Mario Vargas Llosa: o homem que guarda um nobel e tem um novo livro

O Nobel da Literatura peruano Mario Vargas Llosa esteve em Lisboa a apresentar o seu novo Romance, Cinco esquinas, no auditório Almada Negreiros do CCB.

O homem que confessa gostar muito de escrever sobre o seu país, mas sente-se em casa onde puder escrever. 

Aos 80 anos viaja muito e responde rapidamente à pergunta “como se sente com a idade?” com: “um jovem!”.

“Acho que as pessoas envelhecem a partir do momento em que começam a esperar pela morte”. Para ele A morte deve ser acidental: “acredito que devemos viver como se nunca morrêssemos e ela vem simplesmente interromper isso”, diz como quem sabe do que fala.

O segredo: manter sempre o espírito aventureiro.

Sobre ter sido Prémio Nobel disse: “tive uma semana fabulosa e um ano que foi um inferno”. À semana das festividades em que todos se reúnem e o ambiente é fantástico seguiu-se um ano cheio de pressão: tinha de ir a muitos sítios, a muitas entrevistas, participar em muitos congressos e eventos. Além disso, o pior, tinha muito menos oportunidades para escrever.

Em relação ao que está a escrever neste momento há ainda pouco que possa adiantar mas não será um romance, até porque não gosta de escrever muitos seguidos, e sim um ensaio que explora as questões da influência da cultura na vida política e da política na cultura.

Falou sobre a juventude em França

Chegou a França em 1959 – em plena Nouvelle vague – enquanto ainda estavam vivos grandes nomes como Jean-Paul Sartre e Albert Camus.

Ao ouvir os franceses, com quem se apaixonou pela democracia, recorda uma felicidade intelectual imensa. “Expressavam-se com tamanha elegância…”, diz em tom de confissão. Conta que ganhou o espírito democrático inspirado por aquela atmosfera em que todos se envolviam e participavam ativamente na política.

Foi neste centro europeu “à altura dos meus sonhos” que descobriu, com Gustave Flaubert, que escrever era fundamentalmente um trabalho. 

 Flaubert foi, diz sem grandes dúvidas, um dos autores que mais o marcaram.  Era um homem sem talento que “edificou o seu talento com perseverança, esforço e exigência”. 

“Eu próprio descobri que não tinha talento e isso foi muito frustrante”, mas conseguiu ir construindo um talento de raiz, crescendo e descobrindo-se constantemente. “Acho que evoluí com continuidade”.

Falou sobre política

Escritor e político, concorreu à presidência do Peru em 1990 contra Alberto Fujimori do partido de centro-direita Cambio 90. Concorreu pela liberal FREDEMO e perdeu o cargo para Fujimori que o assumiu durante 10 anos. 10 anos que ficaram conhecidos como “ditadura de  Fujimori”.

Recorde-se que em abril deste ano disse, em declarações publicadas pela Agência Lusa, que “ditadura será legitimada se Keiko Fujimori for presidente do Peru”, a propósito da candidatura da filha do ex-ditador à presidência.

Assume a luta contra a opressão das ditaduras e entristece-o a banalização da política e da cultura. E, para ele, “os inimigos da democracia estão dentro dela – são a indiferença (sobretudo entre os jovens) e a corrupção”.

Considera que os latino- americanos estão agora a perceber que a democracia, embora não seja perfeita, é preferível à ditadura e diz: “mesmo as democracias cleptomaníacas (o discurso interrompido pelos risos da sala) – que gostam de roubar- são preferíveis às ditaduras”.

Nelson Mandela é, para Vargas Llosa, um exemplo na política e em todas as dimensões da vida. “Fiz questão de o ir visitar à cadeia. É provavelmente das figuras mais extraordinárias da história”.

Também houve tempo para uma consideração sobre a candidatura de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos: “Se ele ganha é uma tragédia para todo o mundo”.

Falou sobre literatura

Sobre a cultura tem duas opiniões: não deve ser elitista mas também não pode ser facilitista.

“É impossível que um livro como o Ulisses chegue a toda a gente”, diz defendendo a democratização mas não a banalização da cultura nomeadamente através da televisão e das redes sociais. “Se chega facilmente a todos não é cultura”. “Vivemos hoje num mundo de especialistas incultos”, diz sem tentar esconder o incómodo.

Dois dos episódios mais maravilhosamente escritos: a descrição da aparição do Diabo em Dr. Fausto de Thomas Mann e a da morte de Madame Bovary, cujo trabalho está tão perfeito que o entusiasma mais do que deprime.

Confessa-se louco por Tolstoi e por Cervantes e é também na literatura que encontra exemplos de justiça como Os Três Mosqueteiros como exemplos. Este foi dos poucos livros que não se atreveu a reler, porque é um livro da sua infância, com o qual sonhou e viveu muito intensamente as histórias das personagens e tem medo de se desiludir. “Às vezes é preferível guardar só as memórias boas”.

Em tom seguro e fervoroso rematou a respeito desta temática que a literatura forma os cidadãos criativos e de espírito inquieto e crítico de que as democracias tanto precisam.

Falou sobre Portugal

Para além desta conversa no CCB com o jornalista Luís Caetano, participou na conferência “Que democracia?” promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Veio até cá com a namorada, Isabel Preysler, e adora a cidade de Lisboa. “Embora seja uma visita curta, Lisboa nunca me desilude”, diz chamando-a de “cidade muito literária” porque em cada esquina há uma livraria, a cidade transpira cultura e história e isso é inspirador.

O livro do desassossego de Fernando Pessoa foi o vencedor para melhor livro português de Mario Vargas Llosa.

E António Guterres é “a melhor escolha para assumir as Nações Unidas. Tem uma experiência acumulada a nível internacional, sobretudo no campo dos direitos humanos e é o indicado para o cargo”.

Falou sobre o novo romance: Cinco esquinas

A narrativa é passada no antigo bairro de Lima, no Peru, nos anos 90 – fim da ditadura de Fujimori. É um thriller que tem a imprensa do escândalo e os seus efeitos como pano de fundo. Consta que pode haver uma relação entre o livro e um momento que viveu recentemente, quando viu a relação com Isabel Preysler exposta num registo tabloid e com recurso a informações que não corresponderiam à verdade.

Falou orgulhosamente sobre a heroína do livro que emana da a heroína da imprensa sensacionalista (amarela) e que é a sua personagem mais querida. Começou por ser apenas uma personagem secundária, uma pequena jornalista mas começou a gostar tanto dela que a transformou praticamente na protagonista – “Foi-me fascinando e seduzindo e foi ganhando cada vez mais espaço na história”.

Sobre Carolina Pereira 23 artigos
Quando era miúda gostava de chaves e cusquices. Via as vizinhas, de chave na mão, na conversa e queria imitar. Fascinavam-me as experiencias de vida dos outros e aprendia muito com elas. No fundo já aqui havia em mim aquele bichinho de curiosidade e interesse que cresceu e que me levou ao jornalismo. Também quis ser professora de português mas com o tempo o meu caminho tornou-se mais claro- Contar histórias. O que me move é sobretudo o interesse e o questionamento perante toda a nossa existência. Se puder fazer disso a minha vida, seja qual for o meio, vou ser feliz. À parte isso, sou da Amadora, não gosto de cafés com sabores, não troco nada por uma boa conversa entre amigos e acredito neste projeto desde o primeiro dia.

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