Kosovo: há 10 anos começou a nascer um país

Há precisamente 10 anos abriu-se uma ferida que está ainda longe de sarar. A 17 de fevereiro de 2008, a Assembleia do Kosovo declarou a independência da região face à República da Sérvia, com 109 votos favoráveis em 120 possíveis. Aquele que foi um dia histórico para a população kosovar e para os vizinhos albaneses foi, em simultâneo, um dia negro para os sérvios, que ainda hoje se recusam a aceitar – tal como largas dezenas de países do mundo – a autodeterminação da sua antiga província. Este é um breve retrato do Kosovo, 10 anos depois.

A euforia encheu as ruas de Podgorica naquele dia 17 de fevereiro. Festeja-se a tão desejada independência do Kosovo, que já havia sido tentada, sem sucesso, na mesma altura em que a Jugoslávia se desfragmentou, no início da década de 1990. A pressão exercida por Belgrado sobre os ânimos independentistas do Kosovo resultou no estado de guerra que, nessa década, derramou sangue sobre o solo kosovar. A guerra começou em 1999 sob a orientação das Nações Unidas, que atacaram o governo de Belgrado para que este iniciasse um diálogo de paz com o Kosovo.

Durante todo este período, a corrente independentista inflamou-se e teve tempo de amadurecer, nacional e internacionalmente, esta ideia de separação da Sérvia. Tentou-se um acordo entre os dois governos para que o Kosovo recebesse uma progressiva autonomia, mas nunca se alcançou consenso e o desfecho foi definitivo. De facto, quando ele aconteceu, ficou claro que não haveria volta a dar – a Sérvia iria realmente perder uma parte importante do seu território, onde, afirmam os sérvios, assenta boa parte da sua identidade nacional.

A declaração de Independência do Kosovo, nas mãos de Joe Biden, ex-vice Presidente dos EUA.

 

Independente ou não?

É na Sérvia que reside, ainda hoje, o maior entrave à completa autodeterminação do Kosovo. De facto, este país, o maior dos Balcãs, não aceita o Estado independente do Kosovo, e muitos outros países decidiram alinhar pela Sérvia e negar a existência autónoma da região. Trata-se de países como a Rússia (uma já antiga aliada da Sérvia), a Espanha ou a China – no fundo, países que lidam constantemente com movimentos separatistas dentro das suas fronteiras, como é o caso da Catalunha, o País Basco ou o Tibete.

Dois meses depois da declaração de independência, o Kosovo já possuía uma constituição e planos para a nomeação de um governo que fosse representativo das etnias que compõem o país – que se divide, basicamente, entre um forte grupo de origem sérvia e outro de origem albanesa. A independência só fez acentuar a divisão interna entre estes dois blocos, com o albanês a ser fortemente ativo na defesa de um Estado independente.

No entanto, externamente, a validade da declaração de independência do Kosovo só chegou no verão de 2010, quando o Tribunal Internacional de Justiça reconheceu que a autodeterminação do país não violou a lei internacional. Mas tal decisão não serenou os ânimos dos sérvios, que foram mantidos na linha pela maior intervenção da União Europeia na moderação das relações entre a Sérvia e o Kosovo. De facto, Bruxelas, apoiada pela ONU, esforçou-se por criar condições para um diálogo saudável e produtivo entre os dois países, que de facto foi responsável por um momento histórico: em 2013, todas as instituições sérvias que ainda existiam em território kosovar foram abolidas, e embaixadores de ambos os países cruzaram fronteiras pela primeira vez.

Enquanto tal acontecia, do estrangeiro vinham chegando as posições dos diferentes países quanto à independência do Kosovo. Ao todo, 116 Estados reconheceram o novo país, entre os quais os Estados Unidos, o Reino Unido, a Turquia ou o Japão; dentro da União Europeia, e além de Espanha, só a Grécia, a Roménia, a Eslováquia e o Chipre não aceitaram. O governo português reconheceu a independência do Kosovo a 7 de outubro de 2008.

Pristina, a capital do Kosovo.

 

Kosovo, 10 anos depois

Em Pristina, a capital, está sediado o governo kosovar, que ainda se multiplica em esforços para conquistar o tão desejado reconhecimento externo. O último país a fazê-lo foi Barbados, há apenas dois dias, mas há ainda mais de uma centena de países que se recusam a ver um Kosovo separado da Sérvia. Difícil será convencer países como Espanha (que ainda se refaz da recente crise na Catalunha), China, Índia (cujo território é uma espécie de manta de retalhos de pequenos, mas muito populosos, Estados) ou Rússia.

A aproximação à União Europeia é uma realidade, mas a verdade é que, tanto pela falta de apoio de outros Estados-membros, como pela falta de condições internas (existe ainda muita corrupção e desigualdade), dificilmente o Kosovo será um candidato credível ao bloco dos 27. Além disso, e por causa de muitos bloqueios impostos por países que falham em tê-lo como Estado, o Kosovo apresenta taxas de desemprego verdadeiramente assustadoras – mais de 60% dos jovens não tem emprego, o que se torna mais grave ainda se tivermos em conta que metade da população kosovar tem menos de 25 anos.

 

São inúmeros os desafios que se impõem ao Kosovo – o que os espera nos próximos 10 anos, tendo em conta que nesta década que passou conseguiram o que muitas regiões não conseguiram ter?

Fotos: Wikimedia

Sobre Gonçalo Esteves Coelho 363 artigos
Sou um poço de contradições. Não gosto de falar mas sou jornalista. Adoro escrever mas cada vez leio menos. Sou sereno mas não consigo resistir a soltar a minha alegria quando escuto música popular. Não gosto do calor mas adoro o mar português, a sua frescura, o seu sal, as histórias que tem para nos contar. Odeio tomar decisões e, no entanto, sou o CEO deste projeto. Nasci em Lisboa, há 21 anos. O meu coração, vermelho e verde, bate por Portugal e por todos aqueles em cujas veias corre igual amor a este país, à nossa gente, à nossa cultura. Vivo perto de Sintra, esse livro de História a céu aberto, em cujos recantos gosto de me perder. Adoro museus, palácios, castelos e igrejas. Regressei ao Ensino Superior e lancei-me numa nova aventura, sem a qual não conseguiria realizar-me totalmente: o estudo da História. Em pequeno, havia quem me dissesse que iria ser jornalista. Também me diziam que deveria ser professor de História e que tinha tudo para ser um novo José Hermano Saraiva. Se calhar sou muito transparente naquilo de que gosto, ou então essas pessoas conheciam-me muito bem. Acertaram. O que virá depois eu não sei. Escolha que caminho escolher, terei de ser eu próprio. Sempre.

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