Estudar tubarões e ser proprietário de uma sex shop? Isto e muito mais.

Diretamente do Cartaxo para o mundo: João Correia. O investigador, professor, empresário, escritor e agora comediante acaba de lançar o seu segundo livro da coleção autobiográfica e encontra-se agora na terceira ronda de espetáculos de stand-up comedy inspirado no mesmo.

A conhecida música da saga Star Wars começa a tocar. As icónicas palavras “A long time ago in a galaxy far, far away….” aparecem projetadas. De repente, de sorriso matreiro, a ajeitar os óculos e a passar a mão pelo cabelo que não existe, João Correia aparece, de microfone na mão, para dizer: “Desculpem, mas tinha de começar assim, porque, além de ser fã de Star Wars, no caso de não terem reparado, a minha vida é como a saga – escrita em episódios”.

João Correia lembra-se exatamente como começou na stand-up comedy: “Era 18 de Maio do ano passado, segunda-feira, e vinha a ouvir a Prova Oral na rádio. Estavam umas senhoras no programa a promover o seu espetáculo de comédia chamado “Só mulheres”. Quando cheguei a casa disse à minha mulher: Vamos ver este espetáculo!”

E continua: “Fomos ver e foi fantástico. Umas das senhoras – a Tânia – teve imensa graça e ficámos a falar um bocadinho, trocamos umas mensagens e a Tânia passou-me para o Paulo Oliveira, que é o rei da comédia portuguesa, que tem muita experiência e dá cursos há anos… E pumba! Cá estamos!”

“O João apareceu no curso como outro qualquer aluno, mas houve uma empatia quase imediata entre nós, porque o João não é um aluno que quer ser uma estrela de comédia, mas sim um aluno maduro que quer um desafio diferente. E em palco tem um à-vontade natural que faz com que faça sentido estar ali”, diz o fundador da Bang Produções, Paulo Oliveira.

Fazer stand-up comedy não é o primeiro dos ofícios deste senhor. João começou a sua carreira como investigador de tubarões: “Quando era puto e vi o filme “Jaws” e olhei para aquele tipo de oculinhos, o Matt Hooper, que sabia tudo o que era possível e imaginável sobre tubarões, decidi: Este gajo é o que quero ser quando for grande”.

E definitivamente fez esforços nessa direção ao seguir uma licenciatura em Biologia Marinha na Universidade do Algarve e um mestrado também em Biologia Marinha no Instituto Superior Técnico. “Honestamente, a minha passagem pela Universidade ficou um pouco aquém do que esperava… Tinha uma noção romanceada de que o ensino superior era aquele local sagrado do saber, mas, na verdade, havia muita badalhoquice também”, ri-se.

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João Correia é atualmente professor na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar de Peniche. A oportunidade surgiu-lhe em 2005 enquanto trabalhava no Oceanário. As suas funções de professor começaram a tempo parcial, mas depois tornou-se consultor externo no Oceanário e docente a tempo inteiro. Até hoje.

Sobre a profissão diz: “Sempre quis ser professor. Vou explicar melhor, nunca quis ser só professor. Adoro o contacto com os alunos e lançá-los nas carreiras. É verdade que só dou aulas a finalistas, que é malta que tem o brilho nos olhos do ‘vou começar uma carreira!’. E sabe muito bem escrever as cartas de recomendação e sentir que estou a ajudar no seus futuros, que estou a ser ponto-chave na vida deles”.

Também em tempos, quando começou a sua carreira na investigação e o trabalho com tubarões, uma carta de recomendação fez grande diferença para a sua vida. Após enviar várias cartas a pedir estágios na área, o investigador Samuel Gruber aceitou-o e João foi para as ilhas Bimini, nas Bahamas, estudar o comportamento dos tubarões limão, como sempre sonhou.

O atual amigo e ex-aluno, Luís Alves, não disfarça o seu apreço pelo antigo professor: “O João é uma daquelas pessoas cujo carisma cria uma espécie de mini-campo gravitacional. Quem, senão o João, me convidaria para ir fazer um transporte de tubarões que envolveria três indivíduos num carro durante três dias, muitos quilómetros, poucas horas de sono, litros de bebidas energéticas e cheiros cuja simples memória provoca calafrios? Ao pé do João a vida é mais excitante, uma pessoa tem vontade de conhecer mais, fazer mais, ser mais!”.

Sobre a investigação diz: “A verdade é que a malta da investigação raramente faz aquilo que inicialmente tinha pensado, anda um bocado ao sabor do vento e o meu caso não foi exceção. Após o estágio dos tubarões limão apareceu o IPIMAR (Instituto de Investigação das Pescas e do Mar) e a oportunidade de ir trabalhar com tubarões mortos na biologia pesqueira. Depois o Jardim Zoológico e o Oceanário, onde cuidei e tratei de tubarões vivos. O meu doutoramento é em pesca comercial de tubarões em Portugal e ainda dou uns toques nisso, mas agora vou publicando artigos, especialmente pela Flying Sharks, em relação ao transporte de tubarões”.

E de facto João não desilude como fanático de tubarões. Quando começa a falar deles vê-se o brilho nos seus olhos: “O facto de os tubarões não terem praticamente evoluído é alucinante. Estão quase fotocópia do que eram há uns milhões de anos, porque eles têm três coisas na cabeça e mais nada – comer, não ser comido, fazer tubarõezinhos e ‘tá a andar. Não precisam realmente de evoluir: é uma máquina absolutamente extraordinária”.

Os tubarões Brancos e Anequins são os seus favoritos, mas os Martelos e Azuis são os que mais gosta de estudar e trabalhar. Ao cuidado da sua empresa, todos estes tubarões e muitos mais já voaram. Fundada por João em 2006, a  Flying Sharks é uma empresa de transporte de tubarões e peixes ornamentais para todo o mundo.

Após intensa educação no tratamento de tubarões pelo mentor australiano Mark Smith, que é “o boss de tudo o quanto é tratar e lidar com estas feras”, como diz João, e depois de, ao serviço do Oceanário de Lisboa, ter feito vários serviços de transporte de tubarões para oceanários no mundo inteiro, João decidiu lançar-se na área com uma empresa sua.

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“A Flying sharks é a menina dos meus olhos. A Alalunga é interessante, mas, no caso da Flying Sharks, apenas existem cinco empresas no mundo inteiro como esta e é uma operação de altíssima responsabilidade que não tem margem para falhar. Se os bichos morrem, do ponto de vista ético, é catastrófico. E financeiro é pior ainda. Uma operação move milhões de euros”.

Alalunga é a loja de lingerie/sex shop de que é proprietário. Tudo começou como um negócio pacato, com a sua primeira mulher, de revenda de artigos. Mais tarde, transformou-se num bom negócio que teve os seus dias de ouro e que atualmente se encontra em modo automático, mas que ainda o entusiasma bastante: “Com as encomendas vêm as dúvidas que são engraçadíssimas. E sou muito franco com as pessoas que geralmente dizem ‘é muito porreiro falar consigo, isto não é um tema fácil e você está sempre à vontade’. Gosto de pôr as pessoas à vontade” diz.

E realmente João é uma pessoa que não se importa de falar sobre o tema sexo, como descreve nos seus livros “Sex, Sharks and Rock n’ Roll”. Não se via como escritor, mas, após compilar alguns textos de desabafo das suas aventuras e receber aprovação por vários colegas e amigos, decidiu fazer um livro a sério. Depois de bater de porta em porta, conseguiu publicá-lo. “Agora, em Fevereiro, acabou de sair o segundo volume. Depois sai o terceiro, tudo histórias macacas e muito divertidas. Não sei se estão a sair demasiado rápido ou devia esperar… Na verdade, eu sou um biólogo marinho nem sei como é suposto fazer”, diz a rir.

Este homem dos sete ofícios afirma: “Tenho dias muito preenchidos, é verdade. E sabe bem! Tenho dias intensos. É difícil? É e não é. Aqui entre nós, a ideia é não perder tempo. Eu faço o meu trabalho todo relaxado e, se tiver duas horitas de almoço, faço-o a ver um cinema momento zen. Depois o resto do dia é ter as reuniões coladas, e que não tenha de andar de trás para a frente. Sou obsessivo compulsivo em tentar ser o mais eficiente possível. Nove da noite tento estar despachado para estar com a família”.

Para exemplificar, Luís Alves conta: “As minhas conversas com o João, hoje em dia, são uma espécie de “speed dating”, onde tento passar as minhas ideias enquanto ele mastiga uma refeição rápida e responde a uma infinidade de e-mails, tudo isto enquanto mantém uma conversa ao telefone. Vá, talvez esteja a exagerar ligeiramente, mas mesmo muito ligeiramente”.

Os pais foram as pessoas mais importantes da sua vida. “Apoiaram-me em tudo, ensinaram-me bem, tentaram mostrar-me o mundo como puderam, ajudaram monetariamente. Tive mesmo sorte e dou valor a isso”. Um grande apoio foram as suas mulheres e as namoradas entre os dois casamentos: “Elas são a exceção espetacular, porque me apoiavam, mesmo eu tendo a vida atarefada que tenho, sem nunca falarem do discurso ‘ah não tens tempo para nós’ e é mesmo sincero. O pessoal todo teve sempre uma pachorra do caraças!”.

O amigo de longa data, Filipe Pereira, resume: “O Juanito, como carinhosamente lhe chamo, é um altruísta por natureza, mas faz-lhe muito bem colocar-se ocasionalmente no lado frágil da barricada para que o vejam como o rapaz do Cartaxo que queria estudar tubarões. Formou-se em Biologia Marinha, foi um empregado do mais alto calibre que algum dia passou pelo Oceanário de Lisboa, onde adquiriu humildemente conhecimentos, onde fez amizades que até hoje o acompanham”.

Os planos para o futuro são sempre os mesmos para João: “Aproveitar as oportunidades que aparecem, trabalhar com afinco nas mesmas e lutar por mais”. Acrescenta ainda: “Não me arrependo de nada do que fiz, apenas do que não fiz. Houve muitas palermices que admito e coisas que podia ter gerido melhor, mas se voltasse atrás não fazia diferente”.

Fotos: Nuno Vasco Rodrigues e www.timcalver.com

Sobre Ana Margarida Pereira 77 artigos
Mulher das Ciências de diploma e aprendiz de Comunicadora de Ciência aventuro-me pelo mundo do Jornalismo - aqui no Ardinas escrevo na secção de Ciência. Os meus traços mais peculiares, fora a personalidade, para a maioria das pessoas, é viver na Amadora, ser alérgica à canela e apesar de não ter piada nenhuma querer ser comediante.

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