“The Post – A Guerra Secreta”: o jornalismo como guardião da verdade

O jornalismo de investigação já foi várias vezes motivo de inspiração em Hollywood. Filmes como “Os Homens do Presidente” e “Spotlight” são dois exemplos de narrativas onde podemos ver o jornalismo retratado como a principal arma contra ações criminosas. Em “The Post”, Steven Spielberg pegou numa fórmula já utilizada e renovou-a, com a ajuda de um par de verdadeiros “titãs” da representação – Meryl Streep e Tom Hanks.

O filme retrata a luta levada a cabo pelo jornal americano Washington Post, numa tentativa de expor as falsidades do governo americano sobre a guerra do Vietname. Em 1971, o jornal publicou os “Papéis do Pentágono”, apesar de ter sido alvo de uma ameaça legal para que não o fizesse. O jornal avançou com a publicação de uma série de peças jornalísticas baseadas num estudo que revelava a incapacidade de a América sair vitoriosa do território vietnamita. Ainda assim, tendo acesso a estes dados, diferentes governos americanos decidiram continuar na guerra, sacrificando vidas humanas e recursos económicos.

A decisão arriscada de publicar partiu do editor Ben Bradlee (Tom Hanks) e da proprietária do jornal Kay Graham (Meryl Streep). No filme, assistimos às conversas entre os dois, umas num clima mais aceso do que outras, que levaram eventualmente à decisão final de avançar com a publicação, contra tudo e contra todos.

Na primeira parte do filme, a narrativa desenrola-se a um ritmo bastante lento. É-nos apresentada a redação do Washington Post, a sua rivalidade com o New York Times e as dificuldades que podem surgir no futuro do jornal. A par disso, temos acesso a pequenos vislumbres da vida da proprietária Kay Graham, que chegou ao cargo depois do seu marido falecer de forma trágica. Kay Graham é interpretada por Meryl Streep e é a personagem mais bem construída em todo o filme. É a personagem cuja evolução acontece diante do espectador. Kay Graham protagoniza as inseguranças de ser a única mulher numa direção e a dificuldade em tomar as rédeas da sua própria empresa, algo que podemos vê-la superar da melhor forma, no final.

A segunda parte do filme é claramente superior, mais agitada e capaz de criar alguns picos de ansiedade. Toda a investigação que permitiu o acesso aos documentos, o processo de análise desses mesmos documentos e o impasse entre publicar e não publicar são retratados com um suspense exemplar. Steven Spielberg consegue criar uma dinâmica muito boa entre a ação das personagens no momento e aquilo que se passa noutro lugar – por exemplo, a espera na redação pelo artigo completo, seguida pela espera pela correção do artigo e pela espera no local de impressão do jornal. O decorrer dos acontecimentos, principalmente na fase final, dá ao espectador a necessidade de ficar a torcer pelo sucesso das personagens. Ainda que muitas destas personagens não tenham sido desenvolvidas ao longo do filme, damos por nós a querer que sejam bem-sucedidas – isso deve-se, sem dúvida, à forma como a história apela ao nosso sentido de justiça.

“The Post” traz saudades daquilo que em tempos foi o jornalismo de investigação. Para qualquer jornalista ou aspirante, o filme é sem dúvida um must see, uma vez que consegue transmitir aquilo que é o processo de criação de um artigo baseado em documentos com informação sensível.

O filme é eficiente naquilo que promete, mas sofre um pouco com a lentidão da narrativa que se propõe contar. O que melhor lhe assenta é sem dúvida a prestação de Tom Hanks e Meryl Streep, que mais uma vez não desiludem. Meryl Streep está, inclusive, nomeada para o Óscar de Melhor Atriz pelo seu papel como Kay Graham.

“The Post” está ainda nomeado para o Óscar de Melhor Filme mas não é apontado como um dos favoritos.

 

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