixando a porta entreaberta para o que puder surgir com a sua participação no Festival da Canção. A três dias de pisar o palco, admite estar “com nervos positivos e ansioso”, mas ao mesmo tempo “feliz por ter mais uma oportunidade para subir ao palco” e fazer aquilo que mais gosta de fazer.

Foto: RTP

Sobre Gonçalo Esteves Coelho 351 artigos
Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto. Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História. Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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