[Entrevista] Susana Travassos, a “Mensageira” de Aline Frazão no Festival da Canção

A segunda semifinal do Festival da Canção acontece no próximo domingo à noite, em direto, na RTP1. Novamente, serão 13 as canções participantes e que lutarão pelos sete lugares ainda em aberto na grande final do concurso, em Guimarães. Entre os aspirantes a essa vaga está Susana Travassos, uma cantora de Vila Real de Santo António cuja voz e musicalidade já atravessaram o Atlântico. 

A música de Susana Travassos, um sedutor embalo proveniente da fusão da música portuguesa com brasileira, tem sido mais escutada na América Latina do que propriamente em Portugal. A cantora já tem dois álbuns editados, e as suas canções conquistaram, no outro lado do oceano, um público seguidor, admiradores e respeito por parte da imprensa e de colegas com quem vem partilhando o palco, como Yamandu Costa, Toninho Horta, Chico Pinheiro, Chico César, Chico Saraiva e Zeca Baleiro. O amor por estas paragens e sonoridades vem de há muito tempo.

“Acho que sempre tive fascínio pela diferença e creio que alguns elementos da minha vida já ajudavam a prever este caminho”, explica a cantora algarvia, que pormenoriza: “Sou de Vila Real de Santo António, uma cidade que faz fronteira com a andaluzia, rodeada por água, por horizonte… Uma outra língua, o castelhano ali ao lado e o horizonte que delimita o desconhecido e o mistério, impulsos para partir”.

O avô tinha uma grande paixão pelo Tango e pelo Gardel e, como que por acaso, Susana acabou por ser convidada a atuar no Brasil, em 2009. “Lá, as pessoas foram tão receptivas ao meu canto, vi-me rodeada de tantas possibilidades, de tantos encontros furtuitos, que, quando dei por mim, tudo isso ajudava a formar uma cantora”, explica a artista, que por isso considera ter “um estilo próprio”, que vagueia entre o Fado, o Jazz e o Bossa Nova.

Mas Susana também afirma que quer “poder cantar de tudo”, algo que conseguiu fazer no último CD que lançou, e que foi gravado em Buenos Aires. E, também nessa lógica, surge a participação no Festival da Canção, que acontece já este domingo, perante os olhares atentos de milhares de portugueses.

“Nunca foi algo em que eu imaginava participar”, confessa Susana, que recorda ter, há uns anos, deixado um CD com algumas canções suas na RTP, algo que, contudo, não teve grande sequência. Mas, agora que está a dias de subir ao palco, admite estar “feliz por participar, feliz com o convite da Aline”.

Susana Travassos vai interpretar a canção Mensageira, que foi composta e escrita por Aline Frazão – “uma amiga, compositora que admiro muito”. Por isso, quando recebeu o convite desta última, Susana aceitou de imediato a ideia de participar no Festival. “Nos últimos tempos tenho sonhado muito com a proximidade dos palcos portugueses, enorme desejo em cantar na minha terra para a minha gente. Achei que seria uma linda maneira de dar passos nesse sentido”, admite Susana.

Sobre a sua canção, a artista descreve-a como “misteriosa, linda, doce e nostálgica”, com uma letra que “fala de partida, de despedida”. Susana sentiu-a como sua logo assim que a ouviu, até porque esse momento coincidiu com um período menos feliz da sua vida: “a Aline enviou-me quando a minha avó estava no hospital… arrepiante como aconteceu, o que diz… aí tive a certeza de que essa canção era para mim e seria a homenagem à minha princesa Eduardinha… ela que adorava a minha voz…”, lembra, emocionada.

Susana sente-se em paz a poucos dias de pisar o palco dos Estúdios da RTP, em Lisboa. Enquanto não chega o grande dia, vai dando atenção aos seus outros projetos: o lançamento do seu terceiro CD de originais (também ele gravado em Buenos Aires), a exibição do DVD de homenagem à compositora Ana Terra, que gravou com o Canal Brasil, um CD em parceria com Jean Charnaux e também um projeto musical em parceria com o pintor/escultor italiano Tony Cassanelli, onde aproxima-se o traço e o som, a pintura e a música, e que conta com a participação de outros aritstas. Em julho, a cantora participará no Festival Músicas do Mundo, em Sines, com o seu novo projeto Pássaro Palavra.

Planos abundantes para um futuro que se crê luminoso, tal como tem sido a sua carreira até agora: “sinto-me muito realizada. Apesar das adversidades e dificuldades do meio, eu fui sempre fiel aos meus princípios musicais”, diz a artista, que destaca ainda o facto de ter estado rodeada “sempre por profissionais de excelência e de enorme valor humano”.

 

Fotos: RTP

Sobre Gonçalo Esteves Coelho 351 artigos
Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto. Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História. Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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